por Bruna Bittencourt

Artista oriundo do grafite e da pichação, Fabio Biofa organiza em três fotolivros os elementos esquecidos da paisagem urbana

Há três anos, enquanto seguia por seus itinerários, fosse saindo de casa ou do ateliê, rumo a lugares da cidade em que faria intervenções urbanas, em São Paulo, Fabio Biofa teve uma ideia: fotografar as referências gráficas que encontrava pelo caminho e transformar o olhar que tem da cidade em fotolivros. E assim nasceram os três volumes que formam o projeto Fragmentos. "Nesse percurso, fotografava elementos da cidade que me interessavam, como azulejos hidráulicos e pisos de rua que tinham uma simbologia", conta o autor, um artista paulistano de 35 anos que transita entre o grafite, a pichação e a pintura.

Além dos pisos e azulejos, estão nos livros registros de grafismos de calçadas, desenhos e escritos no cimento que secou, diversos tipos de grades ou carros abandonados em uma espécie de inventário do cenário urbano e um esforço de Biofa em organizar esses elementos que deixamos de reparar. "Só faço pichação em lugares que estão abandonados, por onde todo mundo passa, mas ninguém dá a mínima", explica. "É uma denúncia que faço numa tentativa de despertar a atenção de alguém, fazer com que aquilo volte a ter utilidade."

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Muitas vezes os fragmentos clicados por ele traziam alguma semelhança com suas pinturas, como os remendos de manutenção na fachada de um prédio que lembram suas interferências. "A ideia é confundir, tudo faz parte da mesma pesquisa", explica. Em outras vezes, esse trabalho o levou a criar algo novo, como as colagens feitas a partir de fragmentos de cartazes de políticos e videntes colados em postes.

Os capítulos dos livros são organizados a partir dos elementos que chamaram a atenção do artista e o trabalho que ele desenvolveu a partir deles. No entanto, ele faz questão de lembrar que nem sempre importa que ele dialogue artisticamente com o que fotografa. "Há fragmentos que para mim já são uma obra de arte", explica.

Além das cicatrizes urbanas que chamam sua atenção, para Biofa, os livros são também uma forma de preservar suas obras, por conta da efemeridade da intervenção urbana. Os três volumes trazem textos de nomes como a arquiteta Lila Dantas e o pichador Otito e ​marcam o lançamentos d​a ​Editora Muro#B. Voltada a publicações de arte urbana, a empreitada é uma parceria de Biofa com​ José Brazuna, da galeria Jacarepaguá, que já abrigou uma exposição criada a partir do material de Fragmentos.

O cinza com que a prefeitura costuma apagar trabalhos como os de Biofa é o denominador comum nas páginas da publicação. "Minhas criações sempre foram muito coloridas, mas há cinco anos decidi aproveitar o cinza e consegui criar outros tons da cor com o preto e o branco."

Créditos

Imagem principal: Biofa

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