por Carolina Ito

Do punk às artes gráficas mais sofisticadas, as revistas especializadas mostram a diversidade e criatividade dos quadrinhos autorais

Revistas de quadrinhos não são uma novidade no Brasil. Desde que a nona arte virou objeto de interesse de editoras e da imprensa, no século 20, é comum criarem publicações que apresentem diferentes artistas e estilos ao público. Nos anos 70 e 80, revistas como O Bicho, Chiclete com Banana e Animal foram na onda da contracultura que já rolava forte em outros países e se tornaram publicações importantes no Brasil. Essas revistas eram coletâneas de HQs brasileiras e, em alguns casos, de HQs gringas pirateadas, publicadas sem a permissão dos autores. Hoje, o cenário dos quadrinhos  é dos melhores no Brasil, com novas publicações nas ruas, caso da Plaf, e por chegar, como a Revista Baiacu, encabeçada pelos quadrinistas Angeli, Laerte e Rafael Coutinhocom lançamento previsto para novembro.

João Varella, da editora Lote 42, acredita que, além de serem fontes para conhecer novos artistas, as revistas são essenciais também de um ponto de vista mais reflexivo: “Elas têm um caráter didático e de crítica muito importante, exercem um papel de diálogo”. E esse diálogo não é só sobre quadrinhos, mas sobre todo um campo de produções que conversam ao redor, no cinema, nas artes visuais e na literatura. 

De acordo com Dandara Palankof, uma das idealizadoras da revista Plaf, uma prova disso é a inclusão de HQs no catálogo de editoras que antes se dedicavam apenas à literatura. “Bem antes do geek virar moda, com o auxílio das adaptações cinematográficas e das séries de TV, já víamos editoras incluindo cada vez mais graphic novels em seu catálogo, bem como o nascimento de editoras dedicadas ao gênero”, observa.

O melhor momento dos quadrinhos brasileiros

Junto com o surgimento dessas publicações vem a aposta na formação de um público novo e diversificado, que pode se interessar não só pelos tradicionais quadrinhos de super-heróis, mas também por produções fora do mainstream. Lucas Gehre, editor da revista Samba, acredita que “a produção brasileira nunca foi focada em super-heróis” e que é interessante observar o caminho dos quadrinhos experimentais. “Isso também não é uma luta entre estilos, mas um processo de abrir espaços para produções diferentes, para pensar quadrinhos de formas diferentes”, complementa.

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André Conti, da editora Todavia observa que agora “há mais artistas e mais leitores” graças à multiplicação de feiras, bienais e encontros que colocam os artistas independentes em contato direto com o público, sem depender da mediação do mercado editorial. Nesse cenário mais diverso a Todavia será responsável por lançar a previamente festejada Revista Baiacu

Para Gehre, vender quadrinhos antes das feiras era algo parecido com o trabalho de um camelô, porque os artistas tinham que ocupar espaços em eventos não especializados no gênero. “A cena toda se desenvolveu bastante nesses quase 10 anos”, afirma o editor da Samba.

Palankof acredita que esse é o melhor momento para os quadrinhos no Brasil e isso se deve também à possibilidade do artista divulgar trabalhos pela internet e conseguir bancar projetos através de crowdfunding. A internet teria diminuído o abismo entre as produções que se concentram no sudeste, em relação a outras regiões do país, proporcionando a troca de experiências.

Em relação ao público, Varella observa que são leitores “entre 20 e 40 anos, que tiveram uma passagem pelo chamado mainstream, lendo primeiro mangá, DC, Marvel e Turma da Mônica”, fazendo a ressalva de que não existem pesquisas aprofundadas sobre o consumo de quadrinhos independentes no Brasil. O editor da Lote 42 também comenta que esse público é formado por “pessoas de classe média, porque, infelizmente, essas publicações alternativas, por uma questão gráfica, custam mais caro”.

Sócia da Ugra, um dos principais pontos de venda de quadrinhos autorais em São Paulo, Daniela Utescher avalia que boa parte dos clientes tem entre 25 e 45 anos e possui um interesse amplo por quadrinhos, enquanto a outra é de jovens em busca de conteúdos que fujam do padrão das HQs de super-heróis. “É importante que as pessoas descubram que, assim como no cinema, na música e na literatura, há quadrinhos para todos os tipos de leitores”, destaca.

Pluralidade é o caminho

Qual seria a grande aposta para os quadrinhos independentes seguirem formando novos nichos de público? Palankof acredita no poder da pluralidade. “Tem mais mulheres adentrando o meio, mais negros, mais gays, o que resulta em uma pluralidade nas temáticas e nos discursos”, acredita. De acordo com Conti, a revista Baiacu vai seguir por esse caminho: “A ideia é que ela fosse variada, passasse por diversas gerações, trouxesse pontos de vista e perspectivas diferentes, variedade de estilos e vozes”.

A revista Risca!, feita integralmente por mulheres e organizada pelo coletivo Lady`s Comics, é outro exemplo. Além de mostrar o que as minas estão produzindo, reflete sobre os caminhos da produção feminina de HQs no Brasil e funciona como um registro histórico. “Eu vejo isso como um ato político, porque, se a gente não se importar em evidenciar essas grandes autoras agora, poucos irão atrás delas depois. O quanto da história das mulheres nas HQs brasileiras já não se perdeu?”, provoca Samanta Coan, uma das editoras.

Talvez ainda não tenhamos um mercado de quadrinhos para chamar de nosso, com uma identidade e um público consolidado, mas Palankof garante que “nunca estivemos tão perto disso”. As revistas de quadrinhos acompanham esse movimento, então, fizemos uma lista com publicações deste século, que mostram a diversidade de vozes estilos que os artistas brasileiros têm para oferecer. 

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