por Marcos Candido

Em uma definição rápida, o K-pop é a música pop da Coréia do Sul, dançante e com forte apelo visual. Mas para os fãs do gênero, trata-se de um estilo de vida

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O grupo sul-coreano BTS (Bangtan Boys) esgotou, em poucas horas, todos os 14 mil ingressos à venda para os dois dias de apresentação em São Paulo, nos dias 19 e 20 de março. O show duraria pouco mais de uma hora, mas os ocupantes da fila estavam em frenesi há meses. "Eu vim do Amapá", explicou uma garota de 17 anos que acampava na fila da apresentação há três dias. "E minhas amigas vieram do Pará e Manaus. Estamos formando uma comunidade k-pop lá no Norte do país". Mais fãs disseram que se organizam no Espírito Santo, Nordeste e estados da região Sul para propagar a música pop coreana. É assim há cerca de três anos, quando o k-pop explodiu por definitivo no Brasil e no mundo. Milhares de adolescentes ajudam a movimentar os bilhões de dólares que a indústria cultural coreana investe no gênero musical.

Enquanto o vizinho de cima apela para bombas nucleares para receber atenção mundial, empresários asiáticos criam ídolos que requebram, cantam e fazem mais adeptos que o regime comunista. Conjuntos como BTS e Exo fazem turnês mundiais, estampam linhas de cosméticos, campanhas publicitárias, aparecem em calendários, assinam linhas de roupa, viram bonecos, leques, lanternas, chaveiros, lançam inúmeros álbuns de fotografia e milhões de visualizações no YouTube. 

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Por trás do k-pop de poderio mundial, há as mais altas cúpulas do governo - o produtor musical de k-pop, Cha Eun-taek, foi acusado de influenciar a presidente impichada e presa, Park Geun-hye, para obter benefícios no setor cultural - e até nomes como Jackie Chan, padrinho no quarteto JJCC.

Há investimentos privados para criar grupos de k-pop na Tailândia (T-pop), Vietnã (V-Pop) e até para o vizinho rico, o Japão (J-Pop). A grana pode até comprar e conquistar influência nos altos escalões do país, mas o k-pop só pôde se espalhar a nível internacional com uma receita rigorosa para construir um artista de sucesso.

“Era uma ‘escravização’, como a gente brincava, mas eu queria muito estar lá”
Iago Aleixo

O youtuber Iago Aleixo ensaiava 16 horas por dia, de segunda a segunda, e teve que deletar o histórico nas redes sociais e cortar os longos cabelos louros. Não pôde se dar ao luxo nem de cultivar a barba rala pós-puberdade ou usar óculos de grau em aparições públicas. As privações tinham um objetivo: se tornar um ídolo k-pop brasileiro (B-pop). "Era uma ‘escravização’, como a gente brincava, mas eu queria muito estar lá", conta. Por cerca de três anos, Iago foi membro da Champs, grupo criado por produtores sul-coreanos interessados em copiar a experiência k-pop no Brasil. Para bombar nas paradas, JS Entertainment apostou no rígido método coreano de sucesso (a Trip foi atrás, mas não encontrou os antigos responsáveis pela empresa). 

Como lá, o candidato a k-idol brasileiro passou por auditorias até alcançar a "fase de treinamento", que pode durar de 2 a 5 anos. Neste estágio, a vida é resumida a longas jornadas de coreografias, canto, aulas de inglês e a construção de uma identidade. Cada candidato pode ser designado a se tornar o "bad-boy" (inspirado em rappers norte-americanos), o capitão ou líder (que inspira o time e é visto como peça central para o conjunto), o fofo, o encarregado de falar em entrevistas, entre outros.

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Caso algum ídolo esteja em baixa com a venda de produtos ou apoio nas redes sociais, o seu 'jeitinho de ser' muda para um tipo mais retraído, ou até mais ousado. É quase essencial que, durante todo esse processo, o candidato esteja em dia com a aparência. "Para o coreano, estética é muito importante", explica Thais Midori, youtuber especializada em cultura sul-coreana. Quando esteve lá para um intercâmbio, Midori diz ter visto a famosa cirurgia de ocidentalização (também feita no Brasil), na qual asiáticos retiram parte da gordura da pálpebra superior, alargando os olhos e se tornando a aparência mais "palpável" para o Ocidente. "Lá, eles dão essa cirurgia para garotas e garotos até como presente de formatura", revela.

A experiência B-Pop não deu certo. "Ninguém quis saber de comprar nada nosso. Só viam no YouTube e isso não gerava a grana esperada", explica Iago, um dos cinco membros da Champs. Após o término da banda, ele diz ter atingindo uma autenticidade libertadora. "Fiz um resgate em mim mesmo, para redefinir quem eu era e o que eu gostaria de fazer e ser".

Outras opressões típicas da sociedade coreana também se refletem, à máxima potência, por meio dos k-idols. Recentemente, o grupo Exid, formado por mulheres, teve apresentações censuradas na TV por serem "sensuais demais".

“K-pop, para mim, é mais que um estilo musical. É um estilo de vida”
Thais Midori

Além disso, a vida de um k-idol deve ser casta, ou muito bem regrada. Namoros demais geram uma imagem ruim, e orientações sexuais fora da heterossexualidade costumam ser suprimidas.  "Não dá para dizer que a Coreia do Sul não é um país ainda machista, porque ainda é", analisa Iago. "Mas, ao mesmo tempo, eles estão se expandindo para o mundo, há influência de fora entrando na sociedade". Duos como Akmu, chamado de "feios" na internet, usam suas letras para questionar o status-quo das fileiras do k-pop. Na letra Play Ugly, a dupla diz se orgulhar de como são (“Você pode dizer que sou feio/Mas eu nem me machuco").

Embora as maquinações típicas do gênero pop se façam presente, ainda é por meio do k-pop que adolescentes, que conhecem o movimento na solidão do YouTube, se sintam como parte de uma comunidade. "Nos sentimos uma família. No dia-a-dia, quando falamos para nossos pais ou colegas, eles não se interessam", explica Midori. "Mas quando saímos por aí e encontramos pessoas que gostam da mesma coisa que você na vida real, é muito divertido."

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