por Ricardo Calil
Trip #251

Símbolo de luxo da década de 50, o Cine Marrocos abriga desde 2013 a segunda maior ocupação vertical de São Paulo

Aos 80 anos de idade, a aposentada Madalena Pedro Godoi garante que só não fez quatro coisas na vida: “Nunca roubei, nunca matei, nunca usei drogas e nunca virei a bolsinha”. Ela trabalhou como doméstica, pedreira, faxineira de hospital e de escola, cozinheira do presidente Jânio Quadros, entre outras atividades. Dois anos atrás, Madalena riscou mais um item da lista de coisas que jamais havia feito: tornou-se moradora de ocupação. Vozinha, como foi batizada pelos vizinhos por conta dos cabelos brancos e da personalidade acolhedora, é uma das 1.600 pessoas que ocupam o edifício Marrocos, no centro de São Paulo. Ela conta que está ali para lutar pelo cadastro de uma casa – e, assim, garantir um lar definitivo para seu filho Temístocles (um rebento com nome de general ateniense é outra de suas muitas peripécias).

Vozinha engrossa uma legião que cresce a cada ano em São Paulo. Movimentos de sem--teto, com siglas variadas como MSTS, MMM, MSTC, LMD e MLSM, ocupam hoje cerca de 40 edifícios na região central da cidade – que tem um déficit habitacional de 230 mil moradias e 290 mil imóveis não habitados. Com 423 famílias, o Marrocos é a segunda maior ocupação vertical da cidade, depois da Prestes Maia. Segundo Douglas Gomes, presidente do MSTS (Movimento dos Sem-Teto de São Paulo), que organiza a ocupação do Marrocos e outras duas no centro da cidade, os moradores são, em sua maioria, brasileiros que buscam um teto mais barato para ascender da classe D para a C. Mas há também 25% de imigrantes e refugiados africanos (Angola, Guiné, Camarões, Nigéria, Congo) e latino-americanos (Peru, República Dominicana, Haiti, Bolívia) – o que torna o Marrocos uma versão moderna da Torre de Babel.

Não é, porém, o número de moradores ou a diversidade de suas origens que faz do Marrocos uma ocupação única em São Paulo – e sim o seu endereço. Na rua Conselheiro Crispiniano, 344, a poucos metros do Theatro Municipal, funcionou durante quatro décadas o majestoso Cine Marrocos.

Um sonho do empresário e exibidor Lucydio Ceravolo, foi inaugurado em 1951 com o slogan “o melhor e mais luxuoso cinema da América Latina”, com decoração inspirada nas Mil e uma noites e uma gigantesca sala com capacidade para 2 mil pessoas. Símbolo da pujança econômica de São Paulo (então a cidade que crescia mais rapidamente no mundo, com quatro novas residências entregues por dia), o cinema era voltado para a high society que frequentava o centro – sem gravata, os homens não podiam nem passar pela porta.

O auge do Marrocos se deu em 1954, quando foi sede do I Festival Internacional de Cinema do Brasil, parte das comemorações do IV Centenário de São Paulo. Ao longo do evento, passaram pelas escadarias grandes estrelas hollywoodianas (Errol Flynn, Edward G. Robinson, Joan Fontaine, Fred McMurray) e enormes nomes do cinema europeu (o cineasta austríaco Eric Von Stroheim, o francês Abel Gance, o papa da crítica André Bazin e o mítico fundador da Cinemateca Francesa, Henri Langlois). Na tela, foram projetados filmes que se tornariam clássicos do cinema: Noites de circo, de Ingmar Bergman (marcando a primeira consagração internacional do cineasta sueco), A grande ilusão, de Jean Renoir, Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, entre muitos outros.

Depois do festival, o Marrocos acompanhou lenta e progressivamente o declínio do centro de São Paulo e seguiu a sina dos cinemas de rua da região: em meados da década de 70, já com outros proprietários, começou a exibir filmes pornô; no começo dos 90, fechou as portas. Houve diversos planos para reativar o cinema, todos frustrados, e o edifício acabou sendo comprado pela prefeitura de São Paulo, que pretendia instalar ali a sede da Secretaria Municipal de Educação. Já Armando Ceravolo, filho do criador do Marrocos, sonha com o dia que o local irá se transformar em um centro de artes, com um busto homenageando seu empreendedor pai logo na entrada.

Luxo e miséria

A história do Marrocos mudou em novembro de 2013. E não foi necessária uma sangrenta revolta popular, como havia ocorrido dois anos antes no país que deu nome ao cinema. O MSTS já tinha outra ocupação na mesma rua, no antigo Museu do Disco. Seus coordenadores simplesmente pularam uma grade e driblaram dois seguranças sonolentos. Ergueram tapumes, estenderam faixas com a sigla do movimento e deram início à ocupação.

A maioria dos moradores ocupou o edifício acima do cinema, com suas quatro torres de 12 andares, transformando as antigas salas comerciais em quitinetes improvisadas. Uma parcela menor – de ex-moradores de rua, em situação de vulnerabilidade social – foi instalada no hall de entrada e no saguão do antigo cinema, em quartos provisórios montados com divisórias de escritório.

Em meio aos tapumes, aos grafites e à tralha acumulada, ainda é possível vislumbrar os vestígios do grandioso cinema: paredes vermelhas com esculturas de gesso em alto-relevo, antigas colunas espelhadas, escadarias de mármore que levam à antiga sala de projeção (que mantém dois empoeirados projetores Triumph), um buraco onde antes havia uma fonte de água luminosa... Não é preciso ler as obras completas de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda para enxergar ali um microcosmo da realidade brasileira: um cenário que mistura ostentação e decadência, ficção e realidade, o passado de elite cultural e o presente de luta social, os fantasmas dos atores hollywoodianos e os herdeiros da miséria paulistana.

No antigo edifício comercial acima do cinema, a situação é menos precária. As quitinetes não diferem muito dos lares simples da periferia, há um banheiro em média para cada três famílias, e os moradores contam com água, luz e um velho luxo: elevadores com ascensorista. A maioria absoluta tem computador e celular (há wi-fi gratuito no térreo oferecido pelo movimento) e trabalha fora – embora alguns ganhem a vida lá mesmo, como a maranhense Maria Gorete Pessoa, que vende os doces feitos por sua irmã na recepção do edifício.

Sempre provisório

Ao contrário do que muitos imaginam, tudo isso tem um custo. Como em outras ocupações verticais no centro, para morar no Marrocos é preciso pagar  matrícula de R$ 250 e mensalidades de R$ 200 por família. “Não chamamos de ‘aluguel’ porque não podemos alugar um espaço que não nos pertence”, diz Douglas Gomes, presidente do MSTS. O dinheiro, ele explica, serve para pagar a luz, a água, a comida oferecida na cozinha comunitária, o leite distribuído duas vezes por semana e os colaboradores e coordenadores do movimento. O coordenador José Edmilson Lins (mais conhecido como Bilu), por exemplo, ganha R$ 1.200 por mês e não precisa pagar por seu quarto.

O valor da mensalidade também paga pela segurança. Além dos porteiros na entrada (que barram pessoas sem a carteirinha do movimento), há 128 câmeras espalhadas estrategicamente pelo prédio – que, segundo o presidente do MSTS, tornam a ocupação mais segura do que muitos condomínios de luxo. “As pessoas que não têm condições de pagar, como aquelas que moram no hall e no saguão do cinema, são isentas da mensalidade. Ninguém é mandado embora por falta de pagamento, mas alguns podem ser convidados a se retirar por mau comportamento”, afirma Gomes, citando consumo de bebida alcoólica em áreas comuns (“um mau exemplo para as crianças”) e agressões físicas a mulheres (“nós respeitamos a Lei Maria da Penha”) como motivos para expulsão.

A cobrança de mensalidades em ocupações vem sendo investigada pelo Ministério Público, mas não é vista como um problema pela maioria dos moradores do Marrocos. “Eu moro aqui porque é mais barato do que viver na periferia e ainda estou bem no centro de São Paulo”, diz a congolesa Arlete Dianzenza, grávida de seu terceiro filho, que antes morava na Penha e pagava um aluguel de R$ 800. Ela trabalha como assistente do pastor Charles, da igreja evangélica Rehoboth, que funciona no primeiro andar da ocupação. A maioria dos fiéis é de moradores africanos, que recebem apoio da igreja para conseguir documentos, aulas de português e trabalho.

Como outras ocupações, a do Marrocos tem uma grande desvantagem em relação a qualquer moradia de baixa renda: a vida ali é sempre provisória, as pessoas podem perder seu teto a qualquer momento. A prefeitura de São Paulo já pediu diversas vezes a reintegração de posse do edifício, mas o MSTS conseguiu adiá-la. Movimento que se define como apartidário, o grupo já teve um histórico de enfrentamento com a prefeitura do PT. Mas Gomes diz que sua gestão prefere a alternativa do diálogo. Na última reunião com representantes da prefeitura, eles apresentaram um projeto de retrofit (reforma e modernização) do prédio que encomendaram a uma empresa de engenharia, avaliado em R$ 45 milhões. A proposta prevê oferecer aos associados do MSTS 247 apartamentos financiados pela Caixa Econômica Federal, com tamanho entre 23 e 28 metros quadrados e valor médio de R$ 168 mil (“bem abaixo do preço de mercado”). Já a área do antigo cinema e o primeiro andar da ocupação seriam transformados em anfiteatro e centro de exposições, a serem administrados pela municipalidade. “Não queremos ir à prefeitura levando só o problema, mas também uma solução”, afirma Gomes.

Enquanto a resolução não vem, o espaço da antiga sala de cinema permanece vazio, na maior parte do tempo. Ali são realizadas apenas as assembleias mensais do MSTS e eventos pontuais, como o Natal dos moradores. Em 2014, o MSTS recebeu no local festas alternativas como Voodoohop, Mamba Negra, Carlos Capslock e Sonido Tropico, em troca de mantimentos para os moradores.

Em maio e junho do ano passado, a sala abrigou as filmagens do documentário Cine Marrocos, dirigido por este que vos escreve e em fase de finalização. A produção do filme reativou o cinema por uma semana, com tela, projetor e cadeiras provisórias. Depois de 61 anos, foram exibidos os mesmos filmes mostrados no Festival Internacional de Cinema de 1954. Dessa vez, porém, o público era bem diferente: em vez dos ilustres convidados hollywoodianos e europeus e da aristocracia paulistana, a plateia era formada por sem-teto brasileiros, africanos e latino-americanos. Após as exibições, a produção do documentário realizou uma oficina de interpretação com 25 moradores, na qual eles refizeram, como atores, cenas daqueles clássicos do cinema. Na sequência reinventada de Crepúsculo dos deuses, uma das atrizes era Madalena Pedro Godoi, a Vozinha. Foi assim que ela tirou da lista a quinta coisa que jamais havia realizado: tornar-se uma estrela de cinema.

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