por Renan Dissenha Fagundes

A poluição mata 3 milhões de pessoas ao ano e 92% da população mundial respira um oxigênio venenoso. É a hora de encarar a exposição crônica à poluição como um problema real

Começou como piada. O primeiro Ziploc cheio de ar canadense que Moses Lam e Troy Paquette ofereceram na internet, em 2014, foi vendido por US$ 0,99. No segundo, o preço disparou para US$ 168. Foi a comprovação para os dois empreendedores de Alberta de que havia interesse comercial nessa mercadoria estranha, quase ficcional: ar puro.

Animados com a ideia, Lam e Paquette fundaram no ano passado a Vitality Air, uma empresa que vende garrafas de ar fresco das Montanhas Rochosas do Canadá. Um frasco com 150 inalações (de 1 segundo cada) custa US$ 32. Você pode escolher entre duas origens controladas, dois lugares pitorescos à beira de um lago, com menos de 50 quilômetros de distância um do outro: Banff e Lake Louise. As vendas mensais já batem a casa das dezenas de milhares, segundo a empresa. E os principais consumidores são os asiáticos, envolvidos em uma nuvem constante de poluição.

Vender ar. Mesmo. Não apenas como um souvenir (vidrinhos com ar de Berlim ou da Islândia não são de todo incomuns e um brasileiro fez sucesso com suas latas de ar do Rio de Janeiro durante as Olimpíadas), mas como um produto per se. Mas é sério? Parece que sim. "Queremos seguir a indústria da água engarrafada, que gera anualmente US$ 11 bilhões", disse Lam à Trip.

“A poluição do ar é a maior ameaça à saúde presente no ambiente”
Paulo Saldiva, médico patologista

A ideia absurda, porém, vai ao encontro das últimas notícias sobre a qualidade do ar que respiramos – aqui mesmo, não lá na China. O relatório da Organização Mundial da Saúde publicado no fim de setembro mostra que 92% da população do planeta vive em áreas com níveis de poluição superiores aos limites estabelecidos pelo órgão. Isto é, só um em cada dez humanos respira ar puro.

A poluição atmosférica causa mais de 3 milhões de mortes no mundo, a cada ano. Segundo levantamento do Banco Mundial, também publicado no último mês, foram 62 mil mortes no Brasil causadas pela poluição atmosférica em 2013. O problema custa à economia mundial US$ 225 bilhões por ano, US$ 4,9 bilhões só no Brasil. "A poluição do ar, hoje, é a maior ameaça à saúde presente no ambiente", diz o médico e pesquisador Paulo Saldiva, patologista brasileiro especialista no assunto, ecoando uma afirmação feita também na abertura do relatório da OMS. "Ela ganha das doenças transmitidas por mosquitos ou por mal saneamento. 

Na década de 80, quando Saldiva começou suas pesquisas, a poluição ainda era vista como um tema mais ligado aos problemas ambientais – os danos à saúde só apareciam em momentos de poluição extrema. Hoje, por outro lado, já foi comprovado que o ar que respiramos todos os dias nas grandes cidades causa danos a longo prazo, como problemas cardiovasculares, doenças pulmonares crônicas e câncer. "Pesquisar se a poluição faz mal é o mesmo que tentar descobrir se cigarro faz mal: já está mostrado", conta Saldiva.

Os mais recentes estudos sobre o tema focam na relação entre a poluição e doenças como o Alzheimer ou nos seus efeitos sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças. O sinal definitivo da ideia de que a poluição é causa mortis a ser levada a sério chegou em 2013, quando a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer decidiu classificar a poluição do ar na mesma categoria de substâncias tóxicas como o amianto e o tabaco.

KILLING ME SOFTLY

A chave da questão é uma mudança de entendimento sobre o problema. Até aqui, a preocupação da sociedade é com os episódios agudos de poluição. Agora, é hora de encarar a exposição crônica ao ar poluído como um problema real.

Nos dias em que os níveis de poluentes nas grandes cidades chegam a picos, quem tem algum tipo de doença respiratória sente na hora. Mas é na exposição a longo prazo a níveis menores de poluentes, invisíveis e imperceptíveis, que está a maior ameaça.

Quando o horizonte está cinzento e a rinite ataca, é fácil apontar o problema. Difícil é falar sobre a gravidade da questão em dia de céu azul. "O que vivemos no dia a dia não é menos grave do que os momentos de pico", afirma o meteorologista Carlos Lacava, gerente do departamento de apoio operacional da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), órgão responsável pela medição da qualidade do ar paulista. 

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Via de regra, em grandes cidades como São Paulo, Londres ou Paris, a principal causa da poluição é a frota de carros. As metrópoles brasileiras já têm níveis de poluição controlados – situação pior que as da Europa ou dos Estados Unidos, mas melhor que as de outros países emergentes –, em grande parte devido à implementação, no fim da década de 80, do programa nacional de controle da poluição do ar por veículos automotores, o Proconve. Foram definidos ali limites de emissões para carros que impulsionaram a evolução tecnológica de combustíveis e veículos. Não se engane, porém. A situação está longe do ideal. Segundo Saldiva, não há nível seguro de poluição: assim como o cigarro ou o colesterol ruim, quanto menos melhor. "Eu sou patologista, então tenho o duvidoso privilégio de ver o pulmão do paulistano por dentro, e todos nós temos depósitos de carbono", diz o médico. Nosso pulmão envelhece um pouco mais depressa que o combinado."

Outro problema é que os índices estão caindo menos. "Nas décadas de 80 e 90, como o nível tecnológico era menor, você conseguia grandes reduções com a modernização da indústria", diz.

“Agora, como o patamar tecnológico é alto, as reduções são cada vez mais complexas e exigem soluções integradas”
Maria Helena Martins, gerente da divisão de qualidade do ar da Cetesb

 "Agora, como o patamar tecnológico é alto, as reduções são cada vez mais complexas e exigem soluções integradas." A renovação da frota por veículos mais modernos reduziu a poluição, mas o número de carros nas ruas não para de crescer. Na capital paulista, passou de 7,8 milhões em 2014 para 8,1 milhões em apenas um ano. Há ainda um retrocesso tecnológico em vias de acontecer: a Câmara dos Deputados estuda um projeto para liberar no Brasil carros a diesel, principal fator de problemas em capitais europeias, que já está sendo revisto. O voto do relator, o deputado Evandro Roman (PSD-PR), é favorável.

Não se trata de uma campanha contra o carro. "O problema é o modo como ele é usado, em que condições", diz Carlos Lacava. "Mesmo um carro que não emite poluentes – um carro novo ou até um carro elétrico–, se está no trânsito, congestionando, ele é a causa do aumento de emissão de poluentes dos outros veículos, porque quando estão em marcha lenta, emitem mais poluentes do que quando estão rodando." Trata-se, portanto, de um problema estrutural, não individual. Como outras questões da modernidade, soluções simplórias não servem aqui. Há que debater mudanças de comportamento – deixar o carro na garagem e usar o transporte público ou a bicicleta, por exemplo –, investimento público e uma vontade individual de concretizar mudanças.

A POLUIÇÃO É NOSSA

Envolve este cenário uma nuvem de interesses. Para Saldiva, estamos diante de um problema de difícil solução porque estão em jogo interesses econômicos de grandes corporações. "Atividades de queima de combustível fóssil vão provocar danos na saúde, isto é um fato. A questão em discussão é só saber quanto de risco se aceita. Quando você tem um confronto desses, não pode cair na armadilha de procurar consenso, porque ele nunca vai existir. É preciso definir prioridades baseadas em valores e princípios", explica. Havia uma ideia de que a tecnologia poderia evoluir a tal ponto que resolveria o problema. "A gente acreditava no princípio dos Jetsons, de que carro podia emitir perfume. Mas não emite", ele diz.

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Hoje muito ligado às questões de mobilidade urbana, Saldiva vê a poluição do ar como um marcador, um argumento na discussão sobre o futuro das cidades. "A mudança não é só tecnológica, ela é de valores, e isso é o mais difícil. Pra uma geração que ganhava carrinho de pedal pra dirigir, entrava na faculdade e ganhava um carro, isso faz parte da essência do cara. A cultura da maior parte das pessoas é a cultura do carro", ele diz. "Mas vai existir um momento de crise na mobilidade. A mudança vai ser ou por bem ou por mal."

Créditos

Imagem principal: Pedro Inoue

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