por Cassiano Viana

Do autorretrato ao fotojornalismo, seis mulheres que influenciaram a história da fotografia

É indiscutível a potência da obra de Vivian Maier e sua fotografia de rua, o registro transgressor de Nan Goldin, a estranha coleção de retratos de Diane Arbus, o mistério e a beleza de Lee Miller e os autorretratos e as várias personas interpretadas por Cindy Sherman. Cada uma delas, com suas particularidades, são inspiração para muitos fotógrafos hoje.

Mas até chegarmos em Annie Leibovitz, que pavimentou sua carreira com retratos de grandes artistas, sobretudo músicos e celebridades, houve um caminho traçado pela perspectiva original de fotógrafas menos conhecidas, da americana Francesca Woodman à brasileira Nair Benedicto.  

Uma das pioneiras do fotojornalismo e da fotografia avant-garde do início do século 20, a alemã Ilse Bing (1899-1998) teve trabalhos publicados em revistas de moda como Vogue e Harper’s Bazaar. Era conhecida como A Rainha da Leica. Ainda assim, em 1959 decidiu encerrar sua carreira como fotógrafa, passando a se dedicar à poesia. Chamava seus poemas de "snapshots sem uma câmera". "Não trabalho mais com uma câmera, mas sempre fui e sempre serei uma fotógrafa", dizia.

De origem judia, a alemã Grete Stern (1904-1999) emigrou para a Argentina durante a Segunda Guerra Mundial. Discípula de Walter Peterhans, um dos nomes mais importantes da fotografia na Bauhaus, Stern criou fotomontagens para ilustrar reportagens publicadas na revista feminina Idilio, entre 1948 e 1951. As leitoras enviavam à revista seus sonhos, que eram analisados por psicanalistas. Stern participava com fotomontagens influenciadas pelo surrealismo, expressionismo e dadaísmo.  

A americana Francesca Woodman (1958-1981) se retratou quase sempre seminua e semioculta, em quartos ocupados por objetos solitários — um vaso, um espelho, asas de um anjo — , até cometer suicídio, aos 22 anos. "Não há nada de melodrama em meu trabalho. Fotografo a vida como é vivida por mim. Estou inventando uma linguagem para as pessoas verem as coisas do dia a dia assim como as vejo... E mostrar a elas algo diferente", escreveu Francesca em um de seus diários.

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"As possibilidades para uma lista internacional são tão amplas", diz a fotógrafa e curadora Denise Gadelha, que inclui a mexicana Graziela Iturbide, as francesas Sophie Calle e Claude Cahun, a iraniana Shirin Neshat, a holandesa Rineke Dijkstra, a irlandesa Hannah Starkey e as inglesas Gillian Wearing e Tacita Dean.

 

Apesar de ser citada pela maioria dos grandes nomes da fotografia brasileira, a obra de Regina Alvarez (1948-2007), permeada de lirismo, permanece desconhecida do grande público. Regina foi professora do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e funcionária da Funarte, difundindo, nos anos 80, o uso da técnica de pinhole e a fotografia híbrida e experimental.

Além de ter seu trabalho publicado em revistas nacionais e internacionais, Nair Benedicto desenvolveu ensaios sobre temas sociais e manifestações populares. Engajada em questões de minorias, fotografou a realidade indígena, dos trabalhadores sem terra e as condições de vida de crianças e mulheres na América Latina. Além disso, nos anos 80, teve um papel importantíssimo no surgimento no Brasil das primeiras agências de fotografia que, inspiradas na francesa Magnum, tiveram um papel importantíssimo na conquista de direitos autorais e trabalhistas para os fotógrafos.

A inglesa Maureen Bisilliat trocou a pintura pela fotografia quando se mudou para o Brasil, no final dos anos 50, criando imagens inspiradas na obras de grandes escritores do país como Jorge Amado e Euclides da Cunha. Na busca por essas equivalências fotográficas, Maureen percorreu o sertão de Minas Gerais em busca de imagens que dialogassem com Grande Sertão: Veredas, obra-prima de Guimarães Rosa. O trabalho resultou no livro A João Guimarães Rosa, publicado em 1969. Quatro anos depois, visitou o Parque Indígena do Xingu, a convite do indianista Orlando Villas Boas, que lhe encomendou um registro da região, publicado em 1979.

O trabalho de Maureen dialoga com a obra de Claudia Andujar produzida ao longo dos anos 70 e 80, sobre os índios Yanomami. Nascida na Suíça, ela se mudou para o Brasil em 1955 e embarcou para o Amazonas pautada pela revista Realidade. Acabou envolvida pela situação crítica em que viviam os índios da região, lutando ao lado deles por seus direitos — Claudia foi premida pelo Trip Transformadores em 2013.

A lista de fotógrafas brasileiras inclui ainda nomes como Vania Toledo, Lenora de Barros, Rosângela Rennó, Rochelle Costi e Sofia Borges.

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Para Claudia Jaguaribe, é impressionante como a visibilidade na mídia da fotografia feita por mulheres, principalmente as brasileiras, ainda é pequena e desproporcional à sua importância. "Mas vejo que estamos avançando para tempos melhores. Jovens artistas como Flavia Junqueira, Alice Quaresma, Barbara Wagner e Sofia Borges vêm cada vez mais marcando presença no Brasil e fora dele”, lista a fotógrafa.  

Denise observa que a produção nacional contemporânea é muito mais híbrida e experimental e, nos últimos anos, bem mais ousada. "As novas tecnologias, que substituíram os equipamentos mais pesados, deram mais mobilidade e segurança para as fotógrafas", explica ela. Ela destaca o trabalho de ressignificação das fotógrafas brasileiras por meio do retrato e do autorretrato "não só como forma de identidade, mas como algo político".

Claudia lembra que a fotografia é uma potente forma de comunicação de  questões do cotidiano, de gênero, da política e da arte. "A mulher precisa estar presente e ser vista em sua diversidade.", conclui.

* Cassiano Viana é editor do site About Light  

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