por Guilherme Henrique

Cantando Milton Nascimento e escrevendo sobre tudo, carioca fala à Tpm sobre música, política e cultura

O violão à espanhola foi substituído pelo timbre único do violoncelo. Mesmos os tambores que ecoam no final da canção foram silenciados. As palavras que ganharam projeção na América Latina com o timbre agudo e suave de Milton Nascimento deram lugar a uma voz mais grave e pausada. "San Vicente", um clássico de Milton Nascimento e Fernando Brant, lançado no fundamental e inesquecível Clube da Esquina, em 1972, ilustra o que Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum ousaram fazer no projeto Invento +, lançado neste ano, em que os dois criaram versões de sucessos compostos e interpretados por Milton.

As passagens de vida e morte que retratam uma América Latina envolta em ditaduras militares são quase recitadas pela carioca. A dramaticidade também aparece em "O que será (À flor da terra)", de Chico Buarque. Com "Volver a los 17", Zélia Duncan confirma o tom político do projeto, que ainda traz "Travessia", "Encontros e despedidas" e "Ponta de areia". “Cantá-las hoje virou de novo resistência, 'outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz'”, afirma Zélia, relembrando versos de "O que foi feito devera", que também está no álbum.

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Aos 53 anos, a compositora tem se revezado entre os palcos e a escrita. Desde 2015 é colunista do jornal O Globo. O tom crítico do espaço quase sempre abarca os desmandos da política nacional, com algo de bom humor e cultura. “Escrever é um prazer que cada vez me domina mais”, revela.

Zélia Duncan comenta, em entrevista à Tpm, o mundo de possibilidades que se abre ao gravar Milton Nascimento, a relação com Jaques Morelenbaun e a vida no Rio de Janeiro. “Eu fico besta ao constatar que o Rio tem produzido políticos de tão baixo nível e indignada com como esses sujeitos detestam a cidade”, analisa.

Tpm. Você começou sua carreira cantando Milton Nascimento, com "Fazenda". Como é retornar agora à obra de Bituca?

Zélia Duncan. Foi uma coisa inesperada. A convite de André Midani, tive a ideia de fazer esse repertório dele tão poderoso, sem instrumento de harmonia, e quando Jaques aceitou, a viagem ficou consistente. Não pensei que viraria disco, mas, com os desdobramentos que tivemos, apresentação em Inhotim e outros shows, tudo soando muito bem, resolvemos registrar.

Ao pensar esse disco, você disse que escolheu algumas músicas previamente, mas que as coisas mudaram ao entrar no estúdio. Houve alguma canção que você considerava certa e que acabou ficando de fora? No show, o repertório é um pouco maior, mas não muito, porém tivemos que optar. "Canção da América", por exemplo, ficou de fora.

Esse disco, sobre Milton, também é sobre outras pessoas, como Chico Buarque ("O que será") ou Violeta Parra ("Volver a los 17"). Como é se aventurar nesse mundo tão múltiplo, com tantas possibilidades e referências? É Milton, porque são coisas que ele canta e que aprendi ouvindo seus discos. Quando um intérprete dessa magnitude vira parceiro das canções, elas viram a cara dele. Somos brasileiros, nosso universo musical é imenso e eu sempre bebi de muitas fontes. É natural pra mim essa multiplicidade.

Durante a apresentação no projeto Inusitado, em 2015, você disse que não queria ‘’inventar a roda’’, mas apresentar as canções. Cantar Milton, ao lado de Morelenbaum, apenas com o violoncelo, não pode ser considerado uma boa invenção? Espero que sim! Eu disse e digo isso em relação à releituras que têm a pretensão de reapresentar o que já existe com tamanha perfeição. Estamos reverenciando, lembrando de momentos de nossas vidas musicais e ousando um pouco, pois ninguém é de ferro!! A ousadia está na nudez do projeto. Nudez musical, meu povo!

Esse disco apresenta um repertório político, com músicas como “ O que será”, “O que foi feito devera”, “Volver a los 17”, “Travessia”... A escolha foi aleatória ou o momento político do país interferiu? Foi aleatória e, nos últimos dois anos, foi se tornando de novo protesto e argumento atual. Cantá-las hoje virou de novo resistência, “outros outubros virão, outras manhãs, plenas de sol e de luz"!

Quais outubros e manhãs temos pela frente? Não faço ideia, temos que ir buscar, temos que reconquistar as conquistas que tínhamos vencido, nós mulheres principalmente. Nosso futuro é incerto e acho que ainda piora até melhorar, infelizmente.

Em uma de suas colunas em O Globo, você diz que há diferenças na exposição ocasionada pela escrita e pelo cantar. Quais são essas diferenças? O tipo de intimidade que a escrita revela parece mais direta. Cantar sou eu, mas tem o palco, a personagem, a maquiagem, as luzes. Escrevo em qualquer lugar, com qualquer roupa. Jogada na minha cama, de pijama, sou eu comigo... Só que não.

Suas colunas tratam de temas variados, como o racismo, o feminicídio, a corrupção e outros males da nossa sociedade. Qual tem sido a resposta do público diante desses artigos, em um momento de ataque às manifestações da classe artística? Bem suave, por incrível que pareça. No começo, eu estranhava, ficava tímida imediatamente. Agora relaxei um pouco, mas sempre levo um susto quando os leitores se revelam pra mim. Escrever é um prazer que cada vez me domina mais.

Como tem sido os encontros e as despedidas com o Rio de Janeiro? Em uma das suas colunas, você diz “Fecho os olhos que se cansam de tantas imagens tortas, mas ainda vejo os pássaros voando no céu do Rio, enquanto a podridão toma conta da Baía da Guanabara”. Eu fico besta ao constatar que o Rio tem produzido políticos de tão baixo nível e indignada com como esses sujeitos detestam a cidade. Dá vontade de chorar. A classe artística anda triste, embora forte, mas a gente se encontra, se abraça, um dá força pro outro, ouve as mágoas um do outro e seguimos, nem sei como, mas trabalhando sempre. Mas é nosso lugar, estamos lutando. Arte é a ponte, o oásis, a possibilidade. E que aconteça um tipo de milagre de conscientização, que se traduza nas urnas ano que vem.

Créditos

Imagem principal: Simon Plestenjak

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