por J.R.Duran
Trip #210

J.R. Duran : ”você pode se esconder, mas o anonimato é um estado social em extinção”

Não se engane, você é o que você digita. E pode fazer isso escondido, mas o anonimato é um estado social em extinção

Perguntaram a um ex-presidente, certa vez, do que ele sentia falta dos dias passados com pompa e circunstância pilotando o Brasil. A resposta dele foi curiosa, porém emblemática. O que mais sentia falta era do fato de as pessoas abrirem as portas para ele passar.

Essa sensação física, a dos limites visuais desaparecerem na sua frente, é um privilégio de poucos. A percepção que se tem é de que, apenas através do reconhecimento da pessoa, se pode chegar a esse estado de nirvana existencial em que os obstáculos vão se afastando à medida que o corpo em movimento vai se deparando com eles. As aparências indicam que o caminho mais curto para isso, no século XXI, é a fama. Seja famoso e as portas do mundo se abrirão para você.

Com o poder das redes sociais qualquer um pode ser o que quiser na hora em que desejar. Mesmo mantendo o anonimato os personagens se multiplicam, as opiniões jorram como cascatas incontroláveis e as imagens se reproduzem como champinhons envenenados. RG, CIC, CPF, IP e outros números modificados deixam qualquer um ao alcance de qualquer mente articulada que possa explorar o que ficou preso na armadilha da rede digital. Não se engane, você é o que você digita. E pode fazer isso escondido, mas o anonimato é um estado social em extinção.

Na fronteira, sem passaporte

Amigos jornalistas me dizem que o melhor lugar para lembrar quem você é, de verdade, é num checkpoint. Tendo de dialogar, frente a frente, com alguém que lida com uma AK-47 com a mesma displicência que um japonês o faz com seu aparelho celular em alguma rua de Tóquio. O silêncio em um checkpoint, enquanto o guarda armado mexe nos papéis que autorizam a passagem, é de provocar um ataque de ansiedade a qualquer candidato a BBB. É também a maneira mais rápida de fazer o caminho para o anonimato total com chances de acordar no inferno. É a hora de a currupia piar.

Passei por algumas dessas experiências. Em uma estrada da Eritreia, na África, por exemplo, a espera foi de quatro horas sentado em uma pedra, na expectativa do momento em que o soldado decidisse abrir a cancela. Se tratava apenas de uma corda dividindo a estrada, mas a autoridade silenciosa de uma arma de fogo impõe recolhimento e reflexão obrigatórios.

Em outra ocasião, no Congo, saindo de Goma de volta para Ruhengeri, em Ruanda, a angústia foi um pouco maior. Ao ser parado em um posto de controle, a centenas de metros da fronteira, estava sem nenhum documento (e o que eu fazia lá, sem passaporte? Isso é outra história, um pouco mais complicada, outro dia eu conto). Até hoje não sei como saí dessa, mas tenho a certeza de ter sido o momento em que estive mais perto de desaparecer do GPS em toda minha vida.

“Ser feliz não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos. Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato”, escreveu Antônio Pessoa, um dos anônimos – e heterônimos – mais célebres da língua portuguesa. A cantora Maria Bethânia, em um momento Antônio Pessoa, disse outro dia em uma entrevista que precisava falar com a imprensa porque tinha que divulgar o lançamento de um novo CD e que “gosto de ser discreta. A vitrine me cansa demais. Tenho horror a exposição...”. Entendo e concordo com ela. Não quero ser célebre, mas, confesso, gostaria de ter alguém que abrisse as portas para mim. Isso sim é a glória.

*J. R. Duran55, é fotógrafo e escritor

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