por Gisele Teixeira

Uma lista com cinco mulheres, cinco países, cinco livros pelos quais você vai se apaixonar

Tire a manta do armário, sente-se no canto mais quentinho da casa e aproveite o finzinho do inverno para descobrir o que andam pensando – e escrevendo - as nossas vizinhas da América Latina.    

O Vento que Arrasa, de Selva Almada (Argentina)

“– Passeando por aqui? – perguntou o motorista.
– Vamos visitar um velho amigo – disse o Reverendo.
– Tá certo. Bem-vindos ao inferno.”

Com frases curtas, certeiras e afiadas, esta argentina vem conquistando o continente. A escritora nasceu em 1973 e morou até os 27 anos na província de Entre Rios, próxima de Buenos Aires. Seu passado no interior do país tem enorme influência em seus livros, especialmente na primeira novela, O Vento que Arrasa, escrita em 2012 e publicada no Brasil em 2015 pela Cosac Naify. O romance se passa em apenas um dia e meio, e conta a história de Leni, 16 anos, e seu pai, um pastor que vive a percorrer o país em busca de sinais de Deus. Com problemas no carro, pai e filha fazem uma parada na oficina mecânica do Gringo, local onde se desenrola toda a trama. O livro mais recente de Selca Almada, El Desapego es una manera de querernos, ainda não foi traduzido ao português.

Sangue no Olho, de Lina Meruane (Chile)

Vejo tudo sem ver, vejo tudo através da lembrança do já visto ou através dos teus olhos, Ignacio.”

Sangue no Olho, título de estreia da chilena no Brasil, é literal: a protagonista do romance, Lucina, tem o olho encharcado de sangue por complicações decorrentes da diabetes. Aos poucos, conforme a enfermidade avança, a relação com a família e sobretudo com o namorado é colocada à prova. Elogiada por Roberto Bolaño e por Enrique Vila-Matas, Lina Meruane teve este primeiro livro publicado no Brasil em 2015, pela Cosac Naify. A escritora nasceu em Santiago, Chile, em 1970, e mora nos Estados Unidos, onde fez doutorado e dá aulas de cultura latino-americana na Universidade de Nova York. 

Um, dois e já, de Inés Bortagaray (Uruguai)

“O assento está reto. Meu pai é reto. Dirige depressa, mas com cuidado. Travo o pino da porta dele. Agora sim, ele está a salvo. Eu também, porque meu pai não vai despencar na estrada, e vou continuar a ter pai, porque ele não vai despencar.”

Simples, curtinho, delicado. Assim é o primeiro livro da uruguaia Inés Bortagaray, nascida em Salto, em 1975. Um, dois e já foi publicado no Brasil pela Cosac Naify em 2014 e é uma ode às memórias afetivas. A história é narrada em primeira pessoa por uma menina que conta a viagem de verão da família até um balneário uruguaio, dentro de um carro apertado, no início dos anos 80 - época em que o Uruguai ainda vivia sob a ditadura e a Guerra das Malvinas acontecia na Argentina. A voz da narradora revela a dinâmica familiar, na qual ela ocupa a determinante posição de irmã do meio. Humor, ironia, disputas, estratégias, alianças e brigas pelo lugar na janela e atenção paterna. Ah, a infância…

Nunca fui primeira dama, de Wendy Guerra (Cuba)

“...minha proeza é singela: sobreviver nesta ilha, evitar o suicídio, suportar a culpa de minhas dívidas, o acaso de estar viva, e desligar-me definitivamente desses persistentes nomes de guerra e de paz.”

O segundo romance desta escritora cubana – nunca publicada em seu país natal - junta trechos de diários, poemas, letras de canções, listas, cartas, documentos oficiais e históricos e reminiscências. A narradora, Nádia Guerra, escreve a história proibida das mulheres de Cuba por meio do relato de uma mulher obcecada pela ideia de encontrar a mãe (Albis Torres), que a abandonou aos dez anos de idade. Ao trazer a mãe de volta a Havana, resgatada em Moscou com uma doença que lhe tirou a memória, Nadia Guerra descobre em uma caixa de objetos pessoais os rascunhos de um romance que Albis escrevia sobre Celia Sánchez, secretária pessoal de Fidel Castro, heroína da revolução cubana. Um livro que a mãe jamais conseguiu publicar, fruto de uma amizade que a forçara a abandonar a um só tempo sua filha e seu país. Nunca fui primeira dama saiu pela Benvirá.

A História dos meus dentes, de Valeria Luiselli (México)

“Os livros que eu escrevo sempre funcionam como mapas, procurando unir pontos de uma constelação não antes vista.”

A escritora é super jovem, nasceu em 1983, mas já tem um currículo surpreendente: seu primeiro romance, Rostos na Multidão, também lançado no Brasil, recebeu o prêmio Los Angeles Times Award. O segundo, A História dos Meus Dentes (Alfaguara, 2016), que ela veio divulgar recentemente na Flip deste ano, entrou na lista Melhores do Ano, do New York Times. A história é realmente pouco usual. Narra a façanha de Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como “Estrada”, e sua missão: trocar todos os seus dentes. Como ele é leiloeiro, inventa que os dentes foram de escritores famosos, como Virginia Woolf e Jorge Luis Borges. O personagem possui algumas habilidades que podem ajudar nessa empreitada, como, por exemplo, imitar Janis Joplin, contar até oito em japonês, colocar um ovo em pé e decifrar biscoitos da sorte chineses. 

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Imagem principal: Reprodução

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