Infidelidade sem moralismo

Esther Perel, terapeuta de casais que já participou do programa da Oprah ao TED, lança livro e fala à Tpm sobre monogamia, paixão e feminismo

por Carol Ito em

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Crédito: Bret Hartman/TED

Tão antiga quanto o casamento, a traição pode ser a chave para compreender a própria existência humana, defende Esther Perel. Em seu novo livro, Casos e casos: repensando a infidelidade (Objetiva), a psicóloga belga aborda a questão sem moralismo.

Se as pessoas podem se divorciar, porque ainda existe traição? De onde vem a ideia de que mulheres traem porque buscam intimidade e homens, porque estão entediados com ela? Como ficam o erotismo, o sexo e as relações amorosas depois da pílula anticoncepcional, do feminismo e de uma nova paternidade (quando homens dividem igualitariamente com mães a educação de seus filhos)? São questões discutidas pela psicóloga de 60 anos, que há três décadas atende casais de diversas partes do mundo. Ela também é autora do best-seller Sexo no cativeiro (Objetiva, 2007), que discute os paradoxos entre amor conjugal e a busca pela paixão. 

Se a traição nasce com a monogamia, ambas precisam ser repensados à luz das mudanças trazidas pela modernidade. “Antes, monogamia significava ter uma pessoa para a vida e hoje significa uma pessoa por vez”, reflete ela. O conceito de traição também vem mudando drasticamente com a internet, redes sociais e aplicativos de relacionamentos: “Nunca foi tão fácil trair e nunca foi tão difícil manter um segredo”, disse, em sua palestra no TED.

Também é uma novidade o fato do desejo feminino ser levado em conta: “As mulheres sempre tiveram fantasias, mas ninguém nunca perguntou a elas sobre isso, nunca foi importante". 

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A angústia gerada com tantas mudanças ainda vem acompanhada pela pressão em responder a uma série de outras questões que emergem em uma sociedade individualista: “Hoje temos que definir gênero, profissão, se queremos ter filhos, quantos... Na história, nunca tivemos lidar com tudo isso, porque o bairro, a comunidade, a igreja diziam o que você deveria fazer e qual a expectativa sobre você". 

Na entrevista a seguir, Esther coloca uma lupa sobre as relações amorosas contemporâneas sem ignorar a complexidade do ser humano.

Tpm. Monogamia funciona? Para quem?
Esther Perel. O significado de monogamia mudou drasticamente, embora a mesma palavra ainda seja usada. Primeiramente, foi imposta à mulher por razões econômicas e de manutenção do patrimônio, em que se valorizava a virgindade. O homem pensava: “Quem é a criança que vai herdar meus bens quando eu morrer?”. E isso não tinha nada a ver com amor. O sentido mudou, se aproximou de um ideal romântico, deixou de ser uma imposição e se tornou uma convicção. Antes, monogamia significava ter uma pessoa para a vida e hoje significa ter uma pessoa por vez. O que significa ser monogâmico hoje? Essa é uma resposta que as pessoas devem encontrar por si.

Que tipos de arranjos você tem visto pelo mundo? A maioria das pessoas ainda vive sob um ideal de amor romântico, escolhem uma pessoa para a vida, com quem não vão se sentir entediadas – pelo menos é o que esperam. Em relação ao sexo, lembro que passei pelo Brasil e México há 20 anos e falei com mulheres sobre fantasias sexuais. Elas diziam: “Não consigo levar a fantasia para casa porque meu marido vai questionar onde aprendi isso”. Como se elas não tivessem mente autônoma, imaginação. No casamento, a liberdade sexual permitiu que as mulheres passassem a dizer não, quando tinham que mentir que estavam com dor de cabeça, isso não existia antes. É a mudança da culpa predominante para o desejo, prazer e conexão.

Crédito: Samuel de Gois

Existe prazo de validade para paixão? Não. Existem fluxos de paixão, que são como eclipses intermitentes, vêm e vão. Qualquer pessoa que se relaciona e pretende manter a paixão constante não vive no mundo real. O começo de uma relação só acontece uma vez, mas não quer dizer que não vão existir momentos intensos, alguns casais conseguem trazer a paixão de volta. O dia a dia com um parceiro não é romântico sempre porque paixão depende dos obstáculos, do risco, da impossibilidade, do desconhecido, significa sofrer.

Que tipo de conflito você tem escutado mais entre casais em seus atendimentos? São de relações focadas em culpa. É a sequência de culpar, atacar e ficar na defensiva. A pessoa acha que o outro é responsável pela sua infelicidade e a única forma de ser feliz é se esse outro mudar. O tema do conflito não importa, pois essa é a estrutura de todos. Podem brigar por causa de sexo, dinheiro, filhos, enteados, qualquer coisa. Uma pessoa se sente sempre mais miserável que a outra, sozinha, mesmo tendo um companheiro. Não há nada pior do que se sentir sozinho em uma relação.

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Atendendo casais, o que não esperava ouvir, o que te surpreendeu? Não existe uma história que se destaca, uma mais importante. Posso falar sobre o último casal que atendi, ontem. Eles estão divorciados, mas nunca se separaram de fato, sempre se encontram com a família, viajam juntos, saem com os filhos, muito além de uma amizade. A mulher contou que não tem mais que pedir permissão, pode viajar quando quer e eles passaram a ter a relação que sempre quiseram. É uma relação tão bonita, tão verdadeira... A única maneira de terem esse tipo de relação é estando divorciados, porque não se sentem obrigados a seguir uma fórmula do que é o casamento. Em relação às traições, uma questão muito importante é que não têm a ver com a relação em si. Alguém procura algo fora não porque quer encontrar outro parceiro, mas porque quer encontrar outra versão de si mesmo. Buscamos reconectar partes de nós que estavam perdidas. Tento olhar para infidelidade não só como traição, mas como a falta de algo.

Como seu trabalho afetou seu casamento? Eu definitivamente levo a reflexão para a vida pessoal, tanto para me ajudar a entender as pessoas com quem trabalho quanto para me trazer boas ideias para casa. É um processo muito fluido. Tenho um companheiro há 25 anos e dois filhos, um de 21 e um de 24. Acho que terapia é uma das coisas mais fascinantes para entender sistemas complexos. Um casal nunca são duas pessoas, é um ecossistema. Busco lidar com essa complexidade no trabalho e na minha vida pessoal. Procuro entender o ponto de vista do outro. 

Crédito: Samuel de Gois

Hoje as pessoas tendem a assumir mais que são bissexuais ou não-binárias? Acredito que existe mais flexibilidade em relação a gênero. Primeiro, separamos sexo de reprodução com o uso de contraceptivos e congelamento de óvulos, por exemplo. Depois, afirmamos que sexualidade não é definida só pela biologia, mas tem a ver com nossa identidade e, por fim, que gênero não se refere à anatomia. Há uma evolução contínua sobre o significado de sexualidade, não só como uma condição natural, mas como algo ligado à nossa  identidade. Bissexualidade ou gênero fluido são aspectos da nossa sociedade individualista, em que cada um busca definir sua identidade. Na história, nunca tivemos que fazer isso, porque o bairro, a comunidade, a igreja diziam o que você deveria ser e qual a expectativa sobre você. Hoje temos que definir gênero, profissão, se queremos ter filhos, quantos... Temos todas as grandes decisões para tomar ao longo da vida e isso exige autoconhecimento.

Como o  feminismo tem afetado as relações e o sexo? Os casais nunca enfrentaram tantas mudanças como nos últimos cem anos, houve uma reforma extrema e o feminismo é parte disso. Em relação ao sexo, as mulheres sempre tiveram fantasias, mas ninguém nunca perguntou a elas sobre isso, nunca foi importante. Mulheres faziam sexo por culpa, obrigação, porque era parte do que se esperava como esposa. Hoje elas podem se perguntar: O que eu quero? O que eu gosto? O que me faz sentir bem? São questões que muitas delas não têm respostas. Por outro lado, os homens hoje não querem necessariamente mulheres que os sirvam na cama, querem mulheres que estejam a fim, aproveitem, queiram estar ali. Claro que existem muitas diferenças entre os países, o Brasil é muito diferente da América. Mas em geral há momentos que a mulher se sente poderosa e momentos que se sente completamente impotente.

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Quais diferenças você observa entre EUA e Brasil? Os EUA são muito focados em transparência, as pessoas buscam a verdade nas relações. No Brasil, existe certa tolerância para ambiguidade. Quando eu estava trabalhando aí, há 30 anos, era muito comum ver homens tendo casos com homens mais jovens, assim como na Itália e Turquia, em que a maioria dos clubs gays eram frequentados por homens casados, porque eles estavam no armário. O homem jovem no Brasil já não precisa casar com uma mulher e fazer de conta que é heterossexual. Acho que essa é a grande mudança.

O amor romântico tem futuro? Não existe uma resposta, hoje existem vários modelos não só para relação amorosa como para família (que podem ser comunitárias, entre gays, com apenas uma pessoa, etc), o mesmo serve para os casais. Mas histórias de amor são histórias de transcendência, essa é a essência da novela, por exemplo. Os dramas podem ser diferentes, mas a busca por belas histórias, aquelas que nos fazem sonhar, elevar, transcender, isso sempre vai fazer parte da humanidade.

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Imagem principal: Samuel de Gois

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