Um tsunami chamado Drik Barbosa

A rapper paulistana, que integra o grupo Rimas e Melodias, lança com a Tpm o clipe de Melanina, primeiro single de Espelho

por Carol Ito em

A música de Drik Barbosa transborda versos empoderados, movidos pela indignação de quem não aceita o estado natural das coisas e, ao mesmo tempo, tem um flow capaz de amolecer os corações mais endurecidos. Essa combinação foi muito bem explorada no fim da década de 90 por Laurin Hill, cantora norte americana que “deseducou” (para o bem) uma geração e é uma das inspirações da rapper paulistana.

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Drik, de 25 anos, acaba de mergulhar na carreira solo com o lançamento do EP Espelho, pelo selo Laboratório Fantasma, dos irmão Emicida e Evandro Fióti, que será lançado no dia 16 de março nas plataformas digitais e conta com participações de Rincon Sapiência e Stefanie. E foi conversando com Fióti que ela descobriu o conceito quer permearia todo o EP: “Ele falou que minha personalidade tinha a ver com a água, porque ela pode ser doce, pura, transparente, mas também pode vir como um tsunami, como uma resposta da natureza”, explica.

"A gente vai metendo os pés na porta, mas seria muito melhor se as portas já estivessem lá só pra serem abertas, né? Mas a gente tem que dar uns chutes às vezes”, comenta Drik, sobre ser uma mulher no rap nacional - Crédito: Luciana Faria/divulgação

Além de falar sobre temas que fazem parte de sua realidade, como mulher negra que veio da periferia, o trabalho solo da rapper é também um caminho de descoberta de suas próprias potencialidades, como se a cada música ela descobrisse uma heroína que sempre esteve ali, mas não tinha se dado conta. “É uma conversa comigo mesma e eu estou mais me aconselhando do que me punindo, sabe? O que tem de punição é a sociedade em que a gente vive, que carrega preconceitos que não deveriam mais existir”, explica.

Drik também integra grupo Rimas e Melodias, do qual faz parte há dois anos, composto pelas MCs Tássia Reis, Karol de Souza, Alt Niss, Stefanie,  Tatiana Bispo e a DJ Mayra Maldijan. O Rimas começou com vídeos na internet e, quando resolveram oficializar a parceria num show, se surpreenderam com a repercussão e adesão do público, conta a rapper.

Drik Barbosa conversou sobre a jovem e intensa carreira e mostrou, em primeira mão, as cinco faixas que compõem o EP Espelho —  e a Tpm lança com exclusividade o clipe de “Melanina”, o primeiro single, com participação de Rincon Sapiência.

Tpm. Como começou sua história na música? Drik. Eu nasci em Santo Amaro, zona sul, e fui morar na Vila Mariana. Meus pais são nordestinos, então, eu cresci ouvindo muito forró, axé, mas também samba, pagode e rap. Minha mãe conheceu meu pai na noite, porque ele tocava bateria com um tio meu que é cantor. Eu moro numa vila, onde grande parte da minha família também mora, então, eu acordava e meu tio tava ouvindo rap, sentia aquela batida bem forte, tinha uns 5, 6 anos. Não entendia bem, mas gostava daquilo. Com uns 15 anos eu conheci a batalha de MCs de Santa Cruz, que completou 12 anos esses dias. Emicida, Projota, Rashid, mais uma penca de mcs incríveis cantavam lá e eu entendi o que era o rap, que não era só a música que eu tinha ouvido com meus tios. Entendi o que era hip hop e falei “quero fazer isso, quero fazer parte desse movimento”. Eu já gostava muito de cantar, mas escondida no banheiro, porque nunca me imaginei num palco, num estúdio, não era uma realidade, mesmo numa família de músicos. Na batalha eu fui vendo que os meninos gravavam as coisas deles e entendendo que, se eu juntasse um dinheirinho, dava pra pegar um estúdio, fazer um negócio legal.

E quando você ia nas batalhas, tinha muito mais homens do que mulheres? Sempre. Ainda é assim, né.

“Punição é a sociedade em que a gente vive, que carrega preconceitos que não deveriam mais existir”

Você não se sentia inibida, de alguma forma? Não, porque eu sempre andei com meninos. Mas eu sentia falta de conhecer mais mulheres que faziam rap, porque eu tinha inseguranças como mulher que os caras não entendem e eu queria dividir isso, sabe? Mesmo assim eu comecei a escrever, juntar o canto com a rima.

Que artistas te inspiram? Eryka Badu, Brandy, muito do R&B dos anos 90, The Fugees, que a Lauryn Hill faz parte também e eu sou fã. Até Mariah Carey, nossa, eu amava ficar ouvindo, minha mãe tinha uns CDs em casa. E, claro, Beyoncé, sou louca por ela. Fui fazendo uma junção de rap com R&B, não imaginava ia viver disso um dia, mas entendi que isso me faz feliz, de fato.

"Eu tô sendo bem rigorosa porque eu quero que chegue nas pessoas da forma que eu idealizei, da melhor forma possível. E o melhor é que eu estou trabalhando com pessoas incríveis, que entendem, que respeitam a minha opinião", diz Drik sobre o processo de gravação de Espelho - Crédito: Luciana Faria/divulgação

Por mais que você fale das dificuldades de ser mulher negra e periférica, achei que o EP tem uma vibe bem positiva. Por que optou por essa abordagem? Eu fui seguindo o que eu estava sentindo mesmo, sempre fiz música assim. Acho que, no geral, é positivo, porque é uma conversa comigo mesma e eu tô mais me aconselhando do que me punindo, sabe? O que tem de punição é a sociedade em que a gente vive, que carrega preconceitos que não deveriam mais existir. Eu queria me botar pra frente, me encontrar. E pra você se encontrar, tem que ser otimista, né? A gente é cheia de confusões e dúvidas, então, fica mais fácil encontrar as respostas pensando positivo.

Como foi gravar sozinha, como protagonista? Tá sendo incrível, uma experiência muito louca, muito nova. E eu estou me descobrindo mais nessa experiência, fico até surpresa comigo mesma, como estou lidando com esse momento. Eu senti um pouco isso com o Rimas e Melodias, mas era uma responsabilidade compartilhada, vamos dizer, eram 7 decisões. E, no EP, tinha que estar do meu agrado primeiro. É uma responsa muito grande pra mim.

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Por que escolheu o Rincon Sapiência e a Stefanie para gravar? A Stefanie é porque eu prometi pra mim mesma, pro universo, que o meu primeiro trabalho ia ser com ela, porque ela foi uma das primeiras MCs que eu ouvi e me identifiquei. Eu ouvi ela na faixa “Porque eu rimo”, do Kamau. Na verdade, eu conheci os dois nessa música e acabei pirando.

Em um verso você usa a expressão “negra drama”, fazendo referência aos Racionais. O que quer dizer? Eu entendo que Negro Drama, dos Racionais, foi escrita pensando nos homens, mas eu quis enfatizar que eu estou falando das mulheres, das guerreiras, sobre as negras dramas que estão aí no corre também.

Tem uma música de R&B bem romântica também. Tá apaixonada? Faz mil anos. [Risos.] Na verdade, vai fazer 9 anos em 2018.

“Sou muito ambiciosa. Os caras ficam o tempo inteiro se autoafirmando nas letras de rap, então pensei: por que eu não posso fazer isso?”

No single "Melanina", você se chama de KenDrik(a) Lamar, uma referência a um dos rappers do momento. De onde veio essa ideia? Se eu sou tão foda, me chame de KenDrick(a) Lamar!. [Risos.] Foi uma brincadeira, porque tem gente que me chama de Drik, sem falar o “a” do final, tá meio confuso pra algumas pessoas, então eu me liguei que parecia o nome do Kendrik Lamar. 

Tem um lance de ambição também, né? Total, eu sou muito ambiciosa. Os caras ficam o tempo inteiro se autoafirmando nas letras de rap, então eu pensei: por que eu não posso fazer isso também? Por que eu mereço ter menos, sabe? Por que que eu, como mulher independente, mereço ter menos dinheiro do que qualquer homem? Então, eu deixo isso bem claro, sim, eu tô trabalhando e eu preciso que isso retorne pra que eu continue, mas também quero ter conforto, dar uma casa pra minha mãe, que ela sempre sonhou. Um dia eu vou conseguir.

"Quando eu falo de questões que precisam ser mudadas e eu preciso dar esse choque nas pessoas, pra que elas entendam que o que eu to falando necessita de uma urgência, de apreensão pra ser mudado pra que a gente viva de uma forma mais harmoniosa”, explica Drik - Crédito: Luciana Faria/divulgação

Você ouvia rappers mulheres quando começou a compor? Sim, mas isso que é complicado, né? Tinha muito mais homens em evidência. Ouvia mais Realidade Cruel, Sabotage e depois que foram chegando as mulheres pra mim, foi quando eu conheci Dina Di, Negra Li, Sharylaine, As Trinca. Eu entendi que tinham mulheres protagonistas também dentro do rap, só que elas não estavam tendo a mesma visibilidade. A gente sai metendo os pés na porta e fazendo, mas seria muito melhor se as portas já estivessem lá só pra serem abertas, né? Temos que dar uns chutes às vezes.

Você é muito desenvolta nas apresentações. O que sente quando está no palco. Ah, é incrível, né? É no palco que eu sinto a resposta do público com a minha música, é uma coisa instantânea. Se tem uma pessoa ali que nunca te viu e ouviu na vida, vai sentir se aquilo bateu ou não. E também é saudável pensar que nem todo mundo vai se identificar com o que você está dizendo. Acho que o poder que eu sinto é de pensar “eu sou dona da minha vida, eu tô aqui porque eu quis, corri atrás, ninguém me botou”. Isso vem primeiro. Além de qualquer outra coisa, eu preciso passar o que eu quero passar, mudar a vida dessas pessoas o mínimo que seja. Mas é muito louca a sensação. Eu saio diva do palco.

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