por Ramiro Zwetsch

Um papo com Phil Cox, diretor do documentário sobre a cantora que marcou a história do funk e antecipou lutas importantes do feminismo

Betty Davis foi um estrondo na história do funk: com três discos lançados nos anos 70 e performances incendiárias, ela se tornou uma personagem única e sem equivalentes antes ou depois de sua curta trajetória. “Madonna antes de Madonna. Prince antes de Prince”, chegou a afirmar Miles Davis, com quem foi casada por um ano (entre 1968 e 1969) e influência crucial para a fase elétrica do trompetista. A afirmação do jazzista, no entanto, não basta para dimensionar o impacto causado pela artista norte-americana. A soma de frustrações no começo da década de 1980 a afastou da música e um processo de redescoberta da sua obra nos anos 2000 lhe devolveu os merecidos holofotes. O documentário Betty Davis – They Say I’m Different, do cineasta britânico Phil Cox, foi lançado neste ano nos Estados Unidos e tem cumprido rotina em festivais pelo mundo. No Brasil, há duas exibições programadas em Olinda, parte da programação do Mimo, nos dias 22 (sessão fechada para convidados, com a presença do diretor) e 23 de novembro (essa, sim, aberta ao público), e uma terceira, fora do evento, no dia 30, no Rio, na Estação Botafogo. 

Cantora, compositora e arranjadora, Betty Davis usava a energia do rock para potencializar ainda mais seu timbre de voz, e suas letras tratavam de sexo com uma naturalidade incomum para o período. Sua imagem também fugia aos padrões e a sensualidade aflora nas capas dos seus discos, nas raras imagens em que aparece no palco e na maioria das fotos conhecidas dela. Foi modelo antes da carreira musical e tinha Jimi Hendrix entre suas amizades em Nova York. Também namorou o músico sul-africano Hugh Masekela. Miles tinha ciúmes de Hendrix e afirma em sua autobiografia que desconfiava que os dois tinham um caso. “Ele não tinha ciúmes de Jimi. Isso era apenas o ego dele, entende? Eu acho que, para ele, seria melhor se eu tivesse um caso com Jimi do que com um branco como Eric Clapton”, ela dispara em uma entrevista publicada no encarte do álbum Columbia Years – lançado em 2016 com gravações de 1968 e 1969, com faixas produzidas por Miles e Masekela. O sul-africano, aliás, também manifestou seu ciúmes. “Como você pôde ter casado com Miles? Como você pôde ter casado com meu ídolo?”, teria dito ele, segundo ela afirma na mesma entrevista.

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Columbia Years reúne uma constelação em torno da estrela principal. Além dos produtores de luxo, a banda conta com instrumentistas das bandas que acompanhavam tanto Miles (o pianista Herbie Hancock, o guitarrista John McLaughlin e o saxofonista Wayne Shorter) como Hendrix (o baterista Mitch Mitchell e o baixista Billy Cox). Ninguém além de Betty Davis seria capaz de juntar os melhores do jazz e do rock para fazer um disco de funk. O melhor, no entanto, ainda estaria por vir. São nos discos Betty Davis (1973) e principalmente They Say I’m Different (1974) que a artista encontra a identidade que a consagrou como uma peça única no quebra-cabeças da música pop dos anos 70.

No filme de Phil Cox, Betty aparece poucas vezes e ainda assim em imagens que pouco a revelam. Atualmente com 73 anos, ela se mantém praticamente anônima numa humilde residência em Pittsburgh, na Pensilvânia. O diretor conheceu sua música em 2012 por intermédio de um amigo e levou meses até encontrá-la. Depois, precisou de dois anos até convencê-la a lhe dar uma entrevista. A Tpm conversou com o diretor por email.

Trip. Por que Betty Davis decidiu parar de fazer música e ficar isolada por tantos anos?
Phil Cox. Acredito que Betty enfrentou muitos obstáculos que acabaram por desmotivá-la – todos eles coincidentemente no começo dos anos 80 – e desaparecer por 40 anos. A indústria da música a rejeitou quando ela se recusou a mudar sua aparência e estilo. A morte do pai causou um abismo emocional que levou décadas para cicatrizar. Uma batalha contra uma doença mental surgiu simultaneamente com os problemas na justiça com Miles Davis e uma depressão pelo fato de não ser reconhecida por sua contribuição musical. Ela se recolheu. Todas essas coisas se somaram a uma viagem ao Japão em que Betty teve uma experiência espiritual no topo do Monte Fuji e, a partir daí, decidiu se afastar da música.

É muito especial a cena que mostra os músicos de sua antiga banda falando com ela no telefone no viva voz. Como isso aconteceu? Betty geralmente não atende o telefone. Ela só tem um aparelho fixo e nenhum celular ou computador, então quando eu estava com sua banda, pessoas que ela não via há 30 anos, eu decidi ligar para ela e reconectá-los. Eu literalmente cruzei meus dedos! Na segunda ligação, ela atendeu e foi uma cena maravilhosa e espontânea.

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Existem alguns músicos importantes que trabalharam ou tiveram alguma relação com ela e ainda estão vivos, como Eric Clapton, Wayne Shorter, Herbie Hancock e Hugh Masekela (que faleceu neste ano, mas ainda era vivo quando começaram as filmagens). Você pensou em entrevistá-los? Sim, contatamos Eric Clapton e Herbie Hancock, mas ambos se recusaram a ser entrevistados. Acho isso muito triste, pois eles tinham sido uma parte importante da vida de Betty e, no mínimo, eles poderiam se reconectar com ela. Eles são pessoas ocupadas e talvez não tivessem tempo – eu não sei. Alguns foram incríveis, como Greg Errico, baterista do Sly & The Family Stone, que foi o primeiro produtor de Betty.

Aretha Franklin faleceu recentemente. Você acha que é possível compará-la com Betty Davis de alguma forma? Aretha Franklin e Betty foram duas mulheres singulares que vieram de origens semelhantes e da tradição do blues. No entanto, Aretha era muito mais palatável ​​para a indústria e para o público em geral. Betty Davis foi diferente. Para os críticos da época, ela era radical, perigosa e impossível de sustentar. Os anos 70 foram, como hoje, uma época de polarização – esperava-se que as pessoas se posicionassem. Betty estava tão à frente de seu tempo em termos de gênero, cor, sexualidade e identidade, que ela se sentia completamente livre para apenas ser ela mesma. Ela jamais se arrependeu por expressar o desejo e a confiança das mulheres diante do domínio masculino e nunca sentiu que o fato de ser negra deveria ditar o que ou como ela deveria se expressar. Até hoje, no mundo da música e da arte cada vez mais corporativo e homogêneo, esse ainda é um ato ousado. Ela também era totalmente “careta”, sem drogas e sem álcool – em um período em que todos ao seu redor consumiam algo. É uma tragédia que Betty tenha sido ignorada na história cultural popular (considerando seu enorme impacto e suas ações pioneiras), mas também não é surpreendente. Ela era casada com um dos maiores músicos do século 20 – e sua persona, personalidade e aqueles que escreveram sobre seu lugar na história apenas deixaram Betty de lado, engolida e ofuscada por Miles Davis. E não podemos esquecer que ela era (e é!) uma mulher negra que, em uma indústria misógina e branca,  trilhou seu próprio caminho – escrevendo, produzindo e cantando em uma época em que as mulheres não faziam isso. Recusando-se a ceder, ela é expulsa do mainstream. Em contraste com Aretha, Betty era muito intransigente e ousada para entidades comerciais a apoiarem. Aretha Franklin foi uma figura cultural fundamental na música norte-americana do século 20 e também se esforçou para destacar questões políticas em seu trabalho no mainstream – porém, seu brilho foi aceito, enquanto o de Betty não.

Hoje em dia, há um consenso de que Betty Davis era um ícone feminista e uma artista de vanguarda. Você acha que ela estava ciente disso ou estava apenas fazendo o que queria de forma intuitiva? Betty sempre foi motivada por como ela se sentia por dentro e não estava preocupada com o que as outras pessoas pensavam.

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