O diretor da minissérie Justiça, exibida entre agosto e setembro pela Globo, escreve sobre o trabalho da atriz

Lembro do dia em que entrei no estúdio para gravar as primeiras cenas de Justiça e encontrei com Debora na maquiagem. Ela olhou pra mim e disse: “Eu não sei fazer essa Elisa”. E eu respondi: “Então vamos ensaiar e descobrir”. Imagine uma atriz como a Debora, com toda sua vivência e maturidade, uma das profissionais com mais técnica e recursos que conheço, tendo que se reinventar, arriscar, redescobrir...

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É dessa ordem de rasteira, de desequilíbrio, de se sentir despreparado que surgem grandes momentos no nosso ofício. A repercussão e a comoção do público em torno da história da mãe que, inconformada com o assassinato da única filha, perde o controle sobre os seus sentimentos é resultado da entrega absoluta e especial de Debora a esse papel. 

O realismo de Justiça exigiu um desprendimento maior dos atores, um desapego dos artifícios de cena, como maquiagem e figurino. Durante os ensaios, o elenco passou por um processo delicado de construção da memória afetiva daqueles personagens, pessoas imersas em situações-limite. Elisa trazia uma carga emotiva forte e trágica que vinha do texto da Manuela Dias. Por isso, buscamos uma atuação que não sublinhasse o sofrimento ou parecesse exacerbada, mas que fosse simples e verdadeira. A ideia era que a emoção, a partir da memória afetiva construída nos ensaios, viesse de dentro dos atores, extrapolasse a tela e tocasse o espectador. Como, de fato, tocou.

É dessa mistura de sentimentos que se fez a Elisa, uma personagem que transcendeu, que cruzou a linha. E é para isso que nós, artistas, trabalhamos – para continuar transcendendo.

Parabéns, Debora, por esse belíssimo trabalho.

*José Luiz Villamarim é diretor de televisão e cinema. Na Globo, além de Justiça (2016), assinou minisséries como O canto da sereia (2013) e Amores roubados (2014).

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