por Catarina Bruggemann

A argentina Selva Almada investiga três casos de feminicídio no livro “Garotas mortas” e vem à Flip este mês para questionar a naturalização da violência contra a mulher

A argentina Selva Almada tinha 13 anos quando escutou no rádio sobre o assassinato de Andrea Danne,  uma garota de 19 anos que tomou uma punhalada no coração em sua própria cama durante a madrugada, em San José, ao norte de Buenos Aires, em 1986. O crime nunca foi solucionado. Esse foi o gatilho para que Selva escrevesse o livro Garotas Mortas, lançado em 2014 na Argentina.

A obra foi publicada em português este ano pela editora Todavia e é o segundo trabalho de Selva a ser lançado por aqui. Ela estará no Brasil entre os dias 25 e 29 de julho para a 16° edição da Flip e participará de uma conversa ao lado da filósofa Djamila Ribeiro e da poeta Bel Puã. Selva é considerada uma das grandes revelações da literatura latino-americana, publicou oito livros na Argentina e foi finalista dos prêmios Rodolfo Walsh e Tigre Juan, na Espanha.

Além da história de Andrea Danne, a autora investiga com narrativa realista mais dois casos, o de Maria Luisa Quevedo, que foi estuprada, estrangulada e abandonada em um terreno baldio, e o de Sarita Mundín, que desapareceu sem deixar vestígios. Os três crimes têm as mesmas características: adolescentes contemporâneas à autora, assassinadas no interior da Argentina e que não tiveram seus casos solucionados. "Para mim, é muito importante que Garotas mortas seja a desculpa para falar da violência de gênero, do feminicídio e do machismo", diz.

O livro ora conta detalhes sobre os assassinatos, ora faz reflexões sobre a normalização da violência contra a mulher. Para isso, são usadas as próprias memórias da autora, que divide o protagonismo com as personagens principais. “Visitar um homem sozinho que, em troca, ajuda com dinheiro é uma forma de prostituição naturalizada no interior. Assim como a da empregada doméstica que fora do trabalho se encontra com o marido da patroa. Eu vi isso acontecer com moças da minha família, quando era pequena”, diz.  

Depois de passar por Paraty, ela participará também de conversas no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde irá se encontrar com outras escritoras como a marroquina Leïla Slimani, a carioca Antonia Pellegrino e a moçambicana Isabela Figueiredo, autora do livro A Gorda.

Selva conversou com a Tpm sobre a repercussão do livro, feminicídio, aborto na Argentina e mais. Se liga:

Por que você decidiu escrever o livro? 

Selva Almada: Na última década o feminicídio começou a ganhar status público. Deixou de ser encarado como um drama passional e começou a ser olhado por outra ótica: a da problemática social e cultural. Eu me interesso pelo assunto há muitos anos e a morte de Andrea aparecia vez ou outra vez na minha memória. Comecei a pensar sobre a possibilidade de escrever sobre isso.

Você conta no livro detalhadamente sobre quando recebeu a notícia da morte de Andrea Danne. Por que isso te impactou tanto? Eu tinha 13 anos, estava entrando na adolescência e Andrea também era adolescente. Seu feminicídio me impactou muito por sua juventude, mas também porque aconteceu dentro de sua casa. Desde pequenas nos ensinam que o perigo está fora, o desconhecido, o estranho. Foi assustador descobrir que não é assim, que as mulheres não estão a salvo em nenhum lugar.

Entre tantos casos, por que focou nesses três? O caso que deu início a tudo foi o de Andrea. A partir de sua história procurei outras que ocorreram na mesma época, no interior do país (onde eu também nasci e me criei) e que não tivessem sido solucionados, que foram casos impunes.

Acha que o livro contribui de alguma forma para uma mudança no cenário da violência contra a mulher? Muitas professoras levam o livro para as escolas e o leem com seus estudantes. Para mim, é muito importante que Garotas mortas seja a desculpa para falar da violência de gênero, do feminicídio e do machismo. Mas não sei se um livro pode realmente produzir uma mudança.

Você visitou escolas para conversar com alunos sobre o livro. Como tem sido a discussão com essa geração? Agora há mais informação e mais interesse. As gerações jovens estão preocupadas, interessadas pelo tema. Quando eu era adolescente a violência contra a mulher era naturalizada. Acreditávamos que um homem podia gerenciar nossa vida sendo marido, noivo, irmão. Acreditávamos que uma mulher devia se casar e ter filhos, que não podíamos escolher não ser mães. Por sorte tudo isso está mudando. No entanto, percebo que às vezes, quando vou falar nas escolas, as mais interessadas são as meninas. Os meninos olham para outro lado como se isso não fosse um problema deles, como se o machismo não os afetasse de maneira profunda.

Você esperava que esse trabalho servisse para fins pedagógicos? Não. Eu só queria contar essas três histórias, resgatar a memória de três meninas que foram assassinadas impunemente. E, como os casos têm mais de 25 anos, também há uma certa perspectiva histórica. O feminicídio não é um problema dessas últimas décadas, é um problema gravíssimo sobre o qual só agora estamos refletindo.

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Você fala no livro que nos anos 80 não existia a palavra “feminicídio”. A existência do termo altera de alguma forma a maneira como as pessoas se relacionam com o assunto? Sim, claro que sim, uma palavra específica vem para dizer que esse crime não é igual aos outros, que tem sua particularidade, que merece outro tratamento e outra condenação. Além disso, o termo “feminicídio” veio para apagar o tão horrível “crime passional”, que reduzia a morte de uma mulher a uma telenovela.

O livro foi lançado na Argentina em 2014. O que mudou de lá pra cá? Por sorte, o panorama mudou muitíssimo. Houve um crescimento enorme do movimento feminista. Nós saímos às ruas para reivindicar nossos direitos, para exigir que deixem de nos matar. Lemos, estudamos, debatemos sobre o tema, nos informamos. Agora mesmo, enquanto respondo a essa entrevista, no Parlamento está se debatendo a legalização do aborto. Isso só é possível graças aos movimentos feministas.

A proposta de legalização do aborto na Argentina passou pelo Congresso, mas ainda precisa passar pelo Senado. Você está otimista? Todas somos otimistas, mas também é verdade que o Senado é, no geral, mais conservador e rígido que a Câmara dos Deputados. De toda forma, alguns grupos já se pronunciaram a favor da legalização. Existe a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto e mulheres de diferentes âmbitos da cultura, como jornalistas, por exemplo, estão defendendo a lei. E continuaremos empurrando até que seja sancionada.

Está feliz com a repercussão? Pretende voltar a escrever sobre esse assunto? Sim, estou orgulhosa. É o livro que eu queria fazer e teve uma recepção muito boa. Não penso em voltar a escrever sobre o tema, mas o assunto faz parte da minha militância diária, estou absolutamente comprometida com ele. Comecei agora um romance, mas está muito no início. Também estou escrevendo roteiros para filmes e adaptando Garotas mortas para uma série de televisão.

Créditos

Imagem principal: Retrato por Vale Fiorini/Divulgação

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