por Natacha Cortêz
Tpm #148

Com orçamento mínimo, Vera Egito produz seu primeiro longa-metragem, SP é uma festa

Aos 32 anos e depois de dois curtas exibidos na Semana da Crítica do Festival de Cannes, Vera Egito produz seu primeiro longa-metragem. Não Maria Antônia – A incrível batalha dos estudantes, aquele que vinha prometendo desde 2011, mas SP é uma festa. Filmado na cidade de São Paulo em apenas uma semana, o roteiro “é uma crônica da pós-juventude paulistana”, diz Vera, que acrescenta: “Pelo menos da pós-juventude próxima de mim”. A diretora e roteirista paulistana fez questão de que o elenco e a equipe fossem formados por seus melhores amigos – todos novatos no cinema. O motivo? Primeiro, o caráter colaborativo que ele ganha. “Todo mundo está trabalhando de graça”, conta. Depois, o tom documental que rostos menos conhecidos trazem ao filme.

O cantor Thiago Pethit e as atrizes Renata Gaspar e Maria Laura Nogueira vivem um trio inseparável. Diego [Thiago] e Michaela [Renata] são gays e passam por situações dramáticas e, ao mesmo tempo, cômicas. Júlia [Maria] é uma menina que teria tudo pra ter uma vida perfeita: ela é bonita, bem educada e ganhou um apartamento dos pais. Mas, acabou de levar um fora, está fazendo 30 anos e tudo dá errado em seu emprego. Apesar do título escolhido, Vera explica que não existe um desejo de retratar nada específico de São Paulo. “A cidade se mostra nos personagens, em como eles vivem.”

Só aqui no site, você lê a entrevista completa com Vera. 

Por que SP é uma festa aconteceu antes de Maria Antônia – A incrível batalha dos estudantes? Em que momento ele se tornou mais acessível que a sua primeira ideia de longa? SP é uma festa surgiu de várias outras histórias, minhas e de amigos, coisas da vida real. E em junho de 2013, fui pra Cannes (festival de publicidade) e encontrei uma amiga minha, Rafaela, e em alguma noite de bebedeira falei que tinha essa ideia e que eu pensava na Maria Laura pra atuar. Acho que chega um momento que não faz mais tanto sentido pensar em curta-metragem, e eu já queria muito filmar um longa. Você começa a pensar em histórias com mais caldo, mais densas e elas naturalmente precisam de mais tempo pra serem contadas. Não sei se vou ter mais ideias pra curta, acho difícil. E por que antes do Maria Antônia? Porque era uma história mais fácil, mais próxima do meu contexto, que eu podia produzir entre amigos. É um roteiro que poderia ser feito com dinheiro, mas também sem dinheiro, claro.

Está sendo feito sem dinheiro? Sim. O Heitor (Dália), que é o produtor investidor, nos deu uma verba. 150 mil até agora. Que é uma verba de curta, né? Mas como investimento pessoal, já que é do bolso dele, é um grande investimento. Mas pra um longa, imagina, não existe esse tipo de investimento. Tá todo mundo trabalhando de graça, estamos filmando em locações emprestadas. A gente não tem figurista e maquiador. Fizemos algumas provas de figurino, escolhi uma paleta de cores, mas as roupas é do próprio elenco. Algumas até minhas. Para alguns personagens, tivemos o trabalho de um figurista profissional. A Emannuelle Junqueira, por exemplo, fez o figurino da Maria Laura. A Ana Wainer fez o da personagem da Ana Cañas. Já a Renata Gaspar, as roupas são todas dela. E isso traz uma verdade para os personagens. SP é uma festa foi pensado pra ser feito “na roubada total”. E ele não perde nada com isso. Não acho que ele seria melhor se tivessemos mais dinheiro. 

Você escreveu o roteiro e ele foi pensando nos seus amigos, em suas experiências. Foi isso? Também. Mas acho que é uma crônica do que acontece hoje em São Paulo. Especialmente no meio em que vivo. Tem muita passagem no roteiro que é absolutamente real, que aconteceu muito próxima de mim. Já os personagens, são todos muito inspirados no que vivi nos últimos cinco anos em São Paulo. Acho que tem um tom de comédia dramática. Comédia é uma pessoa se dando mal, drama também. Mas no drama você se identifica com aquela pessoa, enquanto na comédia, você se distancia e ri da cara dela. E a comédia dramática é um pouco das duas coisas. Você se diverte com as coisas que dão errado, mas você leva a sério aquele personagem. Você queria que as coisas dessem certo pra ele. Esse é um limiar do cinema, o independente americano faz muito isso. É o que temos buscado no tom deste filme. 

E sobre a escolha do elenco. Por que a escolha do Thiago, por exemplo, que é famoso por seu trabalho como cantor? Conheço o Thiago há doze anos pelo menos. Quando nos encontramos, foi nesse contexto, como ator. E lembro de uma vez em 2006, quando a gente se trombou na Cinemateca, e ele me disse "vou virar cantor. Tô fazendo música agora". Um ano depois, ouvi um single dele no site da Mtv. Então pra mim, ele sempre foi ator e foi muito natural pensar nele. 

Sobre as locações, existe um recorte de noite também. Vocês filmaram em algumas casas noturnas. A gente filmou no Mandíbula, no B. Bar, na Lions, na festa Javali. Não existe um desejo de retratar a noite de São Paulo. Na verdade, não tem um desejo de retratar nada de São Paulo. Acho que São Paulo está nos personagens, em como essas pessoas vivem. Em nenhum momento a gente teve essa preocupação de retratar pontos da cidade.

Como é sua relação com São Paulo? Você sempre morou na capital? Nunca morei em outro lugar. Só sai daqui pra viagens breves. Sempre fui daqui, sempre morei aqui. Fiz USP. Tenho uma trajetória muito paulistana, apesar dos meus pais serem do Rio de Janeiro. Minha mãe veio pra cá grávida de mim. Meu pai é um carioca totalmente reclamão do Rio. Eu sou bem paulistana, mas não tenho essa cultura de família paulistana. 

Isso é bem comum aqui em São Paulo. Pessoas que moram aqui, mas não têm família aqui. Acho que tem muito disso mesmo. Muito gente de fora que não tem raízes daqui. Mesmo na equipe do filme. Temos uma portuguesa, uma espanhola, uma italiana, uma curitibana, um peruano. E todo mundo mora aqui. E acho que é uma marca de qualquer cidade grande, e no Brasil. Lembro que na USP tinha muita gente de fora. E foi muito louco ver essas pessoas florescendo e como São Paulo possibilita isso, em todos os sentidos. São Paulo abraça as diferenças. Abraça a mudança. E claro que existem grupos conservadores, mas eles só existem como uma reação a um lugar onde as coisas são muito permitidas. Os preconceituosos só se manifestam porque eles reagem à liberdade alheia. O lugar onde a liberdade não acontece, talvez esses reacionários se manifestem menos. Amo São Paulo por isso. Nunca tive vontade de morar fora. No Brasil, nenhum outro lugar, nenhuma outra possibilidade pra mim. Às vezes você vai pra uma cidade superlegal e pensa "queria morar aqui". Mas é uma coisa meio fogo de palha. Gosto muito de trabalhar e aqui trabalho muito, aqui isso é muito possível. Sempre estive engatada em um trabalho. Sair de São Paulo por um período longo era perder tempo, perder espaço, perder contatos e oportunidades. Deixar de fazer por aqui. E por um negócio que parecia divertido e só. Nunca troquei essa diversão por trabalho. E São Paulo também tem isso: se você gosta de trabalhar, aqui é o lugar. 

Maria Antonia também é um filme sobre a cidade de São Paulo. E também tem um recorte de tempo, uma crônica de uma geração. É parecido com o o SP é uma festa. Talvez. Eu até estava pensando que depois da montagem de "SP", eu volte para o Maria Antônia com esse olhar que eu sempre pretendi pra ele, um retrato mais jovem. Um retrato mais fresco sobre essa juventude dos anos 60. Mais pop. Agora, o que é louco na experiência do "SP", é que eu sei exatamente como as pessoas falam, sei como elas agem. Eu sei o que seria possível. E isso foi muito legal. Não ter essa insegurança e essa necessidade de pesquisar tanto. Aquela coisa de ficar me perguntando se aquilo era crível. As pessoas que leram o roteiro, e a própria equipe, todo mundo se identifica muito com os personagens. Sou eu alí, e os meus amigos. Tudo é muito próximo. Depois, "SP" tem esse recorte de pós-juventude. Os 30 é uma idade que você não pode mais ser tudo que você quiser. Aquela ideia dos vinte de tudo que eu quiser vou ser, não rola mais. O meu sonho de rock star não deu certo. E aí? Qual é o plano B que a minha realidade comporta? E as mulheres têm esse lance de casar, ter filhos. Que é um lance que pressiona muito, tanto para as que têm filhos e conseguiram se casar, quanto para as que não. O engraçado é que às vezes a gente cai pra um lado errado. Sou casada, tenho filhos e nem por isso sou menos liberta. Quando você quer criar um preconceito, você corre o risco de criar outro. Fica tão bobo e tão vazio quanto. E no fundo só tá todo mundo buscando um caminho pra ser feliz. Acho que os meus três personagens têm isso. São anti-heróis porque toda a expectativa que se tem sobre sucesso com eles não dá muito certo. Nossa vida é assim. Nem tudo dá certo. Às vezes dá muito errado e então você tem que chorar mesmo, não tem jeito. Chorar é importante também. 

Vai lá: Estreia em junho de 2015 nos cinemas

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