por Milly Lacombe

Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, o efeito já não é o mesmo

Eu devia ter uns 7 anos quando enxerguei pela primeira vez uma criança de rua. Estava no banco de trás do Opala azul de minha mãe e vi pela janela um menino que devia ter a minha idade vindo pedir dinheiro. Era um garoto pequeno, magro, de cabelos lisos, pele suja e olhar desesperado. Ainda posso ver seu rosto, a expressão de seus olhos pelo vidro do Opala. Sei exatamente em que esquina estávamos – e até por isso a memória daquele dia volta sempre que passo por lá –, sei que era fim de tarde e sei que fazia frio. Durante as semanas que se seguiram ao encontro, fantasiei com a possibilidade de voltar àquela esquina, reencontrá-lo, convidá-lo a entrar, levá-lo para morar em casa. Ele dormiria no quarto do meu irmão, me parecia bastante óbvio que fosse assim, já que meu irmão dormia sozinho e eu tinha que dividir o quarto com aquelas duas outras meninas que moravam em casa: minhas irmãs caçulas. Lembro de ter dito a minha mãe que queria voltar àquela esquina, ver se o menino ainda estava lá, chamá-lo para morar com a gente. Não lembro da reação dela diante do pedido, mas o fato é aquele menino e eu nunca mais nos encontramos.

Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, já completamente inserido nesse mundo maluco e cruel em que vivemos, o efeito já não é o mesmo. “É assim que as coisas são”, dizemos a nós mesmos. Mas as coisas não deveriam ser assim, as coisas não poderiam ser assim, e nós não deveríamos nos acostumar que as coisas fossem assim. Essa sociedade adoentada em que vivemos não foi imposta por ordem divina, ela foi criada por cada um de nós, e todas as coisas que homens e mulheres criaram podem ser destruídas, reformadas, renovadas.

Não demora muito para que uma criança privilegiada como aquela que eu fui cresça para ter a convicção de que suas conquistas e sucessos são resultado apenas de mérito e esforço pessoal, e não de vantagens como educação, herança, classe etc. O arranjo social que nos molda é feito para encorajar cada um de nós a acreditar que a desigualdade é aceitável, já que ela recompensa mérito e esforço: as leis do maravilhoso e santificado mercado asseguram que cada um terá o que merece porque o mercado se autorregula e se autocorrige. É assim que a vida daquele menino e a minha passam a ser, sob os olhos de uma instituição que celebra a competição e menospreza a colaboração, justas, explicáveis, adequadas. Privilégio é complicado porque leva o privilegiado a acreditar que sua vantagem na vida foi completamente conquistada e que as desvantagens dos menos afortunados vêm de demérito, ensina Noam Chomsky.

Mas, antes de mais nada, temos que entender para onde esse privilégio que nos dá o direito de consumir e acumular está nos levando, porque nesse corre maluco que estabelecemos e chamamos de vida não há tempo para parar e refletir. 

CORRENTE HUMANA

Na França atual, 6 milhões de pessoas, ou 10% da população, acordam sem saber se terão alguma coisa para comer naquele dia. Estamos falando da situação de um dos países mais ricos e romantizados do mundo, e não do Haiti, onde a realidade é imperialmente pior. No riquíssimo Japão, 20 em cada 100 mil pessoas cometem suicídio por ano; no Peru, um país pobre, uma pessoa em cada 100 mil faz a mesma coisa anualmente.

Os efeitos de um sistema baseado na acumulação de riqueza, esse valor contra o qual todos os demais são medidos, como sugeriu a poeta Adrienne Reich há algumas décadas, ferem a todos nós de forma profunda e muitas vezes discreta: impedem questionamentos, castram a imaginação, reduzem complexas relações humanas a uma iconografia barata, produzem surtos de ansiedade, angustia, fobias, solidão.

“Dominamos completamente o planeta não porque somos mais espertos e ágeis do que um chipanzé e sim porque somos a única espécie capaz de uma cooperação flexível e em grande escala”, escreve o historiador israelense Yuval Noah Harari em seu Homo Deus. O que nos distingue das demais espécies é, portanto, a capacidade de cooperar, de nos ajudar, de nos organizar, de viver em comunidades.

Clair Patterson é o nome do cientista que em 1956 descobriu a idade da Terra (4,5 bilhões de anos), e, embora ele tenha ficado com o mérito, é folclórico o momento em que Patterson, esperando que o resultado de sua pesquisa fosse confirmado e o elevasse à categoria de imortal, agradeceu nominalmente a todos aqueles geólogos e cientistas que vieram antes dele e cujas pesquisas possibilitaram sua descoberta. É o que fazemos nessa viagem maluca pela Terra: passamos o bastão; colaboramos com os que estão aqui agora, aceitamos a colaboração dos que vieram antes, deixamos algum conhecimento de herança para os que nos substituirão e, especialmente, aprendemos que as mais individuais de nossas conquistas nunca são mérito de nossos esforços e talentos, mas resultado da colaboração de uma comunidade inteira.

Só que o ritmo de vida que criamos estabelece que devemos abrir mão de significado em troca de poder e riqueza. “O credo de [ter] ‘mais coisas’ impele indivíduos, empresas e governos a descartar tudo o que possa impedir o crescimento econômico, tal como preservar a igualdade social, garantir a harmonia ecológica ou respeitar os pais”, escreve Harari. Ele explica que se a ideia é a de fornecer a todos os seres humanos do mundo um padrão de vida semelhante ao do americano abastado, então precisaríamos de outros planetas que pudessem ser explorados e torturados porque este aqui está se esgotando.

O que talvez indique ser essa a hora ideal, se não a última, para que exerçamos uma de nossas liberdades mais poderosas: escolher conscientemente o que tem e o que não tem significado. E quem sabe ao fazermos isso entendamos Belchior: “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais – amar e mudar as coisas me interessa mais”.

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