Fazendo história

por Rodrigo Grilo

Primeira mulher a comentar um jogo masculino de futebol na TV Globo, Ana Thaís Matos fala sobre Marta, Pelé, machismo, VAR e Belo

Ana Thaís Matos fez história na TV brasileira ao se tornar a primeira mulher a comentar um jogo de futebol na TV Globo, em junho passado, durante a transmissão da partida entre Brasil x Jamaica, na Copa do Mundo feminina.

Três meses depois, a comentarista faz história de novo: a partir deste domingo (8 de setembro), ela passa a comentar também jogos do futebol masculino na TV aberta – o que já fazia antes na TV por assinatura, no SporTV: "Como mulher, fico feliz que minha trajetória inspire outras mulheres e, como jornalista, outros e outras jornalistas”, diz ela.

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Tente imaginar o que significa ser uma mulher apontando o dedo para o que está certo e errado no futebol. Ana Thaís foi alvo de haters nas redes sociais – desenvolveu crises de ansiedade e pânico por causa de ofensas. Mas, enquanto os cães ladram, a caravana da comentarista não para. No papo com a Tpm, a comentarista fala sobre Marta, Pelé, machismo, VAR, a juventude no litoral paulista e sua paixão por Belo:

Tpm. Qual o legado a Copa do Mundo feminina deixa para nós?
Ana Thaís Matos
. No Brasil, nunca mais iremos falar de futebol feminino como antes. A narrativa agora é outra. Há mais gente cobrando nas redes sociais, na TV e os campeonatos no país estão melhorando, com série A e B. O futebol feminino entrou de fato no radar dos eventos e das coberturas midiáticas. Em um volume inferior ao masculino, mas é um passo importante, como é também ter mais mulheres praticando e mais investimentos financeiros das confederações e marcas. Estas têm que ser mais ativas, cobrar de clubes e federações discursos que chancelem seus posicionamentos, usados no marketing. Não dá para uma federação permanecer com pessoas e discursos machistas no contexto do futebol feminino.

“Como mulher, fico feliz que minha trajetória inspire outras mulheres e, como jornalista, outros e outras jornalistas”
Ana Thaís Matos, jornalista

Quando você bateu de frente com o machismo presente no jornalismo esportivo? O meu primeiro estágio foi em uma redação de jornal e foi muito difícil. Ali, vi o que iria encarar pela frente em relação ao preconceito com mulheres falando de futebol. Um dos editores não me deixava escrever textos sobre os jogos. Quando entrei, éramos quatro estagiárias mulheres. No fim do ano, só havia eu. Era um ambiente nocivo, mas foi a minha primeira escola do jornalismo e talvez a mais importante. Fiz alguns ótimos amigos, mas não foi nada fácil. É muito difícil desistir de um sonho por causa de um terceiro e vi muitas meninas abandonarem o barco. Sempre fui do conflito. O instinto me ensinou que para conseguir alguma coisa é preciso bater o pé. E isso, claro, gera incômodo. Várias vezes questionei escolhas quando percebia que era boicotada.

O que a mudança de repórter de campo de rádio para comentarista de TV exigiu de você? É clichê, mas, primeiramente, muita resiliência. O contexto é diferente quando uma mulher opina. Eu me manifesto sempre pautada por informações. Nunca deixei ou deixarei de ser repórter. Antes, na rádio, eu me debruçava sobre as informações de apenas um clube [Ana cobriu o Palmeiras por três anos]. Já na TV, tive de me aprofundar para saber sobre todos os times. Hoje, passo mais tempo lendo, assistindo a TV e ouvindo podcasts. Não me permito entrar no ar sem saber pelo menos o básico  de algum assunto. Porque temos o retorno imediato quando falamos de um assunto que as pessoas percebem que não dominamos.

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“O instinto me ensinou que para conseguir alguma coisa é preciso bater o pé. E isso, claro, gera incômodo”
Ana Thaís Matos, jornalista

E nas redes sociais as pessoas costumam ser fiscalizadoras cruéis. Já tive crises de ansiedade, pânico, por causa de rede social. Eu era muito agressiva naquele ambiente e, hoje, não tenho mais estômago pra isso. Aí, parei de procurar menções ao meu nome. Criei uma capa de proteção e, quando fico sabendo o que dizem de mim, não me sinto mais diminuída. É um terreno delas, e não meu. 

Entre vocês, jornalistas esportivas, rola uma pressão para não darem margem a críticas baseadas na questão de gênero? Sim e é muito angustiante. A classe masculina dos jornalistas é muito forte, um valoriza o trabalho do outro, é incrível. Nós, mulheres, devemos fazer o mesmo. E nós não éramos estimuladas dessa forma. A gente convive, então, com a cobrança de não errar, de não estar abaixo das expectativas. Muitas são ironizadas, desautorizadas no dia a dia. Estamos ali tecendo um comentário, mas sabemos que os questionamentos têm, também, a intenção de checar se entendemos e gostamos mesmo de futebol. E competimos com os caras, que não passam por isso.

Quais foram suas referências no jornalismo esportivo? São recentes, como a Renata Fan. Ela é um fenômeno, uma mulher que chegou em São Paulo, um mercado extremamente competitivo, vindo de outro estado [Rio Grande do Sul], assumiu publicamente o seu time de coração [Internacional de Porto Alegre] e comanda há anos uma mesa redonda composta somente por homens. Ou seja, há poucas referências. A coisa irá melhorar quando o homem deixar de ser usado como referência para tudo. Não é legal comparar a Marta com o Pelé. E não é porque estamos diminuindo uma e enaltecendo o outro, mas porque quando pararmos com comparações do tipo “Marta é o Pelé de saias”, “Serena Williams é o Federer do tênis” daremos à mulher o protagonismo que ela tem. 

“A classe masculina dos jornalistas é muito forte, um valoriza o trabalho do outro, é incrível. Nós, mulheres, devemos fazer o mesmo”
Ana Thaís Matos, jornalista

O jornalismo esportivo no Brasil contribui para o fato de atletas não assumirem a sua opção sexual? A sociedade contribui para que as pessoas tenham receio de se assumirem, oprime a liberdade de uma pessoa fazer e ser o que bem entender. Quantos jornalistas do esporte são gays assumidos? Conheço poucos. O futebol ainda é pautado por alguns clichês machistas, piadinhas. O goleiro é chamado de "bicha" no estádio lotado pela torcida rival toda vez que vai bater o tiro de meta. Tudo isso contribui de forma negativa para que um gay não se sinta à vontade de se assumir no ambiente esportivo. Quero acreditar que a gente pode contribuir para que esse assunto seja visto de uma forma diferente.

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O que motivou o seu discurso emocionado no ar, ao final do jogo que eliminou a seleção brasileira feminina da Copa, durante a transmissão? Eu sou pisciana, emotiva, não consegui controlar. Quando soube que iria comentar a Copa do Mundo feminina, me aprofundei no dia a dia e nas histórias das jogadoras. E descobri o passado da menina que foi criada pela tia e sofreu violência em casa, da que morou quatro anos na Dinamarca com filho e marido... Então, eu me via naquele campo de futebol, na pele daquelas meninas, com aquela camisa. Fora as outras atletas que defenderam a seleção e jogaram comigo. A partida estava terminando e, fisicamente, elas já não estavam suportando, porque a preparação pela CBF não foi ideal. Com isso tudo na cabeça, foi muito difícil me segurar. Fiquei com medo da bronca que poderia levar da minha chefe [risos]. Mas aprendi uma frase durante a faculdade: o importante é que as emoções sobrevivam. 

Dentro de campo a Marta é genial, mas fora dele, para muitas pessoas, é tímida para criticar a forma como é gerenciado o futebol feminino brasileiro. Por quê? A Marta de 2007 [quando foi eleita a melhor jogadora do Mundial daquele ano] tinha um discurso mais forte voltado para a desigualdade entre os gêneros. Mas acredito que as assessorias e empresários das atletas do futebol feminino têm contribuído pouco em relação ao discurso que essas mulheres, que são humildes e precisam aprender o significado de igualdade, devem ter. Igualdade não é equiparação de salário apenas, é empoderar o trabalho de outra mulher, valorizar a conquista, as dificuldades, saber o que é ser uma líder. É uma construção de discurso. Mais do que as jogadoras se manifestarem, a chave do negócio é saber como as mensagens chegam até elas.

Por exemplo? Será que empresários e assessores se preocupam em reunir feministas para conversarem com as jogadoras? Ou promover uma palestra com a Djamila Ribeiro? Muitas dessas jogadoras não têm formação. O Pelé foi, e ainda é, criticado porque também falhou no discurso, ou não atendeu as expectativas que tinham em relação a ele, por não falar sobre o papel do homem negro. Então, mais do que apontar o dedo e dizer que a pessoa está errada, não briga pela causa A ou B, é preciso entender a partir de qual contexto ela está construindo o seu discurso. A cobrança da Marta após o fim do jogo que eliminou o Brasil desse Mundial, quando ela exigiu mais suor das atletas em prol do futebol feminino brasileiro, ficou marcada. Pegou mal com algumas companheiras, mas o que fez a Marta chegar naquele discurso? É mais importante a gente entender do que apontar o dedo e falar se ela está certa ou errada. 

O árbitro de vídeo, o popular VAR, mais atrapalha ou auxilia o futebol? Quando o protocolo dele é cumprido a rigor, ou seja, quando não interfere na partida jogada, é uma ferramenta que contribui. Porque, durante o jogo, o árbitro de campo tem de ser determinante. O VAR é um complemento para evitar o erro, mas não deve alterar o andamento da partida. Por enquanto, não tem sido bem utilizado aqui, como também ocorreu na Itália. E só irá melhorar quando o árbitro for melhor, deixar de lado o medo de errar e seguir o instinto do que deve fazer dentro de campo. Mas se tem algo no futebol brasileiro que não funciona é a arbitragem. 

“Igualdade não é equiparação de salário apenas, é empoderar o trabalho de outra mulher, valorizar a conquista, as dificuldades...”
Ana Thaís Matos, jornalista

Aos 17 anos, você deixou a casa da família, em Itanhaém, litoral paulista, para morar em São Paulo. Por quê? Sempre fui viciada em futebol. Naquele ano, 2002, acompanhei todos os jogos da Copa do Mundo, na qual o Brasil foi pentacampeão. Aquele torneio foi muito importante na minha vida. Estava no auge da adolescência e passava por algumas dificuldades em casa, problemas enormes na família. Eu e a minha mãe, líderes daquela situação, precisávamos tomar uma atitude. Impulsionada pelo fato de o Brasil vencer a Copa, coloquei na cabeça que deveria ir para São Paulo ver os jogadores desfilarem. 

E como fez? Sem que a minha mãe soubesse, em um final de semana, fui para uma festa de pagode em São Paulo, onde estariam os jogadores da seleção. Obviamente não consegui entrar, porque tinha R$10 na carteira e o local era VIP. Mas decidi que gostaria de ficar na capital. Retornei para Itanhaém e insisti com a minha mãe que, como passávamos por dificuldades no litoral, poderíamos juntas fazer a coisa andar em São Paulo. E assim eu, a minha irmã mais nova, minha mãe e um sobrinho que ela cuida viemos para a capital. Comecei a trabalhar, mas foi muito difícil para a minha mãe, que retornou para Itanhaém. Eu fiquei e fui morar com uma amiga.  

Quais eram os seus ídolos na adolescência? Minhas amigas tinham pastas com fotos de boys band e eu, uma com reportagens e fotos de jogadores de futebol. No litoral, fui muito fã do Edmundo. Eu pedia para a minha irmã me levar aos jogos, para tentar encontrá-lo de algum jeito, sei lá, no vestiário. Depois, passei a achar o Ronaldinho Gaúcho incrível. Já jornalista, o encontrei em um estádio e travei, fiquei segundos paralisada com o microfone na mão. Não entendia o que estava acontecendo. 

“Não dá para uma federação permanecer com pessoas e discursos machistas no contexto do futebol feminino”
Ana Thaís Matos, jornalista

Eu soube que o seu sonho é casar com o cantor Belo. Sou perdidamente apaixonada por ele. Hoje, inclusive, estou negociando por aqui para poder ir ao show dele [risos]. Conheci o Belo faz pouco tempo aqui na TV. 

E como foi essa primeira vez? Eu encontrei o Belo uma vez no aeroporto. Pedi uma foto, mas não consegui nem falar direito. Agora, ele sabe que vou a shows e me reconhece de longe. Mas é eu encontrar com o Belo e ficar meio idiota, não sei o que fazer. Pô, é o Belo, né? Passei a vida acompanhando esse cara, indo a shows. O Belo hoje é bem casado. Não sonho mais casar com ele e não sei se tenho ainda o sonho de casar na vida. Poucos são os homens que têm o poder sobre mim como o Belo e o Bruno, do Sorriso Maroto. Esse é outro. Um dia, vi o Bruno no shopping e fiquei pensando: “Não posso encontrar com ele” [risos]. Toda semana vou a algum samba no Rio. Algumas coisas me sustentam aqui: a ioga, corrida, terapia e o samba.

Créditos

Imagem principal: Divulgação/Globo

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