Entenda sobre a dislexia

Muita gente não sabe, mas os famosos atores Tom Cruise...

Lembra daqueles colegas com dificuldade para ler e entender o que era ensinado na escola? O problema de muitas crianças assim não é preguiça ou burrice. A dificuldade pode ser genética

Sou uma disléxica de carteirinha. Para quem não sabe, dislexia é uma dificuldade na leitura, que faz com que a pessoa não consiga assimilar facilmente a relação entre o que está escrito (símbolos gráficos) e o que é falado (fonemas). Hoje, aos 41 anos, aprendi a conviver bem com isso, mas não foi sempre assim.

Quando eu era criança, o diagnóstico era quase inexistente, e meu processo de alfabetização foi difícil. Eu era a aluna problema, desafiadora. Rasgava as provas na cara dos professores, brigava com todos os colegas, era a ferinha de todas as escolas pelas quais passei. Até porque eu era sempre a mais velha da turma, já que repeti de ano três vezes. Hoje, luto junto à Associação de Pais e Amigos de Disléxicos (APAD), onde sou uma das diretoras, para que crianças disléxicas não sejam mais chamadas de preguiçosas ou, muito menos, de burras.



...Woopi Goldberg e Robin Williams também são dislexicos

Dislexia – um dos vários problemas de aprendizagem – acomete de 10% a 15% da população mundial, segundo pesquisas em vários países. Algumas pessoas têm uma predisposição hereditária para esse transtorno. Portanto, não se trata do resultado de má alfabetização, desatenção, desmotivação, condição socioeconômica ou baixa inteligência. Ao contrário, normalmente o Q.I. de uma pessoa disléxica varia de médio a alto.

Tirando a prova
Para saber se uma criança tem dislexia, preste atenção em alguns sintomas, principalmente se um dos pais for disléxico: atraso para começar a falar, dificuldade em perceber rimas, falta de interesse pela leitura, falhas na ortografia e desorganização geral nos trabalhos escolares.

Essa criança deve ser avaliada por uma equipe de profissionais, que inclui neurologista, psicólogo e fonoaudiólogo especializado em dislexia e que pertença a alguma associação relacionada a esse problema, pois nem todos estão preparados para realizar esse diagnóstico específico.

Essa avaliação, se for bem-feita, é aceita em muitas escolas brasileiras, que devem oferecer a esses alunos condições que favoreçam seu desempenho escolar. Entre elas, mais tempo para provas escritas, aplicação de provas orais e leitura e explicação dos enunciados nas provas escolares pelos professores (quando necessário). Além disso, a língua estrangeira não deve ser uma limitação para o aluno passar de ano e os erros de ortografia não devem ser levados em conta.



Duas sugestões de leitura para entender melhor do assunto

Interesses e aptidões

Por tudo isso, a dislexia cria mais dificuldades em crianças do que em adultos. Mas, mesmo recebendo tratamento adequado, essa criança pode apresentar sintomas quando crescer, como lentidão na leitura, dificuldades na escrita, memória de curto prazo prejudicada, dificuldade de aprendizagem de uma segunda língua e dificuldade para nomear qualquer coisa. Nós, disléxicos adultos, conseguimos driblar melhor as dificuldades, achando ferramentas que nos permitem ir adiante e, obviamente, deixando para trás tudo o que não nos interessa. Eu, por exemplo, não passei no vestibular por causa da dislexia e acabei não fazendo faculdade. Mas isso nunca atrapalhou meu trabalho como diretora de arquitetura e ambientação da Osklen, grife carioca fundada pelo Oskar, meu marido. Já com crianças disléxicas a coisa é diferente: elas precisam cumprir todas as exigências do currículo escolar, que são muito difíceis. Algumas escolas ainda usam metodologias que não favorecem esses alunos, pois não priorizam os interesses e as aptidões deles.

Por isso, a Associação de Pais e Amigos de Disléxicos, a Associação Nacional de Dislexia (AND) e a Unesco estão desenvolvendo um projeto junto ao MEC para que as condições especiais que as crianças disléxicas precisam para se desenvolver melhor na escola deixem de ser um favor e passem a ser direito assegurado por lei, tanto na rede pública como na particular. Assim, lidando com a dificuldade desde cedo, aumentamos as chances de a criança disléxica se tornar um adulto produtivo e bem resolvido. Para mais informações sobre o assunto, visite www.andislexia.org.br e www.apad-dislexia.org.br.

*Nazaré é a editora convidada especial desta edição, disléxica e mãe de disléxica

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