por Madson de Moraes

O designer gráfico holandês Rogier Klomp explica porque o “big data” pode nos levar a um Big Brother se governos usarem nossos dados para nos controlar e reprimir

Ler a timeline do Facebook, responder no WhatsApp, compartilhar notícias pelo Twitter, cadastrar dados pessoais num site, usar aplicativos de geolocalização. Nunca antes as pessoas criaram tantos registros de si mesmas: onde vão, o que compram, dizem, assistem – e até o que farão no futuro. Esses rastros geram dados que alimentam o big data, termo usado para descrever um imenso volume de dados armazenados.

Traduzir esse volume de informações é, digamos, o petróleo do novo milênio — empresas como Facebook e Google produzem análises para suas ações de marketing e anúncios, o que possibilita estratégias que atinjam em cheio os desejos de públicos distintos. Menções positivas ou negativas de empresas no Twitter podem predizer altas ou quedas na bolsa de valores. E da mesma forma que o big data é usados por grandes empresas, a política e os governos também pode tirar um enorme proveito desses dados. 

Para o designer gráfico holandês Rogier Klomp, que vem falar sobre sua pesquisa entre dados e democracia no What Design Can Do 2016, o big data não é, por definição, útil ou destrutivo. Depende totalmente de como é aplicado. "É importante definir a democracia não somente como ‘eleições livres’, mas, de maneira mais ampla, como um sistema onde os desejos de todas as pessoas estão sendo abordados.

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"O big data pode ajudar a alcançar isso se for aplicado de forma eficiente e ética", afirma. "Governos democráticos podem usar dados sobre infraestrutura, saúde, segurança, crime e satisfação dos cidadãos para criar cidades inteligentes e melhorar todos os tipos de serviços. Este sistema utilizaria não apenas o nosso voto, mas também nossos dados para criar a sociedade que queremos." Um exemplo é o Departamento de Polícia de Los Angeles, que tem usado dados para antecipar crimes. Por outro lado, adverte o pesquisador holandês, o big data também pode nos levar a um Big Brother se governos nada democráticos o utilizarem para controlar ou reprimir pessoas. 

"Eu costumava pensar que a internet estava tornando o mundo um lugar mais democrático, mas ultimamente parece que acontece o oposto", diz Klomp. O Facebook, por exemplo tem recebido críticas que acusam a rede social de criar "bolhas de informações" ao mergulhar seus usuários em um ambiente em que leem e curtem apenas o que gostam e onde notícias falsas circulam livremente: os algoritmos d colocam na timeline apenas conteúdos parecidos àqueles que o usuário "curtiu" anteriormente, sem dar espaço ao contraditório, e não se preocupam em filtrar o que é verdadeiramente notícia do que um boato. Isso teria ajudado a levar Donald Trump à Casa Branca nas últimas eleições americanas. "A campanha de Trump prosperou em notícias falsas, que não foram desmascaradas nessas ‘câmaras de eco’ do Facebook", afirma Klomp, e, enquanto isso, os jornais estão falindo. "Se as pessoas continuam a usar o Facebook como uma fonte de notícias, e provavelmente irão, acho que ele tem a responsabilidade de fazer sua plataforma mais apta para o consumo de notícias."

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Em sua defesa, o Facebook tem insistido que é uma empresa de tecnologia e não de mídia e que rejeita a ideia de ser responsável pelo conteúdo que seus usuários publicam ou compartilham. Após a eleição, Mark Zuckerberg afirmou ser maluca a noção de que informações mentirosas publicadas no Facebook ajudaram a eleger Trump. A enxurrada de críticas, no entanto, o fez tomar uma série de medidas para eliminar boatos e mentiras da rede social, como tornar mais fácil denunciar um conteúdo falso. Para Rogier, seria interessante a criação de um ranking de confiabilidade para notícias. "Acho que há muitas soluções possíveis e tecnologias interessantes para experimentar. Nesta interação, designers poderiam desempenhar um papel muito importante", afirma.

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É por causa da saída do Reino Unido da União Europeia e da vitória de Donald Trump nos EUA que o dicionário Oxford elegeu "post-truth", ou pós-verdade, como a palavra de 2016. A expressão quer dizer "algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais". Quer dizer: a verdade deixou de ter valor e a desinformação, o boato, o rumor e a mentira, proliferam. Em relação ao "pós-verdade", Klomp diz acreditar que as pessoas sempre basearam decisões em suas emoções em vez de fatos objetivos, mesmo quando percebem isso, e que políticos sempre levam isso em conta. "Aqui na Holanda, tivemos um referendo sobre um acordo comercial europeu com a Ucrânia. As pessoas votaram não, mas isso não tinha nada a ver com o acordo comercial. Esse ‘não’ refletia pura e simplesmente sua raiva, temores e desconfiança na União Europeia. Então, acho que pós-verdade deveria ter a sido palavra do ano há muito tempo."

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