por Douglas Vieira
Trip #268

Sem plena consciência do preconceito que enfrentava, Alice Celidônio pegou a faca e se tornou uma das poucas mulheres no comando de um balcão de sushi

Alice Celidônio tem 28 anos e, desde janeiro, é ela quem comanda o balcão de sushis do restaurante UN, no Jardim Paulista, bairro nobre de São Paulo. Não só isso. Ela é a única mulher de que se tem notícia nessa função na capital paulista. Pelo Brasil todo, o número não deve completar uma mão. Se são muitos os lugares em que o machismo se manifesta, o balcão de sushis dos restaurantes japoneses é dos que permanecem mais fechados ainda em 2017, a começar pelo nome da função: sushiman, de homem-sushi. Alice, inclusive, usa o termo sushichef – “Prefiro falar assim, tirar um pouco o gênero”.

A falácia secular diz que as mãos das mulheres seriam mais quentes que as dos homens e, assim, poderiam estragar o peixe fresco ou esquentar demais o arroz. Porém, engana-se quem acha que foi na ponta da faca que Alice fez isso mudar. Muito tranquila, sua voz raramente se altera e jamais perde o acento ainda bem jovem – o que de fato é. Descontraída, logo ao se apresentar, ainda na porta do restaurante, mostrou as mãos. “Como pés de bailarina”, brincou sobre as inevitáveis cicatrizes decorrentes das facas, que contrastam com os cortes marcados pela delicadeza da cozinha fria japonesa.

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Sobre as barreiras da sociedade, Alice prefere não falar muito – “não gosto de dar muito ibope pra preconceito” –, mas admite que em alguns momentos teve que lidar com “desconfianças”. “Não verbalmente, mas você sente. Mas eu sou muito positiva e sortuda ao mesmo tempo, porque sempre tive pessoas ao meu lado, companheiros de trabalho, que me apoiaram pela profissional que eu era”, explica. Para ela, o fato de não saber, no começo, que esse preconceito existia, lhe ajudou. “Se tivesse a cabeça que tenho hoje, eu seria mais travada para entrar nessa profissão, porque não pensava que ia ser um desafio eu ser uma mulher atrás do sushibar”, lembra.

Alice não é daquelas pessoas que sonhavam com a cozinha desde jovem. Em casa, sequer cozinhava. A aproximação com o mundo da gastronomia se deu em seu primeiro emprego: como garçonete no restaurante Miyoshi, em Florianópolis – apenas uma fonte de renda para a garota de 17 anos, que também ajudava no caixa e na porta. Um ano depois, porém, havia despertado nela o interesse pela cozinha e a vontade de migrar para o sushibar, pedido aceito pelos donos do restaurante, que começaram a treiná-la para a nova função. “Foram sete dias só afiando faca, descascando legumes, pra pegar a mão de mexer com faca, com alimento, coisa que eu não tinha. Foi desde o começo mesmo”, conta.

Afiada

Assim que deixou o Miyoshi, onde ficou cerca de três anos, trabalhou em um restaurante japonês em Joinville, também em Santa Catarina. As duas experiências fizeram Alice ter certeza do que queria e, quando concluiu um intercâmbio na África do Sul para estudar inglês, voltou ao Brasil, mas não para seu estado natal. “Já estava com isso na cabeça de vir para São Paulo. Queria trabalhar com gastronomia, me especializar nessa profissão, que é bem detalhista, e ter um público mais exigente”, diz Alice.

Desembarcou em São Paulo para trabalhar no Dô, em Pinheiros, onde permaneceu por quatro anos, até mudar em 2015 para o UN. Desde os 17 anos, muita coisa mudou e, se no começo ela não pensava no preconceito, hoje ela ajuda a derrubá-lo com o seu trabalho – e abre espaço para outras mulheres, como Thaís, que a auxilia no sushibar. Só uma coisa não muda: o foco. Para Alice, o principal é estar atenta ao próprio desenvolvimento, meio pelo qual sempre conseguiu se afirmar. Estudar é palavra que se repete o tempo todo. “Sou muito curiosa, gosto de estar sempre aprendendo coisas, me mexendo, me desenvolvendo.”

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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