por Renata Penzani

Em seu novo romance, ’O inventário das coisas ausentes’, escritora faz do amor um verbo no passado

 

 “Eu te amo, diz o texto. Talvez entre o eu te amo e o amor propriamente dito haja um espaço intransponível. Talvez o tempo que passa. Mas não apenas. Talvez um inevitável desencontro. Essa incoerência. Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção.” (trecho do romance inédito O inventário das coisas ausentes)

 

"A língua portuguesa é minha pátria", responde Carola Saavedra quando perguntam a ela como é ter nascido no Chile e logo ver-se de mudança para o Brasil, tendo que trocar antes dos quatro anos de idade o espanhol pelo português. Ainda que o primeiro livro da escritora se chame, ironicamente, Do lado de fora, o não pertencimento nunca fez parte da relação da escritora com o país que a recebeu ainda pequenina. Sua resposta, longe de ser mera cordialidade, é um gesto de carinho retribuído. Fluente de quatro línguas, é no português que ela "volta para casa".

Com cinco livros publicados e diversas participações em antologias - entre elas, Os melhores jovens escritores brasileiros, publicada pela revista Granta e editada no Brasil pela editora Objetiva - Carola faz da língua seu território e deixa supor, por trás do sotaque carioca, um apreço por escolher as palavras exatas para dizer o que quer dizer, como se fizesse um esforço repetido para concordar com o que diz uma de suas personagens: "talvez cada cidade tenha a sua história sonora (...) e há também o barulho do idioma, a musicalidade do idioma".

Carola lança agora pela Companhia das Letras seu quarto romance, O inventário das coisas ausentes, que amadurece uma intenção sempre presente em sua literatura e que Ferreira Gullar resume bem quando diz que "a arte existe porque a vida não basta". Antes mesmo de o livro chegar às livrarias (o que está previsto para o fim deste mês) a Tpm conversou com Carola sobre os prazeres e dificuldades de fazer ficção num mundo tão fatigado de discurso.

Tpm: Primeiramente, gostaria que você falasse um pouco do processo de criação de O inventário das coisas ausentes. Como você resumiria para o leitor essa história - que ainda nem chegou às livrarias?
Carola: Há diversas formas de apresentar o meu livro, provavelmente porque ele conta muitas histórias. Mas eu diria que é a história de um filho que reencontra o pai depois de 23 anos de afastamento, uma relação muito difícil, cheia de decepções e rancores mútuos. E é também a história de um escritor obcecado com uma mulher, Nina, e seu passado, e que a usa como base para a personagem do romance que está escrevendo. Essas duas narrativas a todo instante se cruzam e se entrelaçam. Quanto ao processo de criação, eu parti dos seguintes questionamentos: O que é inventado e o que é autobiográfico num romance? É possível inventar alguma coisa que não tenha por base a nossa experiência real? E como essa realidade se modifica quando a transformamos em ficção? Por isso pensei num livro que tivesse duas partes, numa a história em si, e na outra, os cadernos de anotações de quem a escreve, suas ideias, projetos e obsessões. É claro que esse caderno também é ficção. Enfim, é um livro que pode ser lido de muitas formas.
 
Depois de um livro como Paisagem com dromedário, no qual a morte e o discurso do fim está muito presente, você escreve este livro sobre amor e sobre começos - ainda que o objeto do amor em si esteja ausente. Literariamente falando, como é tratar de fins e de começos?
Acho que em O inventário das coisas ausentes o amor não é um protagonista como nos livros anteriores, o amor aqui é antes de tudo uma possibilidade, e cada personagem o vive (ou não) à sua maneira. Me pergunto: o personagem que escreve ama Nina? Eu mesma não sei dizer, acho que é um amor estranho, ele é obcecado por ela, pela figura dela, mas em vez de viver esse amor no dia a dia, prefere vivê-lo na ficção. E há uma frase no livro que diz algo nesse sentido “quando o amor acaba, resta apenas a ficção”, ou seja, a história desse amor, e como cada um dos envolvidos o guarda na memória.  
 
Sem contar as participações em antologias, este é o seu quinto livro e quarto romance. Você percebe uma transformação temática ou de linguagem entre as suas obras? E há como destacar algum tema recorrente em suas histórias? Se sim, qual é? 
Acho que os três primeiros romances estão fortemente interligados, eles formam uma espécie de trilogia. Já neste há uma quebra. De certa forma ele é bem mais radical do que os outros, menos tradicional, é um livro que exigiu muito de mim. É um romance que por um lado conta muitas histórias, histórias de família (talvez o tema que o permeia seja esse, o passado), e por outro é também uma espécie de romance conceitual, que nos convida e pensar sobre a origem dessas histórias, e do próprio romance que o leitor tem em mãos. Resumindo, é um livro que traça uma linha divisória no meu trabalho, e apesar disso não deixa de haver certa continuidade, já que leva adiante reflexões que eu já vinha fazendo nos trabalhos anteriores. 

Você nasceu no Chile mas muito cedo veio viver no Brasil e adotou a língua portuguesa como pátria da sua palavra. No entanto, seu primeiro livro se chama Do lado de fora. A busca por identidade é algo que permeia a sua relação com a palavra?
A busca por uma identidade foi por muito tempo uma das minhas principais questões, acho que o título e os personagens de Do lado de fora são um reflexo disso. Cresci e vivi por muitos anos entre vários mundos. Eu nasci no Chile, cheguei no Brasil aos três anos de idade, aos oito anos, aqui no Rio de Janeiro, fui estudar na escola alemã. Aos 24 fui fazer mestrado na Alemanha, fiquei no total dez anos na Europa, oito na Alemanha, um na França e um na Espanha. Tinha época em que eu falava todos os dias quatro idiomas diferentes. Lembro que eu tinha um sonho recorrente, na realidade um pesadelo: eu caminhava pelas ruas da uma cidade desconhecida, me perdia, e ao tentar pedir informações me dava conta de que eu já não falava idioma algum. A literatura foi o que me trouxe “de volta". Escrever e publicar em português foi uma forma de voltar para casa. Costumo dizer que no meu caso a língua portuguesa é minha pátria, é o que me dá uma identidade, é onde me reconheço. E afinal, pátria é sempre uma construção, um conceito que muda de pessoa para pessoa.

 

"A literatura foi o que me trouxe de volta. Escrever e publicar em português foi uma forma de voltar para casa"


Não é raro ouvir alguém dizer que um escritor jovem deve começar por escrever um romance, se não quiser ser associado a fracasso de vendas. Você concorda? Como foi pra você começar por um livro de contos?
Acho muito perigoso querer ditar regras a um escritor que está começando (ou a qualquer um), "romance sim, conto não". Ele ainda está experimentando, não sabe das suas possibilidades. Para fazer boa literatura um escritor deve seguir o seu desejo, as suas obsessões, e não as do mercado. Imagine se o jovem Borges tivesse seguido o conselho de evitar os contos e escrever romances, a literatura sem os contos de Ficções O Aleph seria bem menos interessante. Quanto a mim, eu comecei pelo conto, mas com o tempo percebi que o romance servia melhor para o meu projeto literário, que sua extensão me permitia desenvolver certas ideias, estruturas narrativas que o conto não permitiria. Foi mais difícil começar com um livro de contos? Não sei, acho que não, o livro me deu a visibilidade necessária para seguir adiante. 
 
Ainda sobre o assunto contos, sua obra é cheia de bons exemplos de que essa categoria literária tem muito fôlego atualmente. Para citar alguns, o conto "Mil Perdões" (do livro Essa história está diferente, de contos inspirados em canções de Chico Buarque) e o próprio "Fragmentos de um romance", que saiu na Granta, são muito ricos literariamente. Você sente facilidade ou dificuldade maior entre um gênero e outro na hora de escrever?
Eu tenho um grande prazer em escrever contos, mas depois de Do lado de fora nunca mais me dispus a escrevê-los pensando num livro, num conceito para um livro. Talvez por isso o conto seja o espaço onde eu mesma me dou toda a liberdade, ali eu experimento ideias que depois posso (ou não) levar para o romance. De qualquer forma, enquanto leitora, sou uma ávida leitora de contos. 
  
Você já recebeu o Prêmio APCA de Melhor Romance com Flores Azuis, o Rachel de Queiroz com Paisagem com dromedário e já foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Jabuti. Qual é a importância desses acontecimentos pra você? Qual é o verdadeiro reconhecimento por escrever?
Os prêmios literários são muito importantes, dão ao escritor fôlego para seguir adiante. Eu acho que a crítica em geral é muito importante, ela é o espelho do escritor (para o bem e para o mal), não quero dizer com isso que a crítica esteja sempre certa, claro que não, mas ela é necessária para que o escritor possa pensar melhor sobre o seu trabalho, e até mesmo aprender a relativizar o que dizem sobre ele. Um país sem bons críticos, sérios, bem formados, dificilmente vai ter uma grande quantidade de bons escritores. Me refiro aqui à crítica, mas ampliando esse panorama, me refiro também aos leitores em geral. A falta de leitores transforma a literatura numa rua sem saída. Enfim, o verdadeiro reconhecimento por escrever é ser lido com respeito, atenção e sinceridade.
 
Sua formação é em Jornalismo e além de ser escritora, trabalha também como tradutora. Tudo isso implica lidar com a palavra de formas muito diferentes no dia a dia. E isso se reflete em suas obras, em que os personagens também buscam um encontro consigo mesmos por meio do discurso. Como é isso pra você?
Bom, eu me formei em Jornalismo, mas nunca trabalhei como jornalista. Quanto às traduções, eu diria que sou cada vez menos tradutora. Hoje em dia minhas atividades giram em torno da escrita, faço doutorado em literatura comparada na UERJ, escrevo sobre literatura, dou oficinas de criação literária etc. E, claro, escrevo ficção. De qualquer forma, acho a sua pergunta muito válida, é justamente isso, meus personagens buscam um encontro consigo mesmos por meio do discurso. Acho que eles refletem algo que é essencial na minha vida, as palavras e o que elas significam. No Paisagem com dromedário, Alex diz para Érika, numa espécie de crítica, “por que as coisas sempre têm que significar alguma coisa para você? As coisas não significam nada”. Mas para Érika tudo significa porque tudo é discurso. Eu me identifico com isso, com a força da palavra, do discurso.

 

"Aprender a ler, a ler de verdade, é também uma forma de aprender a pensar, há algo mais revolucionário do que isso?"

 

Você pensa no leitor quando escreve, nos ecos que suas intenções com determinadas palavras ou frases terão no entendimento alheio? Como seria pra você o leitor ideal?
Sim, penso bastante no leitor, mas é uma espécie de leitor imaginário, que lê como eu leio (talvez não seja possível fugir disso). De certa forma, mais do que no leitor, penso nas possibilidades da leitura. O leitor ideal é aquele que se apodera do seu texto e constrói algo a partir dele.
 
Ainda pensando no leitor, o que você pensa sobre o formato atual dos projetos de incentivo à leitura? Você concorda com o processo de formação de leitores do modo como ele vem sendo hoje em dia, isto é, a premissa de que a literatura tem de fato o poder de transformar as pessoas?
Eu não acredito em projetos de formação de leitores que não partam de um sistema educacional que funcione. Ler não é apenas decodificar caracteres, ler é ser capaz de interpretar um texto e inseri-lo na própria vida. Ou seja, para que as pessoas se interessem pela literatura (me refiro a um grande grupo e não a casos isolados), é preciso que elas tenham recebido ferramentas para isso. Aí sim, a literatura tem um poder enorme, aprender a ler, a ler de verdade, é também uma forma de aprender a pensar, há algo mais revolucionário do que isso?
 
Como tem sido a recepção de seus livros traduzidos no exterior? Você já consegue perceber se há uma diferença entre o leitor brasileiro e leitores de outros países?
Paisagem com dromedário foi lançado ano passado em língua alemã. E foi uma experiência muito importante, eu fiz duas longas viagens de leituras pela Alemanha, Suíça e Áustria, uma em março por causa do lançamento, e depois outra em outubro, por ocasião da Feira de Frankfurt. Passei por diversas cidades e participei de eventos oficiais e importantes, como a Lit Cologne (uma espécie de Flip da Alemanha), mas também fiz leituras em universidades e pequenas livrarias. A recepção foi ótima, tanto do público que comparecia às leituras quanto da crítica. O livro teve resenhas elogiosas nos principais jornais, e o que mais me chamou a atenção é que foi tratado de igual para igual, e não como um produto exótico, antropológico. Além disso foi uma repercussão que me ajudou a pensar com mais profundidade não só sobre o livro, mas também sobre o meu trabalho como um todo. Ano que vem a mesma editora (C.H.Beck, uma editora grande e de muito prestígio) vai publicar o Flores azuis. Fora isso, o Paisagem com dromedário sai na França agora em março, pela Mercure de France (pertence à Gallimard), e ainda este ano, o Flores azuis será publicado nos EUA, pela Riverhead, selo da Penguin.
  
Talvez pela delicadeza que se verticaliza na personalidade de suas personagens, você já foi comparada a autoras como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. Onde você acha que está a verdadeira identidade da sua escrita, aquilo que a torna inconfundível?
Eu não acho que a delicadeza seja uma marca da minha escrita ou dos meus personagens, há personagens “delicados” sim, como a mulher que escreve as cartas, em Flores azuis. Mas muitos deles têm algo rude, certa crueldade, por exemplo, Érika, de Paisagem com dromedário, que abandona a amiga/amante com câncer terminal, ou Javier de Toda terça, que usa as mulheres com quem se relaciona. Eu diria que o que dá identidade à minha escrita não são os personagens, mas o meu projeto literário, que busca um equilíbrio entre contar histórias que prendam o leitor, e ao mesmo tempo dar ao texto uma possibilidade de reflexão sobre a própria literatura.

Por último, conta pra nós quais são seus grandes referenciais literários, como leitora - tanto os contemporâneos quanto os clássicos - e quanto deles está indiretamente em sua escrita?
Se eu fosse escolher um único livro, uma espécie de livro-matriz, escolheria o Dom Quixote, obra que releio de tempos em tempos. Tudo o que me interessa na literatura está ali. Fora ele, há, claro, uma série de autores que admiro, que foram muito importantes para a visão que tenho hoje da literatura, só para citar alguns (entre clássicos e contemporâneos):  Machado de Assis,  Hilda Hilst, Sérgio Sant’Anna, Luiz Ruffato, Bernardo Carvalho, William Faulkner, Macedonio Fernández, Manuel Puig, Juan José Saer, Jorge Luis Borges, Thomas Bernhard, Robert Walser, W. G. Sebald. 

(*) Renata Penzani é jornalista e escreve no www.furtacores.tumblr.com

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