por Mariana Perroni

Triste mundo esse em que os delírios de um estilista são mais cultuados do que higiene pessoal...



"Depois do sucesso da linha de esmaltes, *marca caríssima e cultuada* apresenta mais uma novidade. Com o mesmo frasco imponente, a diferença deste novo esmalte está no pincel e na aplicação, que deve ser feita na parte de baixo das unhas, assim como nas solas vermelhas dos sapatos do estilista."

Fiquei sem saber por onde começar. Eu poderia demonstrar minha surpresa por existirem mulheres capazes de pagar 110 reais num esmalte, mas vou me ater às potenciais implicações na saúde, que é o que faço nesse espaço.

Vamos lá... se um esmalte é criado para ser aplicado debaixo das unhas, isso pressupõe que as mesmas estejam consideravelmente compridas. Essa constatação é preocupante por alguns motivos:

-PRIMEIRO: já foi confirmado por N estudos que unha comprida é reservatório de bactérias como klebsiella (capaz de causar infecções urinárias e pneumonias) e fungos como a candida (que pode infectar a corrente sanguínea). Você acha que isso só acontece nas unhas à la Zé do Caixão? Sinto muito. Apenas com 3 milímetros acima da base, já se aumenta loucamente a chance de abrigar essas bactérias.

-SEGUNDO: isso se torna mais preocupante se as pessoas com unhas compridas forem trabalhadores da área da saúde, pessoas que manipulem comida ou MÃES (e pais, por que não? também tem homem porco que não corta a unha) de crianças pequenas (e, consequentemente, com imunidade ainda não tão desenvolvida). Porque, com isso, a SUA porquice impacta a vida alheia. 

-TERCEIRO: para se diminuir o risco de contaminação das unhas, é necessário lavar as mãos por, no mínimo, 15 segundos. Notem que falei DIMINUIR e não ACABAR. A maioria das pessoas não leva metade desse tempo na pia. No caso do referido esmalte, lavariam menos ainda, com medo de "estragar" o esmalte-jóia debaixo das unhas. 

Triste mundo esse em que os delírios de um estilista são mais cultuados do que higiene pessoal.

Como hoje é o Dia Mundial de Lavagem das mãos e, sem dúvida, essa é uma das medidas que mais previnem doenças no mundo, fica aqui meu apelo: lavem as suas. Mantenham as unhas curtas. E esmalte só na posição ortodoxa mesmo.

Tempo de prioridades estranhas esse em que vivemos... 

**Mariana Perroni é médica clínica e intensivista. Atua em consultório e UTIs de São Paulo-SP
 
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