por Maria Berenice Dias

Ícone na luta pelos direitos das mulheres, Maria Berenice garante: a violência deixa marcas para além da carne.

Silêncio e indiferença. Reclamações, reprimendas e reprovações. Castigos e punições. É assim que começa a violência psicológica, que não demora a se transformar em violência física. Aos gritos seguem-se empurrões, tapas, socos, pontapés, num crescer sem fim. As agressões não se cingem à pessoa da vítima. O varão destrói os objetos de estimação da mulher, a humilha diante dos filhos. Sabe que esses são os seus bens mais preciosos e ele ameaça maltratá-los.

Em um primeiro momento, a vítima encontra explicações e justificativas para o comportamento do parceiro. Acredita que é uma fase que vai passar, que ele anda estressado, trabalhando muito ou com pouco dinheiro. Procura agradá-lo, ser mais compreensiva, boa parceira. Para evitar problemas, afasta-se dos amigos, submete-se à vontade do agressor. Vive constantemente assustada, pois não sabe quando será a próxima explosão, e tenta não fazer nada de errado. Torna-se insegura e, para não incomodar o companheiro, começa a perguntar a ele o quê e como fazer, tornando-se sua dependente. Anula a si própria, seus desejos, seus sonhos de realização pessoal e seus objetivos de vida.

O homem não odeia a mulher, odeia a si mesmo. Quer submetê-la à sua vontade. Assim, busca destruir sua autoestima. Críticas constantes levam-na a acreditar que tudo o que faz é errado, nada entende, não sabe se vestir nem se comportar socialmente. É induzida a acreditar que não tem capacidade para administrar a casa nem cuidar dos filhos. A alegação de que ela não tem bom desempenho sexual resulta no afastamento da intimidade, surgindo a ameaça de abandono.

Para dominar a vítima, o varão procura isolá-la do mundo exterior. Afasta-a da família. Proíbe amizades, a ridiculariza perante os amigos. Muitas vezes, a impede de trabalhar, sob a justificativa de ter ele condições de manter a família sozinho. Com isso, a mulher se distancia das pessoas junto às quais teria como buscar apoio. Perde a possibilidade de contato com quem poderia incentivá-la a romper a escalada da violência.

Nesse momento, a mulher vira um alvo fácil. A angústia passa a ser seu cotidiano. Questiona o que fez de errado, sem se dar conta de que para o agressor não existe nada certo. Não há como satisfazer o que nada mais é do que desejo de dominação, de mando, fruto de um comportamento controlador.

Ele sempre atribui a ela a culpa. Tenta justificar seu descontrole na conduta da mulher. Alega que foi a vítima quem começou, não faz nada correto, não o obedece. Ela acaba reconhecendo que, em parte, a culpa é sua. Assim o perdoa. Para evitar nova agressão, recua, deixando mais espaço para a violência. O medo da solidão a faz dependente, sua segurança resta abalada. Não resiste à manipulação e se torna prisioneira da vontade do homem.

Depois de um episódio de violência, vem o arrependimento, pedidos de perdão, choro, flores, promessas etc. Cenas de ciúmes são justificadas como prova de amor, o que deixa a vítima lisonjeada. O clima familiar melhora e o casal vive uma nova lua de mel. Ela sente-se protegida, amada, querida, e acredita que ele vai mudar.

A ferida sara, os ossos quebrados se recuperam, o sangue seca, mas a perda da autoestima, o sentimento de menos-valia, a depressão, essas são feridas que jamais cicatrizam.

Tudo fica bem até a próxima cobrança, ameaça, grito, tapa...

 

Maria Berenice Dias foi homenageada no Trip Transformadores 2014. Assista aqui a sua história. 
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