por José Carlos Meirelles

Em suas temporadas pelo Alto Envira, Meirelles descobriu um modelo de sociedade provido e abastecido pela natureza. É ela a moradia, a farmácia e, principalmente, o supermercado

O povo todo está reunido novamente. Os roçados queimaram bem. Deu pouca coivara. A terra preta de carvão e a cinza branca onde as madeiras mais grossas queimaram formam desenhos estranhos.

Meio do mês de setembro, as primeiras chuvas caem. Tocadas a vento forte e trovões. Os capotes das casas estão trocados e bem amarrados. Resistem bem aos ventos e à chuva forte.

As terras firmes, com mais de palmo de folha seca, sofrem uma transformação com as chuvas fortes. A água carrega uma boa quantidade de folhas, galhos secos, casca de todo pau e tudo que a nossos olhos parece desimportante no chão. O que vai na enxurrada alimentará as praias e os baixos. Mas ficam enganchados em raízes, cipós rasteiros, depressões do terreno, o alimento da mata de terra firme.

Os igarapés empanzinados de água barrenta saem das margens. As corredeiras zoam de se ouvir longe. Ficam perigosos de atravessar.

A maioria das árvores, desfolhadas, mata a sede, flora e as menos sovinas dão frutos, muitos.

Pássaros, macacos e todo vivente que alcança as copas das árvores têm à disposição, primeiro as flores, depois os frutos. Flores de pequi, de pau boi, buranji, tuturubá e de muitas outras são comestíveis.

É a primeira oferta dos supermercados da terra firme do ano!

Os caçadores sabem exatamente onde encontrá-las. E tome flecha em macacos e embiaras de pena! No chão, porcos, veados, antas, cutias, pacas, inambus e outros empenados que têm preguiça de voar, de dia ou à noite, vêm fazer suas refeições. Os que não se encontram com os caçadores agora podem ser rastejados. A terra está mole.

A terra molhada oferece aos fuçadores um cardápio inesgotável – minhocas, cupins do chão, vermes de toda qualidade, raízes e batatas saborosas. Tatus, quatis, caititus e queixadas viram e reviram os lombos de terra atrás desses petiscos. Deixam marcas e rastros. São as placas dos corredores dos supermercados da terra firme. Basta saber lê-los.

Os jabutis, enterrados em balseiros, grotilhões e ocos de pau, saem de seus esconderijos para comer. O caçador pai, vez por outra, leva o filho ainda jovem, a mãe e filhas às compras. Os caçadores e os filhos aprendizes na seção de carnes. As mulheres e as filhas, na das delicatéssen – gongos de coco, batatas da mata, lagartas de hastes de palmeiras em decomposição e jabotis. Os jabotis, caça que não gasta flecha, não corre e pode ser estocado vivo – na seção dos enlatados. E vão também nas peras, feitas de palha de jarina ou ouricuri novo, bem embalados, cipó-titica do bom pra fazer paneiros, envira seda pra corda de arco, cipó de aiuasca e folha – na seção de bebidas finas – uma raiz ou folha de propriedades medicinais – na seção de remédios.

De tardinha a família chega a casa com as compras que são divididas com os vizinhos, conforme a precisão de cada um.

Nos dias em que não vão para a mata as famílias se dividem. Homens cuidam de fazer flechas, colares, carregam palha pra remendo de telhado, desfiam cipó-titica, conversam, riem e se pintam. Os mais velhos preparam a aiuasca da noite. Mulheres limpam roçados, cuidam do moquém, tecem abanos, paneiros, cordas, fiam algodão e tecem redes, trazem banana, mamão, macaxeira, amendoim, milho e outros produtos do roçado.

A partir de janeiro, tempo que se inicia a safra do cajá, a seção de frutas da mata está com ofertas variadas: cajá, sapota, tuturubá, jaracatiá, pequi, tatajuba, ata, bacuri, ingá, marfim, pupunha braba, cocão e uma infinidade de frutos caem maduros, às toneladas. Até cipós, alguns, frutificam. O ata e o maracujá bravo esbanjam. Algumas são colhidas e consumidas pelo povo, outras só os animais comem. Guaribas, macacos-pretos, pregos, parauaçus, cheritos, ficam de toicinho, moles de gordos.

Antas, porcos, pacas, caititus, veados, queixadas e pássaros de pena estão gordos. E nada como caça gorda moqueada!

Algumas árvores que não crescem altas, como a pupunha-brava e o calango cego, cujos frutos são apreciados por araras, tucanos, ouís e outras joias vivas da natureza. É a seção de joalheria. As penas são matéria-prima pra enfeites e adornos.

E no período de chuva é tempo de ouvir histórias, aprender os cantos, saber dos antigos. Os mais velhos ensinam aos meninos e meninas, ao redor do fogo à noite, de estômago feliz, olhos brilhando e ouvidos atentos, seu pertencimento.

Uma noite ou outra os pajés tomam aiuasca e vão ao mundo dos espíritos ouvir cantos, previsões e curas. E voltam de lá cheios de sabedoria pra botar enchimento na vida do povo.

A macaxeira do roçado está mais alta que um homem, o milho colhido está no jirau, trouxinhas de amendoim com casca enfeitam os caibros da maloca.

As antas estão no máximo do peso e os macacos-pretos, cuidadosos com galhos finos, carregam o dobro do seu peso. Metade carne, metade gordura.

As prateleiras de frutas do supermercado da terra firme estão quase vazias. Mas as ofertas de carne gorda estão no máximo da promoção. Tem jaboti que quase não consegue encolher a perna para dentro do casco. Pura gordura.

Um belo dia, no tempo que os mulateiros floram, amanhece nublado. O vento que tocava suas mulheres-nuvens no rumo do poente, lá vem com suas mulheres-nuvens em direção ao nascente. Nuvens baixas e ligeiras.

Tocadas a vento frio. É a primeira friagem, aviso prévio que o supermercado da terra firme vai fechar as suas portas. O verão está se anunciando na garoa gelada do primeiro frio do ano.

As mulheres pariram as crianças do verão. A nova geração de consumidores está garantida.

Mas, e sempre tem um mas, a proprietária dos supermercados dos baixos e da terra firme, a mãe natureza do alto rio Envira não sabe que alguns concorrentes estão chegando. Pão de Açúcar, Carrefour e outros menos cotados, oferecendo produtos que só existem quando a mata dá lugar a outro tipo de paisagem.

O povo que frequenta o supermercado da mata não saberá comprar no concorrente, nem gostará do oferecido. Mas sobreviverá nestes novos tempos.

Tristes tempos.

Pior que a fome é chegar do supermercado com o paneiro de plástico cheio e nem uma história pra contar.

 

O sertanista José Carlos Meirelles foi homenageado pelo Trip Transformadores 2007.
Acompanhe semanalmente textos de grandes pensadores da sociedade brasileira, que já pisaram no palco do Trip Transformadores

 

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