por Marcos Candido
Trip #266

Afinal, por que o crossfit se espalha pelo país e conquista tanto discípulos?

O clima no ginásio do Morumbi, em São Paulo, mistura o transe coletivo de um templo religioso com o de uma rave. Uma dupla de narradores grita uma contagem regressiva: "5!, 4!, 3!...". Os berros, amplificados por duas grandes caixas de som, disputam espaço com uma playlist intensa de música eletrônica, tocada por mais de 12 horas consecutivas. Quando o cronômetro zera, os competidores do Wknd Wars 2017, um dos maiores torneios de crossfit do Brasil, se hidratam com shakes energéticos e posam para os celulares sempre em punho dos parentes – que também berram muito na plateia.

Neste e em outros espaços parecidos, sonorizados com versões techno de Bon Jovi e alimentados por tendas que vendem tapioca de frango com batata-doce, os devotos do crossfit colocam à prova o treinamento praticado de forma religiosa durante a semana. Alguns atletas saem frustrados, arfantes e com olhos marejados. Outros, unem-se aos familiares enquanto uma camada de suor ainda escorre pela pele. No Brasil, o número de praticantes, estima-se, já passa da casa de 50 mil, espalhados pelas cinco regiões do país em quase 800 academias especializadas (chamadas de box). "Eu faço crossfit por causa disso aqui", aponta para o tablado de competição a auxiliar administrativa Bianca Santos, 26 anos – três de crossfit. "É aqui que encontro motivo para levantar todos os dias."

LEIA TAMBÉM: MMA versus boxe. Quem ganha?

Existem várias hipóteses que buscam explicar esse arrebatamento. Na linha mais técnica, a modalidade é vista como um dos meios mais democráticos e rápidos para aprimorar habilidades físicas e definir o corpo. Ao chegar no box, o novo atleta descobre ao menos dez exercícios básicos, e suas variações, que aceleram o desenvolvimento aeróbico e a resistência muscular de modo pra lá de eficiente. Em uma linha mais teórica, o esporte estimularia o senso de comunidade dos praticantes. Essa rotina mais empática e imediatista, porém, não foi a única razão da imensa popularidade do crossfit, que ganhou ainda mais fôlego com seu elemento competitivo.

Treino do dia

Desenvolvida "ao longo de várias décadas" na cidade de Santa Cruz, no litoral norte da Califórnia, pelo norte-americano Greg Glassman, a prática começou a se popu­la­rizar no início dos anos 2000, quando Glassman registrou a marca CrossFit Inc. e abriu a matriz responsável por elaborar parâmetros e licenciar o funcionamento dos boxes em outros países. A criação do torneio oficial, o CrossFit Games, em 2007, ajudou a elevar o número de boxes de 13 para mais de 10 mil. Cada vez mais lotadas, as competições seguem uma das principais ferramentas de propagação do termo crossfit. Em torneios informais como o Wodpalooza, à beira de uma praia em Miami, mais de 1.500 atletas, vindos de 50 países, duelam anualmente. No Brasil, o maior e mais profissional dos campeonatos é o TCB (Torneio CrossFit Brasil), em que a nata da nata, selecionada a partir de baterias regionais, compete ao longo de três dias diante de um público de mais de 10 mil espectadores.

LEIA TAMBÉM: O que raios é calistenia?

O crossfit mistura movimentos de modalidades olímpicas, como ginástica e levantamento de peso, com técnicas de musculação funcional e de calistenia (que utiliza o peso corporal como resistência). A prática é organizada em torno do "treino do dia", ou WOD, de workout of the day, sigla repetida como um mantra espiritual pelos atletas. Com a ajuda de um treinador, o crossfiter opta por vários estilos de WOD, com mais ou menos dificuldade. Um iniciante, por exemplo, pode começar com uma air bike (no lugar do pneu, uma hélice enfrenta a resistência do ar, como em um ventilador), depois, levantar um peso acima dos ombros e em seguida arremessar uma pesada bola no ponto mais alto de uma parede (o wall ball). Nos campeonatos, ganha a equipe que fizer mais movimentos em menos tempo.

"Conseguimos adaptar um treino para idosos, adolescentes, esportistas mais avançados, gente que nunca fez exercício, até deficientes físicos", explica Carlos Klein, fundador da academia CrossFit 79. Realizar os WODs utilizando o peso e as repetições prescritas, porém, é um dos objetivos do crossfit (um treino feito como prescrito é chamado de RX). Mas a busca pela força pode resultar em lesões. No Brasil, de acordo com o grupo de traumatologia da Santa Casa de São Paulo, cerca de 30% dos crossfiteiros já sofreram alguma lesão. "Mesmo em um treino adaptado, a quantidade de movimentos musculares e articulares praticados [no CrossFit] deveria ser destinada a uma elite. Até mesmo essa elite acaba se machucando. Há uma sedução pelo instantâneo, embora o organismo não siga essa lógica: nosso corpo não faz parte do mundo fitness, mas sim do mundo natural. A alta atividade de exercícios contra o relógio acelera o desgaste físico – o que traz envelhecimento precoce e, com isso, lesões. Uma hora, a conta vem", explica Nuno Cobra Jr., autor de O músculo da alma e um dos principais preparadores do chamado Movimento Treinamento Consciente, além de ter desenvolvido rotinas para esportistas de alta performance desde os tempos em que acompanhava o pai Nuno Cobra no dia a dia com Ayrton Senna.

Comunidade unida

A motivação progressiva do crossfit faz com que existam nos boxes vários migrantes de diversas artes marciais, maratonistas ou da musculação funcional, gente que se empolgou com o retorno mais rápido do tempo e do dinheiro investidos na vida fitness – em São Paulo, a mensalidade de um box flutua entre R$ 250 e R$ 500. O preço não é muito diferente em outras capitais do país. Mas não são apenas musculosos com veias saltadas que povoam os boxes. Luana Santos, 24, moradora de Osasco, criou a equipe Star-Os com mais duas amigas franzinas. Em seis meses de crossfit, as três se lançaram como atletas. O nome do time é uma homenagem à cidade localizada na Grande São Paulo e à série de ficção científica de George Lucas. "A gente gosta dessas coisas nerds", explica Luana, ao mesmo tempo que limpa o suor de seu uniforme pink estampado com a cara de Darth Vader.

LEIA TAMBÉM: O rope jump do alto de prédios abandonados

A socióloga Marcele Dawnson, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, defende que o crossfit é uma oposição ao modelo das academias tradicionais. Por exemplo: a modalidade não dá chance para que seus adeptos pedalem usando fones de ouvido, sem conversar com o semelhante ao lado. O box, segundo a pesquisadora observa, é construído em um espaço compacto, sem espelhos instalados nas paredes, de modo que estimule o olhar e consequemente a atenção aos colegas. "Se eu deixar, meus colegas de box vão comigo até ao banheiro", brinca a engenheira mecânica Natália Akemi, 29. "Crossfit não é só competir. É se sentir como parte de algo, de um espaço", explica Luiz Renato "Lupa", atleta de 43 anos, 1º lugar no ranking latino-americano aberto, segundo o CrossFit Games. "Até se eu preciso de carona ou apoio, a galera do box está comigo. Acaba sendo uma família, mesmo." Conforme Marcele diz em seu artigo, a união não se estende apenas ao estímulo físico de uns para com os outros. Tal comunhão sugere que os crossfiteiros se sentem parte de um grupo exclusivo, uma instituição verdadeiramente mais coesa (e poderosa) do que as outras existentes.

Espalhando a palavra

A cultura crossfit não nasceu espontaneamente, mas se alastra de forma orgânica na comunidade. Novas tendências são ministradas em palestras e publicadas on-line no CrossFit Journal, desenvolvido pela CrossFit Inc., de Glassman, e voltado a adeptos e coaches no mundo todo. Na prática, a publicação funciona como um WOD que cria uma identidade comum entre pessoas distintas. Além das siglas, gírias e discursos transmitidos por meio de histórias de superação, o CrossFit Journal mostra coisas como indicações para adotar a Zone Diet, método de dieta natural que, teoricamente, produz hormônios anti-inflamatórios enquanto detém o excesso de gordura no corpo. O troco é uma suposta saúde, típica de uma elite que abre mão dos prazeres modernos em troca da tão buscada eficiência física. Nilo Lima, modelo e educador de 29 anos, atribui a aversão à alimentação industrial como um dos motores para fazer parte do grupo. Para ele, modelar corpo e boca o faz "retomar as habilidades mais naturais" e se "sobrepor sobre a máquina". "Ao mesmo tempo que é uma diversão competir, o crossfit me prepara para a vida", explica.

Há quem veja na negação à vida moderna – e na disciplina – uma instituição semelhante a uma igreja, com rituais específicos e membros que ajudam uns aos outros em sua busca individual. O pesquisador australiano Cassie Love recomendou, em um artigo de 2015, que a própria Igreja observasse e buscasse reproduzir o ambiente social do box, assim como a manutenção de valores, em uma era de distrações e individualismos. A conversão tem dado certo. Nos Estados Unidos existem mais de 7.200 boxes, número próximo à quantidade de lojas do Starbucks em operação por lá. Também no Brasil a quantidade de atletas aumenta – seduzindo gente de todo tipo, como você pode ver nesta página –, apesar do risco, cada vez mais conhecido, de lesões. Em comum, o mesmo som eletrônico forte e pulsante, o mesmo convite ao pertencimento e o mesmo barulho de pesos sendo arremessados ao chão ecoam como um mantra em qualquer canto do mundo por onde se reza o crossfit.

LEIA TAMBÉM: Como os hormônios agem sobre nossa vida?

Créditos

Imagem principal: Luiz Maximiano

matérias relacionadas