por Lygia da Veiga Pereira

Um pesquisador da USP testou um novo composto químico para ver se ele diminuía tumores

Pronto, vou finalmente falar da tal pílula milagrosa contra o câncer, desenvolvida na USP de São Carlos. Resumindo, a história é a seguinte: um pesquisador da USP testou um novo composto químico para ver se ele diminuía um tumor em camundongos.  Quando viu que os bichinhos tratados tinham melhorado, achou que isso era informação suficiente para oferecer o tal composto a pacientes com câncer – qualquer tipo de câncer. 

Afinal, se funcionou em um punhado de camundongos no laboratório, por que não haveria de funcionar em gente?

E, assim, ele passou a produzir a tal pílula na USP, provavelmente com o dinheiro de nós contribuintes, e a oferecê-la para pacientes sem esperança quanto aos tratamentos da medicina convencional – o fez por 20 anos, até a Universidade se dar conta do absurdo de ilegalidade e mandar fechar o laboratório.

Porém, isso causou uma revolta nos pacientes e familiares, desesperados por uma solução mágica para sua doença. O clamor público foi tal que juízes passaram a obrigar a USP a voltar a fornecer o “medicamento” – foram mais de 15 mil ordens judiciárias! 

O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal e deve estar embaixo das pilhas de processos ligados à Operação Lava Jato, aguardando ser julgado.  E como se não bastasse, uma lei legalizando a produção e distribuição do “medicamento” foi aprovada neste mês, por deputados, senadores e a presidente (sim, não venham por a culpa só nela porque toda essa turma teve que aprovar a lei também).

Mas por que coloco “medicamento” entre aspas?  Por conta do meu rigor científico – para uma substância receber esse título tão nobre, ela deve passar por uma via crucis de testes, em animais e em humanos, para mostrar que (1) é segura, e (2) é eficaz. 

O desenvolvimento de um novo medicamento começa com um milhão de compostos, que são testados em laboratório, em tubos de ensaio, células e computadores. Desses, somente 100 seguirão em frente e serão testados em animais: camundongos, coelhos, cachorros e em alguns casos, macacos. 

Com alguma sorte, dos 100 compostos, um ou dois se mostrarão seguros e eficazes o suficiente para então arriscarmos os primeiros testes em seres humanos.  No início com poucos voluntários. Se o composto se mostrar seguro, o número de pacientes aumenta até que o teste se mostre eficaz.  Se tudo der certo, 10-15 anos e 2 bilhões de dólares depois, temos um novo medicamento no mercado!

Só que muita coisa pode dar errada no meio desse caminho, por isso deve ser extremamente bem regulamentado para proteger os pacientes.  Agências reguladoras, como o FDA (Food and Drug Administration), nos EUA, e a ANVISA e CONEP no Brasil, são responsáveis por avaliar (1) se tudo o que podia ser testado antes de expor pessoas ao medicamento foi de fato feito; (2) se os resultados em seres humanos foram suficientemente positivos para justificar a aprovação do medicamento; e (3) se o mesmo é produzido em condições sanitárias rigorosas para ser administrado em pessoas.

Pois bem, a tal pílula do câncer só passou pela etapa de testes em camundongos, mesmo assim não sabemos direito quantos e quais foram os resultados detalhados do tratamento.  Além disso, se o composto funcionou, foi só em um tipo específico de tumor que os animais tinham, o que não diz nada sobre o efeito que aquilo vai ter em outros tipos de câncer.  E como se não bastasse, a pílula era produzida na USP a partir de reagentes e em condições sanitárias não adequados para uso em humanos. Ou seja, tudo errado.

Gente, o método científico e todo o arcabouço legislativo para o desenvolvimento de novos medicamentos estão aí para nos proteger! Vamos jogar isso tudo fora e deixar nas mãos de pseudo-cientistas-onipotentes, pacientes/familiares desesperados e de juízes decidirem qual tratamento funciona para qual doença?  A ciência e o desenvolvimento da medicina não são feitos no grito, são feitos a partir de evidências. 

Pode até ser que a tal pílula tenha de fato algum poder terapêutico, mas só podemos fornecê-la oficialmente a pacientes quando isso for demonstrado de forma rigorosa.  Até lá, fica na categoria de cirurgia espírita, cristais e florais.  Que, aliás, podem até ter seu valor – meu pai chegou a fazer uma cirurgia espírita para curar sua cirrose hepática, enquanto esperava na fila de transplante por um doador de fígado.  E eu mesma, confesso, já tomei florais...  Afinal, como disse Shakespeare, “Há mais coisas entre o céu e a Terra do supõe nossa vã filosofia.".  Só não dá para virar lei.

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