por Pedro Só

Dez vezes campeão mundial de jiu-jítsu e empresário de sucesso em Londres, Roger Gracie se prepara, aos 36, para a vida fora das competições

Aos 19 anos, Roger Gracie foi parar em manchetes dos dois principais jornais do país: ainda faixa azul, estava em Copacabana, no Rio de Janeiro, comemorando seu primeiro título mundial de jiu-jítsu junto com três amigos, quando alguém teve a ideia de dar tiros de ar comprimido em três travestis que batiam ponto na avenida Atlântica. Detido, ele conheceu o lado negativo de possuir sobrenome famoso. Sua mãe, Reila Gracie, filha de Carlos Gracie (1902-1994), o paraense que criou o mundialmente famoso brazilian jiu-jitsu, foi à delegacia, pediu desculpas às agredidas e classificou o incidente como "uma brincadeira de mau gosto".

Dois anos depois, já com a faixa preta, Roger foi despachado para Inglaterra, onde o pai, Maurício Motta Gomes, o Maurição, renomado lutador e professor da arte suave, tinha bons contatos. Ali, Roger amadureceu na marra, montando e administrando uma academia em Kensington, bairro nobre de Londres. "Eu, com 21 anos, morando em outro país, tinha que tocar o negócio, fazer de tudo", lembra ele, em uma academia no Leblon, 24 horas depois de finalizar Marcos "Buchecha" em um combate na Arena Carioca 1, no dia 24 de julho de 2017, que foi classificado como "a luta da década". Os dois, únicos atletas dez vezes campeões mundiais, haviam se enfrentado antes em 2012, em confronto que terminou empatado.

Prestes a completar 36 anos e renomado como melhor competidor do jiu-jítsu de todos os tempos, Roger diz que está propenso a se aposentar. "Tudo que eu queria fazer como atleta eu consegui fazer. Acho que nem MMA eu luto mais [entre 2006 e 2016, ele venceu oito de dez lutas na modalidade]. Agora vou para uma outra fase da vida", comenta o pai de Tristan, 8, e Maya, 4, casado há 12 anos com a polonesa Anna. Ele mora com a família em uma casa confortável em Chiswick, bairro do oeste londrino, onde cresceram Pete Townshend, do The Who, Phil Collins e Hugh Grant. Gosta de tomar bons vinhos – "Lá é bem mais barato, não é uma coisa metida a chique", observa –, conhece os melhores cafés da cidade e se esforça para aprender a jogar xadrez em alto nível. "Tenho um professor turco que me dá aulas por Skype, evoluí bastante."

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O garoto de Ipanema que demorou a levar a sério o esporte e outros aspectos da vida se transformou em um grande homem de negócios. Não só na altura – 1,94 metro. Seus planos incluem outros ramos, para além da expansão internacional da academia, que tem alunos famosos, como o ator Henry Cavill (o Super-Homem de Batman vs. Superman) e o cineasta Guy Ritchie, iniciado na arte suave pelo pai de Roger, que hoje é faixa preta.

Zeloso, foi Maurição quem tratou de encaminhar o filho em um bom casamento. Como conta Roger: "Minha mulher frequentava uma academia em que ele dava aula. Depois, quando meu pai já nem morava mais em Londres, os dois se encontraram, e ele fez a conexão. Me falou: 'Deixa eu te apresentar essa polonesa aqui'”. Anna é psicóloga. "A pior profissão para uma esposa ter", brinca Roger, rindo. "Ela consegue decifrar tudo que você está pensando, tudo que você fala, ela já analisa", segue, antes de falar sério. "Claro que é muito bom ter alguém com essa percepção do seu lado."

Como lutador, você conta com um diferencial: tem 1,94 metro, bem maior do que a média da família Gracie... Como explica essa altura toda? Ninguém sabe como eu saí assim [risos]. O meu pai tem 1,82 metro. E a média de altura da família é bem menor mesmo. Mas essa nova geração veio esticando... Eu sempre fui grande, mas não gigante, me lembro dos meus tios falando: "Esse aqui vai ser peso-médio". Não sei o que aconteceu na minha adolescência pra chegar a esse tamanho. Agora, vejo meu filho com um pé gigante. Minha mulher tem 1,68 metro, não é exatamente alta, mas ele, ao que tudo indica, vai ser. Tem a cabeça maior do que qualquer criança da aula dele [risos]. Já estou colocando pra treinar! Fez a primeira aula com 3 anos e meio. Deixo ele escolher, claro. Mas, se você vai empurrando para a direção certa, ele vai acabar se interessando.

Você demorou a se dedicar seriamente ao jiu-jítsu, na adolescência. Quando foi que virou a chavinha na sua cabeça? Lá pelos 15 anos. Eu luto desde criança, acho que tinha 4 anos quando fiz a primeira aula. Mas preferia fazer esportes com os meus amigos. Era questão de maturidade. Não queria ir treinar com o meu pai se pudesse estar com outros moleques jogando bola na praia ou pegando onda. Eu competia de vez em quando, mas perdia muito mais que ganhava, treinava por treinar. Estava fora de forma, meio gordinho. Entre os 11 e os 16 anos fui um pouco gordinho. Mas chegou a hora em que eu falei: "Agora preciso levar a sério".

Na adolescência aconteceu de alguém puxar briga com você só por ser um Gracie? Nunca. Mas, na luta, sim. Todo mundo quer vencer você porque você é um Gracie. Toda vez que você entra pra lutar, esperam que você seja bom. Então não pode dar mole, não pode entrar despreparado. Foi isso que eu senti em certo momento. A gente nasce já de quimono. Botam a fralda e o quimono em cima [risos]. Desde os 2 anos, já botam de montada, dão um armlockzinho. Mas nunca senti a pressão como algo negativo. Foi sempre positivo, uma responsabilidade positiva.

Como foi aprender com as derrotas no MMA? Foi mais dolorido do que no jiu-jítsu, com certeza. É um esquema mais injusto. No jiu-jítsu, se acontece uma inversão, você leva uma queda. No MMA, um erro seu, e você toma um soco na cara, três chutes. O erro dói muito mais. Se baixar a guarda, você toma chute na cabeça. Podem quebrar o seu nariz.

Nunca quebraram o seu? Ou machucaram mais feio o seu rosto? Nunca quebrei o nariz, nunca quebraram. Eu fui nocauteado, mas foi por um soco na cabeça, não foi no rosto... O único corte que tive no rosto foi no esforço para perder peso pra lutar. Eu desmaiei saindo da sauna, bati com a cabeça no chão e acordei cheio de sangue na cara. Fiquei meio perdido. A luta era no dia seguinte, não sabia se iria conseguir. Tomei um banho, me refresquei, e colaram o corte com Super Bonder, porque, pelo regulamento, não poderia dar pontos. E eu acabei lutando. Ganhei no segundo round.

Qual foi a sua maior dificuldade na transição do jiu-jítsu para o MMA? Eu peso 100 quilos, e achei que conseguiria me adaptar bem à categoria até 84 quilos – outros atletas do meu tamanho conseguiram. Mas acho que essa não foi a melhor decisão, eu sofria muito para bater o peso.

Ao longo da carreira, que lesões mais sérias você teve e como conseguiu superá-las? Nunca tive lesão grave. Eu machuquei o joelho direito três vezes. A primeira foi fazendo boxe, há uns oito anos. Um médico chegou a me dizer que havia um risco de a minha carreira acabar ali, porque a minha patela deveria estar mais presa, a situação dela facilita lesões. Eu ouvi e pensei: "Vou continuar tentando, não posso ficar chorando". Fiz fisioterapia, fortaleci e passei um ano sem torcer o joelho de novo. Aí, torceu, mas não foi tão sério quanto da primeira vez. E fui em frente. Depois ainda torci outra vez, mas consegui levar até hoje. Tenho um ótimo fisioterapeuta lá em Londres.

Nenhum lutador tentou tirar partido dessa sua fragilidade no joelho direito? Não, porque eles não sabiam.

Até agora, né? [Risos.] Até agora. Mas pode escrever, tudo bem [risos].

Sua formação como empresário é toda autodidata? Até onde foi nos estudos? Eu sou totalmente autodidata. Não tenho estudo nenhum, mesmo. Me formei no ensino médio. E a faculdade que eu fiz foi na prática [risos]. Aos 21 anos, tocando um negócio em Londres. Como na minha família todo mundo sempre teve academia, aprendi muito com eles. O Renzo, que tem uma academia de sucesso em Nova York, me ensinou bastante. Eu ia pra lá, observava tudo, tentava incorporar em Londres as inovações que ele fazia.

E você também é presidente da federação de jiu-jítsu do Reino Unido [a UK Brazilian Jiu Jitsu Federation]. Como concilia esse trabalho? Sou presidente há três anos. Sou dono de academia também, mas tenho que ser neutro. É um pouco como a lisura de atleta. Tem a política, né? Em tudo tem a política. Precisa ouvir as pessoas, lidar com um monte de problemas. Lidar com pessoas é a pior coisa que tem [risos]. Mas lá é relativamente tranquilo. Brasileiro é mais difícil de lidar, tem sempre mais problema.

Como você vê, lá de Londres, a crise econômica e política pela qual o país passa, depois de anos sendo apontado como potência emergente? A gente começa a comparar com a situação de outros países e fica triste. Como um país tão rico fica nessa situação? O estado do Rio de Janeiro quebrado, falta de empregos generalizada, ninguém tem dinheiro pra nada... Mas eu tenho esperanças. O país está chegando ao fundo do poço, mas vai sair da crise. O Brasil não vai ser finalizado [risos].

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Créditos

Imagem principal: Pedro Loreto

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