por Milly Lacombe

29 de setembro talvez entre para os livros de história como o dia em que as mulheres livraram o Brasil do obscurantismo

Estou acostumada a multidões. Cresci indo a estádios de futebol e me convenci de que sei me orientar bastante bem no meio de um monte de gente. Recentemente tenho ido a muitas manifestações políticas, e se tem uma coisa em comum entre todas as aglomerações nas quais me meti (além da minha presença) é a predominância de uma certa voz masculina.

Quando o povo está nas ruas, quando a minha voz se junta a sua e depois a de dezenas, centenas e milhares em um canto uníssono, seja para gritar “vai, Corinthians” ou “olê, olê, olá”, o som que se escuta é o da voz grave de um homem. Mas não no dia 29 de setembro. Nesse dia, que talvez entre para os livros de história como o dia em que as mulheres livraram o Brasil do obscurantismo, a voz das ruas era a voz de uma mulher.

Havia mulheres com filhos na barriga, com filhos no colo, com filhos nos ombros, com filhos de mãos dadas. Havia mulheres sem filhos, havia muita sapatão, muita bicha, muito trans, muita trans, muita negritude, muitos pais e avós. Havia gente mais velha, gente mais nova, gente de todas as cores e de todas as classes. Havia quem estivesse vestindo a camisa de seu time, de candidato, de sua igreja e todo mundo estava se misturando de forma pacífica.

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“Mulheres guerreiras unidas

Esse mundo vamos dominar.

Meu corpo meu território.

Resistência coragem e amor

O medo acabou”

Era essa a voz das ruas.

O medo acabou. O medo precisa acabar

Medo de entrar em um vagão de metrô. Medo de sentar no avião ao lado de um desconhecido. Medo de entrar em um elevador repleto de homens. Medo de sair de casa sozinha à noite. Medo de fazer parte de uma reunião na qual há apenas gente do gênero oposto. Medo, medo, medo.

O medo faz parte da vida de qualquer mulher. Nossos corpos são públicos, entendemos isso rapidamente. O que não nos foi ensinado assim tão rapidamente é que o machismo, assim como o racismo, é um sistema de poder, e que, como todo sistema de poder, ele está internalizado nas instituições.

Para vencê-lo, é preciso estar atenta e forte. É preciso, cruelmente, não ter tempo de temer a morte.

E, no dia 29, tomamos as ruas. Havia medo e havia desconforto, mas vivemos fora da zona de conforto desde que nascemos, então esse não era exatamente um ambiente estranho.

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Havia também muita indignação. E estamos começando a entender que podemos transformar indignação em ira, em raiva, em gritos. Começando a entender que não precisamos fazer aparições públicas mostrando apenas vulnerabilidade, que não precisamos sempre chorar. Podemos chorar, podemos fazer de nossas vulnerabilidades uma força, mas apenas se assim desejarmos. Porque também podemos gritar. E mostrar ira. E mostrar raiva. E lutar.

Há, aliás, muita raiva acumulada quando se vive dentro de um sistema que nos reprime e censura todos os dias, de diferentes formas. Há muita raiva quando percebemos que podemos estar prestes a fazer uma curva perigosa em direção a um lugar ainda mais cheio de preconceitos, ainda mais machista, ainda mais racista e misógino. Então era preciso sair de nossas casas, pegar nossos filhos pelas mãos, tomar as ruas e gritar.

Porque “paz sem voz não é paz; é medo”

No dia 29 a gente fez exatamente isso: ocupou e gritou. Pelo fim do machismo. Pelo fim do racismo. Pelo fim da opressão. Pelo fim da autoridade que não se justifica. Pelo fim dos abusos. E em nome da liberdade que só existe quando enxergamos o outro.

E a gente dançou. Dançou ao ritmo dos atabaques. Dançou a música da igualdade social, do respeito e da liberdade.

Nunca antes houve uma manifestação como a do dia 29 de setembro. Uma tão feminina, tão musical, tão afetuosa, tão cordial. Homens e mulheres misturados em nome de um Brasil mais justo e inclusivo.

É bastante difícil estar dentro de uma manifestação histórica e se dar conta, no momento em que ela acontece, de que estamos, afinal, dentro de uma manifestação histórica. Mas tem isso sobre nós mulheres: uma certa intuição bem desenvolvida que aprendemos a escutar e considerar. E ela nos disse que era essa a hora de ir ali mudar o Brasil porque, se não fizermos agora, vamos esperar até quando?

Até que nossas filhas sigam sendo abusadas? Até que nossos filhos sigam sendo desencorajados a chorar ou a brincar de boneca? Até que nossos salários sigam sendo desiguais? Até que nossos assassinos sigam impunes? Até que nossos corpos sigam sendo sendo legislados pelo Estado? Até que sigam nos dizendo que há aquelas entre nós que merecem ser estupradas?

Não há mais tempo a perder. Não há mais como aceitar tanto absurdo. Não há mais espaço para o fascismo. Não aqui nessa terra tão cheia de beleza e de cor.

No dia 29, mostramos ao mundo com quantas fraquejadas se faz uma revolução. E a gente está apenas começando. Quando nossa luta chegar ao fim, estaremos todos livres. Livres do cárcere frio e escuro que só o ódio e o preconceito são capazes de erguer. Livres de nosso individualismo e de opressões. Livres para amar e para dançar. Então cola na nossa e vem porque o mundo ali na frente é lindo.

Créditos

Imagem principal: Rovena Rosa/Agência Brasil + Rodrigo Ferraz/Zimel Press + @BrunoAlencastro

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