A estudante que deu uma lição à escola

Quem não acredita que é possível fazer revolução pelas redes sociais não conhece Isadora Faber. Aos 13 anos, a estudante da Escola Municipal Maria Tomázia Coelho, em Florianópolis (SC), criou uma página em uma rede social para denunciar as más condições de sua escola. Ganhou mais de meio milhão de apoios e um colégio melhor para si e para seus colegas de ensino fundamental.

Inspiradas no diário criado por uma menina escocesa, as denúncias feitas por Isadora focavam a precariedade das instalações, do pessoal e das refeições servidas na escola pública em que estuda. 

Mais do que denunciar, a trajetória de Isadora ressalta a importância de sustentar as próprias escolhas. Ela conta que alguns professores, incomodados com a exposição da escola, incitaram os outros alunos contra ela, que várias vezes foi ameaçada, inclusive de morte. Sua casa chegou a ser apedrejada e houve processos judiciais contra ela. Mas Isadora, apoiada pela família, não recuou. 

Aos poucos, a repercussão do Diário de Classe, como chamava sua iniciativa, tornou impossível ignorar os problemas. Salas de aula e banheiros da escola foram consertados, a merenda melhorou.

Apontada pelo jornal britânico Financial Times como um dos “25 brasileiros para se acompanhar", a pequena fã de Guns N' Roses conseguiu o que queria: trazer mais transparência para o ambiente escolar. Sua página inspirou dezenas de iniciativas semelhantes Brasil afora, para revelar as condições de escolas e serviços públicos.

O caminho para ser um transformadora

Quando fala, Isadora revela sua timidez e comenta com reservas as suas conquistas. Ao mesmo tempo mostra uma objetividade clara de quem sabe o que conquistou. Sua vida mudou por causa do seu blog.

E essa virada em sua vida não veio do nada. A ficha de Isadora sobre o problema que enfrentava na sua escola começou a cair quando ela viu a irmã mais velha ir para uma escola particular depois de ganhar um bolsa para o Ensino Médio. “Via as diferença e cheguei à conclusão que tinha coisa errada na minha escola e que tinha que ser resolvido isso”, diz Isadora, ao comentar quando criou os parâmetros que mostram para ela que algo estava errado ali. Onde estavam os professores interessados? Qual o problema com a merenda? E a pintura velha? A garota de 14 anos que estudava ali desde a primeira série nunca tinha visto uma mudança.

Essas dúvidas na cabeça de Isadora esquentaram quando a irmã contou da experiência da britânica Marta Payne denunciava na internet problemas parecidos em sua escola. A soma disso gerou o Diário de Classe.

Quando a página nasceu quem seguia ela eram os amigos de Isadora e os familiares. Seus pais sabiam, mas não restringiam. Era algo pequeno e que começou a aumentar com uma pequena nota de jornal, que nem citava o nome de Isadora ainda. “Meninas do Santinho (bairro de Florianópolis) fazem denúncias em página do Facebook”.

Com a mídia, Isadora e a amiga Melina, uma parceira dos primeiros dias da página (e de participação discreta e fundamental até hoje) foram chamadas pela diretoria e foram acusadas de cometer um crime contra uma instituição pública.

“Hoje tem mais de cem diários de classe por aí. Fiquei feliz vendo que minha história serviu de incentivo"

Essa primeira reação fez com que os pais de Melina recuassem. Já a família de Isadora deu incentivo. “Minha mãe seguiu apoiando, e disse que eu tinha o direito de seguir. Ela foi muito importante. Sem ela eu não teria o diário hoje”, diz com orgulho evidente.

E foi preciso força. A reação drástica da diretoria era só o início de um processo pesado de reação e discriminação com Isadora. “Pensei que meus colegas iam apoiar, mas tanto eles quanto professores e funcionários foram totalmente contra, e surgiram represálias. Passavam a orientação para alunos mais velhos tomarem 'providências' comigo por também serem menores de idade”. Isadora, sem saber, expôs a irresponsabilidade administrativa de sua escola. Dinheiro que chegava e não era usado da maneira correta, professores parentes de funcionários da direção, etc.

Na internet, fakes ameaçavam a garota de morte, algo que assustou a família, mas que nunca a deixou com medo. “Minha mãe levava até a polícia, mas não acontecia nada de fato”.

Quem ajudava Isadora nessa momentos eram os amigos outros anônimos da internet, aqueles que davam apoio ao seu trabalho. “Eu nunca pensei em desistir. Eu tenho o apoio da família e de mais de 600 mil pessoas na minha fanpage”.

Quinze dias depois de o assunto estar na mídia com repercussão nacional a secretária da região tomou providências e fez reparos na escolas. Nesse momento, até alguns detratores tiveram que agradecer Isadora. 

Mais efeitos positivos vieram com o tempo. “Hoje tem mais de cem diários de classe por aí. Fiquei feliz vendo que minha história serviu de incentivo. Cada vez mais eu acredito que a gente pode mudar a educação no Brasil”.

A repercussão resultava em cerca de dez mil pedidos de ajuda. “Acabei descobrindo que muitas não eram verdadeiras”. Isso fez Isadora criar uma ONG para poder verificar de fato as denúncias e trabalhar nessas escolas. “Quero ajudar na prática as escolas, arrecadar contribuições, oferecer cursos profissionalizantes, palestras. Falar de cidadania na sala de sala, algo que é pouco discutido”.

Isadora tem bem em mente a importância do conceito de cidadania. “Acho que muita gente é acomodada. Elas são cidadãs, mas não fazem a parte delas de deveres".

Daqui dez anos Isadora se vê como jornalista. Quer transformar o seu diário em algo maior e cumprir a função de uma profissão que ela tomou gosto. “Quero mostrar os problemas e comunicar às pessoas o que elas não sabem. O Diário de Classe virou ONG e agora escrevendo um livro sobre ele”, destaca, consciente de que sua evolução é ao mesmo tempo a evolução de sua causa. Tanto que, além do sonho pessoal, ela faz questão de lembrar outro sonho para daqui a dez anos: ver as escolas públicas servindo de modelo.

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