por Luciana Taddeo

Do sertão de Pernambuco a Varsóvia, multidões saíram às ruas mobilizadas por diretos e fim da violência de gênero

“Por que estamos caminhando separadas se seria melhor nos juntar?”, perguntou-se em outubro do ano passado a escritora polonesa Klementyna Suchanow ao saber que o movimento argentino Ni Una Menos convocara uma greve contra mais um brutal feminicídio no país. Semanas antes, as polonesas tinham realizado uma paralisação que conseguiu frear a total proibição do aborto.

A iniciativa do Ni Una Menos ganhou repercussão internacional, e atos em solidariedade foram realizados em países da América Latina. Manifestantes de diferentes nacionalidades começaram a trocar experiências e identificar bandeiras comuns, como luta contra desigualdades econômicas, descriminalização do aborto e fim da violência de gênero.

Esse foi o início de um diálogo que resultou em um Dia Internacional da Mulher histórico em 2017. Em diversos idiomas e latitudes, mulheres de 57 países realizaram ontem uma greve internacional de mulheres. Multidões saíram às ruas e quem pôde paralisou atividades produtivas ou domésticas para tornar visível a importância das múltiplas jornadas de trabalho enfrentadas por nós. 

Somente no Brasil, a greve – também chamada de Parada Brasileira de Mulheres – contou com adesão de mais de 80 cidades e 24 capitais. Marchas, piquetes, uso da cor lilás, “apitaço” e conversas com companheiras no local de trabalho sobre desigualdades eram outras formas de apoio.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o quinto país com maior taxa de homicídios de mulheres. Para Tati Magalhães, uma das organizadoras da greve em Brasília pelo Coletivo Rosas pela Democracia, políticas públicas efetivas para impedir o aumento da mortalidade de mulheres, em sua maioria negras, são pauta urgente. As manifestantes também repudiaram a reforma da previdência e exigiram o fim do racismo.

Além das motivações conjuntas, os protestos retrataram a diversidade do Brasil, com reivindicações de mulheres indígenas e quilombolas no Norte por território e a questão das hidroelétricas que afetam comunidades indígenas e ribeirinhas em localidades como Altamira. É o que conta Analba Brazão Teixeira, militante da Articulação de Mulheres Brasileiras: “Cada estado, cada cidade traz o que está apertando mais no seu sapato”, diz.

“As mulheres negras são a maior parte das vítimas de feminicídio, são as maiores vítimas da violência sexual e da violência física.”
Analba Brazão Teixeira

Segundo ela, eventos dos últimos anos, como a Marcha de Mulheres Negras, já vinham “criando caldo” para a articulação de movimentos das diferentes capitais e cidades do interior. Em locais como o Sertão do Araripe, em Pernambuco, por exemplo, houve paralisação. Uma das presentes conta que cerca de 800 mulheres fecharam a BR que liga o estado ao Piauí, ateando fogo em pneus e fazendo "apitaço". "A gente está num país onde a cada 11 minutos uma mulher está sendo estuprada. O aborto clandestino é a 5ª causa de morte materna entre as brasileiras. E quem são elas? As mulheres negras e as mulheres pobres. As negras são a maior parte das vítimas de feminicídio, são as maiores vítimas da violência sexual e da violência física. A cada 23 minutos um jovem negro é morto, e esse jovem negro é filho de uma mulher negra, então aí a gente vê como está essa questão do racismo", diz Analba.

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Para a cineasta Marina Fuser, uma das organizadoras da marcha que saiu da Avenida Paulista e se unificou com um ato realizado na Praça da Sé, em São Paulo, o Brasil vive uma “primavera feminista” entre as mais jovens. “As meninas novas querem falar sobre isso. Antes o feminismo era visto como uma coisa estranha, muitas rejeitavam esse nome. Hoje está num programa da Globo, em festivais de cinema, não tem como não discutir sobre”, acredita.

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Mariana Bastos, administradora da página 8M Brasil, e uma das articuladoras da greve internacional, ressalta a diversidade dos países participantes. Segundo ela, as suecas, por exemplo, que já contam com diversos direitos, disseram que marchariam em solidariedade aos demais países, e que na Tailândia, onde greve ou marcha podem acarretar em prisão, mulheres optaram por usar uma pulseira vermelha como protesto.

Nos EUA, houve críticas a Donald Trump. “O ódio dele às mulheres é tão explícito que você pode dar um rosto para o problema e isso ajuda a unificar as ações das mulheres”, explica Sarah Leonard, organizadora da greve em Nova York.

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Na Argentina, as manifestantes entrevistadas pela Tpm se mostraram orgulhosas por serem uma das inspirações da greve internacional de ontem. Já na Polônia, o protesto desta quarta foi ainda maior do que no ano passado nas grandes cidades, diz Suchanow, que embora considere a greve internacional histórica, diz esperar um impacto mínimo sobre governos. “Temos que fortalecer laços e continuar lutando. É um longo caminho. Acho que no fim vamos ganhar, mas não sei em quantos anos”, conclui.

“As mulheres estão se fortalecendo. A gente está trabalhando em conjunção internacional para tentar deter um avanço conservador internacional”
Mariana Bastos

Para Mariana, da 8M Brasil, o que aconteceu ontem é só a ponta do iceberg de um movimento muito mais interessante: a construção de alianças muito potentes ao redor do mundo. “As mulheres estão se fortalecendo. A gente está trabalhando em conjunção internacional para tentar deter um avanço conservador internacional, regional e local.” 

Créditos

Imagem principal: Nathália Cariatti

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