por Laura Reif

Grupo de aventureiros se arrisca caminhando - e se pendurando - sobre trilhos abandonados a mais de 50 metros de altura, num dos mais belos trechos da Serra do Mar

Caminhar sobre os trilhos abandonados da mística Paranapiacaba é poder avistar um dos mais belos e perigosos trechos da Serra do Mar, localizado entre os municípios de Cubatão e Santo André. Foi ali que uma então moderna rede ferroviária, inaugurada há mais de cem anos, deu início ao progresso econômico do Estado de São Paulo. Hoje, com mais de trinta anos de abandono, só restam os trilhos enferrujados construídos em cima de pontes a mais de 50 metros de altura.

O risco de morte é real, mas isso não impede que uma galera em busca de adrenalina encare a geografia hostil para andar, e até mesmo se pendurar, nas 16 pontes corroídas pelo tempo em meio ao matagal. É a chamada Travessia da Funicular de Paranapiacaba, que tem atraído curiosos desde 2008. Seus aventureiros, semelhantes aos roof toppers, são mais conhecidos como os funiculeiros. Neste meio há grupos como o "Na Trilha" e "Funiculeiros", com métodos de travessia distintos, que apostam em mais segurança, andando por cima da ponte. Também há aventureiros solitários, que optam por mais adrenalina.

“Quando eu estava lá em cima, chegou uma hora em que um dos trilhos começou a balançar muito. Aquilo me abalou”
Rodrigo Oliveira, funiculeiro

"É aqui que eu extravaso a minha tensão do dia a dia", explica o técnico em informação Rodrigo Oliveira, 21 anos, que já fez o percurso cinco vezes ao lado de um grupo de amigos. Ele é um dos que apostam em mais adrenalina. "Quando eu estava lá em cima, chegou uma hora em que um dos trilhos começou a balançar muito. Aquilo me abalou", conta. Em vez de fraquejar após ter arriscado a vida, ele voltou outras quatro vezes e hoje corre pelas pontes fantasmagóricas.

Filme de terror

O conjunto de pontes da trilha forma um cenário que é um misto de macabro com místico. A mata intensamente esverdeada se combina com a neblina e os escombros dos trilhos que ainda residem ali, sendo comum tropeçar em enormes cabos de aço pútridos, cobertos por lodo. Há aranhas por todos os cantos e a temperatura pode oscilar mais de 10 graus ao decorrer do dia. A umidade ensopa a roupa e cria um bafo quente. Ao fim da tarde, a temperatura cai e a neblina se instala, trazendo a sensação de muito frio, além de criar uma atmosfera digna de filme de terror. Os funiculeiros juram ter ouvido vozes nos túneis próximos aos pontilhões durante a noite, o que alimenta o fascínio pelo lugar.

Um sistema funicular é parecido com um elevador, só que na horizontal: um cabo de aço puxa um vagão com toneladas de material por meio dos trilhos. Em Paranapiacaba, o funicular entrou em operação em 1867 e foi desativado em 1981 por ter se tornado obsoleto. O percurso pelo qual os vagões eram puxados possui 16 pontes e 13 túneis, percorrendo cerca de 15 quilômetros de extensão em meio à mata atlântica. O recomendável é que se faça esse roteiro a pé em dois dias - embora seja possível realizá-lo em doze horas, como fez a reportagem da Trip.

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Invasão de propriedade

A guia Jhulliane Gonçalves, 34 anos, encara o percurso desde 2008 e leva grupos de até 40 pessoas que a seguem serra adentro. Ela prefere apostar na segurança. Durante a semana, ela trabalha como enfermeira. Aos sábados e domingos, torna-se uma guia não-credenciada que "faz o caminho de olhos fechados", segundo seus pupilos. "Cada pessoa que atravessa descobre o seu maior potencial: vencer depois de lutar contra seus próprios medos", propagandeia Jhulliane enquanto usa um facão para abrir o caminho entre as folhas, urtigas e galhos cheios de espinhos.

“Chorei, dei risada, fui do céu ao inferno várias vezes e não dormi direito antes de vir para cá”
Fátima Fillipe, funiculeira

A guia companheira de Jhulliane, a também enfermeira Fátima Filippi, 33 anos, descreve a ansiedade antes de encarar a trilha pela primeira vez. "Chorei, dei risada, fui do céu ao inferno várias vezes e não dormi direito antes de vir para cá. O ponto mágico é a chamada 'ponte-mãe', a mais longa de todas. Depois que a venci, encarei todas as outras com tranquilidade."

É bom lembrar: de acordo com a subprefeitura de Paranapiacaba, a trilha não existe oficialmente nos registros da secretaria de turismo e é realizada sem o consentimento da MRS Logística, empresa responsável pelo funicular. Por isso, os funiculeiros - membros de grupos autônomos e organizados on-line - correm o risco de serem multados ou até mesmo presos por invasão de propriedade privada. A empresa que é dona do sistema não respondeu à reportagem sobre a existência de casos de incidentes com vítimas no local. A base do Corpo de Bombeiros de Paranapiacaba e a 2ª Companhia do 41º Batalhão da Polícia Militar de Santo André afirmam que não há registro de ocorrências envolvendo acidentes fatais na trilha.

Créditos

Foto principal: Rod Oliveira

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