Baixa fidelidade
Por Tania Menai
em 25 de outubro de 2006

Escrevo este post ao som do CD Pokhara, de Yannick Noah, que acabo de comprar na Tower Records ao lado do Lincoln Center. Yannick é encantador. Mas, desta vez, a ida à “minha loja” foi quase fúnebre. A rede das mais de 100 filiais do país está fechando. Não resistiu à era do MP3, do iPod, da pirataria , do download. Tudo está com desconto. Muitas prateleiras já estão vazias. Noutras, restam aqueles CDs e DVDs que ninguém quer. A coisa é histórica.
Nossa, como era bom flanar pela parte de World Music. Na noite de ontem, minha amiga Adriana e eu navegamos por Irlanda, Magreb, Nigéria, França, Cuba, Israel, China, México, Itália, Argentina, Afeganistão e…Brasil. O globo terrestre fica ali, no fundo da loja. O jornalista Gilberto Dimenstein era outro que, quando vivia aqui, passava qualquer hora livre com os fones no ouvido na seção de jazz. Descolou ali a trilha sonora de alguns de seus verões na cidade, como Diana Krall e Charlie Watts. A parte de cinema também é um delírio, sem falar na ala de música clássica e ópera, separada por uma porta de vidro, com ar-condicionado e poltronas.
Já vi muita gente dormindo, babando, naquelas poltronas. Nessa seção os vendedores sacam muito – imagine que fui lá na véspera de entrevistar Kurt Masur, o ex-maestro da Filarmônica de Nova York, para trocar umas idéias com os caras. Ontem, Adriana e eu escolhemos algumas pérolas com a ajuda de Miguel, um ator filipino que há mais de dez anos roda o mundo com o musical Miss Saigon. Ele contou que todos os produtos das demais lojas dos EUA estão vindo para esta filial. Em meados de dezembro acaba a festa.
Voltei pra casa meio melancólica, acredito que a Adriana também. Resta saber até quando teremos essa troca humana, esse papo com o vendedor. O que será das capinhas de CDs, com fotos, desenhos, letras de músicas? Só sorri quando cheguei em casa e vi um presente que ganhei recentemente – um CD contendo discos inteiros de sei lá quantos artistas. Na face do CD, escrito à mão, lê-se: “com muito carinho”. Só isso já justificaria a falência. Mas, enfim, foi-se o vinil, vai-se o CD. Mas fica o carinho.
* A Tower Records fica (por enquanto) na rua 66, esquina com a Broadway. Linha 1 do metrô – estação 66th Street. A parte on-line continua ativa.
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