por Nina Lemos
Tpm #111

Historiadora debate Barbie, aborto, erotismo e os mitos que a mulher leva para a cama

A historiadora Mary del Priore coloca a sexualidade brasileira no alto na lista dos livros mais vendidos, com seu Histórias Íntimas. Da Barbie ao aborto, do machismo ao erotismo, ela desmonta os mitos e as contradições que a mulher leva para a cama: “Fora de casa, as mulheres são independentes. Em casa, querem ser princesas. Um grande paradoxo” 

A historiadora Mary Del Priore, 59 anos, odeia a boneca Barbie. Explica-se. Segundo ela, foi com a chegada da boneca da Mattel ao Brasil, nos anos 70, que a mulher brasileira começou a ficar obcecada em ser loira, magra, consumista. “A Barbie ensina as crianças a serem putas”, diz essa senhora distinta, autora de 29 livros, o mais recente deles, Histórias Íntimas, um panorama sobre o erotismo e a intimidade no Brasil.

Mary é uma especialista em história brasileira com todas as credenciais de intelectual de sucesso. Foi professora na USP e fez doutorado na França. Mas ela gosta mesmo é de contar histórias, 
seja em romances ou em livros como Corpo a Corpo com a Mulher ou História do Amor no Brasil, ambos com mais de 40 mil exemplares vendidos. Sim, Mary é uma escritora de best-seller (o seu mais recente livro ocupava até o fechamento da edição o primeiro lugar na lista dos mais vendidos de não ficção) que não se considera intelectual, “mas uma boa pesquisadora”.

Mãe de três filhos (Pedro, 36 anos, Paulo, 34 e Isabel, 31) ela pertence a uma geração que quebrou tabus, porém também não dramatiza suas experiências. Está no segundo casamento, não teve crise ao criar os filhos ao mesmo tempo em que se dedicava a uma carreira intelectual e envelhece com tranquilidade. Questiona a obsessão pelo corpo, mas se apresenta na entrevista maquiada e elegantemente vestida.

O que preocupa mesmo essa moça distinta são as mulheres da geração dos 20, 30 anos. “A geração dos meus filhos quer fazer tudo ao mesmo tempo, o que é uma situação dramática”, ela avisa. E também acha que, por mais que as mulheres sejam independentes, sofrem de uma submissão grave: se não a homem nenhum, ao espelho. 

“Isso é reflexo de um narcisismo muito grave. Antes, queríamos mudar o mundo. Hoje, sentimos falta de um engajamento em causas sociais, dos outros”, diz. Não, não pense que ela está falando que se você reciclar o seu lixo vai ser mais feliz. “Hoje se pensa muito ‘se eu fizer a minha parte, já está bom’. É triste, pois a pessoa continua isolada, achando que não precisa trabalhar coletivamente”, afirma.

Funk e sex shop

As palavras polêmicas saem com serenidade da boca dessa filha da elite carioca (estudou no tradicional colégio Sion). Na entrevista a seguir, ela questiona o funk brasileiro: “Acho a Tati Quebra-Barraco uma machista”. E também a internet. “Tem coisas maravilhosas, mas exibe a sexualidade de forma mecânica e ginecológica.” E acha que as pessoas não fazem tanto sexo, apesar da moda das sex shops e do excesso de exposição de nossas intimidades. “Quem tem tempo para ter amante com o trânsito de São Paulo?”, brinca.

Enquanto serve café e bolo para a repórter na casa do século retrasado que escolheu para viver, em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, Mary, mulher sofisticada, fala da abertura dos primeiros bordéis no Brasil, de aborto, plástica, do papel do homem... A vontade é de não parar de conversar com essa contadora de histórias.

Tpm. Você é de uma geração que quebrou tabus, queimou sutiãs. Qual acha que é a diferença entre sua geração de mulheres e a das que têm 20, 30 anos hoje?

Mary Del Priore. Acho que vocês têm uma vida extremamente sacrificada. Sempre reparo nisso quando pego a ponte aérea. Vejo mulheres absolutamente estressadas, ao mesmo tempo ligando para saber dos filhos e tendo que dar conta de muita pressão no trabalho. Essa geração de mulheres está ocupando postos em todas as áreas. Houve um avanço enorme. Nós fizemos um esforço para que nossas filhas se educassem e isso deu certo. Mas agora vocês estão no topo, estão no limite. Ter que dar conta da vida profissional e da vida privada é dramático. O desafio que chegou no fim do século passado é este: como ser a melhor esposa, a melhor profissional, a mais bonita, a mais inteligente. Isso me preocupa muito. Não sei o que vocês vão priorizar, se os afetos vão ficar comprometidos, se a saúde vai ficar comprometida...

Você acha que para a sua geração essas escolhas eram mais fáceis?

Na minha geração era mais simples. A família vinha em primeiro lugar. Você casava, tinha filhos. Só fui ver que existia a solidão como opção criativa quando fui morar na França nos anos 80. Isso era uma escolha de muitas mulheres de lá. Você deixar de lado o marido, os filhos, para cumprir os compromissos profissionais e intelectuais era a agenda. Não sei se isso é uma coisa de países com mais educação, onde você pode escolher os seus afetos, não é obrigada a casar. Ninguém é obrigada a casar lá. Isso está chegando agora ao Brasil, mas às custas de muitos sacrifícios.

Você é mãe de três filhos, foi professora universitária e já lançou 29 livros. Teve que fazer muitos sacrifícios para dar conta de tudo?

Não tive que fazer muitos sacrifícios. Sou um exemplo à parte. Me casei cedo e tive três filhos. Mas só depois que eles estavam crescidos voltei a estudar. E sabia exatamente o que queria fazer na universidade: história. Fiz um concurso de pós-graduação na USP e passei em primeiro lugar. Tive muita sorte. Não fiquei patinando, pensando no que queria fazer. E voltei a estudar quando meus filhos também já estavam na escola. Então, não me sentia culpada como as mulheres de hoje se sentem. Antes de voltar a estudar, eu era casada com um homem que estava indo muito bem na carreira dele, era a housewife perfeita! Mas voltei a estudar por vontade e isso não foi uma crise para mim. E tinha ajuda com os meus filhos, deu para conjugar tudo sem culpa. Eles iam para a escola, eu para a universidade.

E seu marido, seus pais, a incentivaram ou acharam que você ia abandonar a família?

Sempre tive muito apoio dos meus dois maridos para estudar. E, quando os meus filhos foram para a universidade, pude me dedicar só ao trabalho. E fui criada em um ambiente intelectual. Meus pais gostavam de juntar gente em casa, de políticos, como Carlos Lacerda, a poetas, como Olegário Mariano. Eu e meu irmão ficávamos no meio disso tudo, convivendo com os adultos. E sempre fui estimulada a ler, o que foi fundamental quando decidi que ia viver de escrever livros.

E, quando você foi morar fora para estudar, não teve que abrir mão do contato com seus filhos?

Eu estava recém-casada com meu segundo marido e de novo tive sorte. Era professora da USP e ele tinha negócios fora. Meus filhos foram comigo e tiveram a chance de passar esse tempo fora, o que acho que deu a eles uma visão de mundo diferente. Acho que a viagem não é só trocar de espaço físico. Isso te ajuda a avaliar a sua condição de brasileiro. Passei cerca de cinco anos fora. O que foi bom para que todos nós avaliássemos o que queríamos fazer. Foi quando me dei conta de que havia espaço para escrever esses livros que escrevo hoje.

Hoje temos esse sucesso de livros históricos, como o 1808, de Laurentino Gomes. Por que você acha que estamos com esse interesse pela história?

Na Europa existe uma tradição de romances históricos desde o século 19. Aqui, tivemos uma população basicamente analfabeta até o século 19. E hoje, com esse mercado de leitores se ampliando, o interesse pela história aumentou. Acho que um dos motivos é que, nesse período de globalização, todo mundo quer saber de onde veio. Senão, fica todo mundo perdido.

Por que resolveu direcionar seu trabalho a questões femininas?

Meu trabalho não é só sobre mulheres. Acabei escrevendo muito sobre corpo, amor. Mas escrevi 29 livros. Tenho uma coluna no Estado de S. Paulo e sou dessa geração que promoveu mudanças, isso me deu esse radar. Mas tenho interesse em fazer história romanceada. Sobre grandes personagens, como a condessa de Barral, a amante de dom Pedro II. Agora, resolvi, em Histórias Íntimas, falar sobre os temas que estão na ordem do dia, como racismo, homofobia. São as coisas que estão aí. E sobre os mitos do erotismo brasileiro.

“As mulheres brasileiras são extremamente machistas. São independentes, mas quando chegam em casa querem ser tratadas como princesas. Esse é um grande paradoxo”

Um desses mitos é que as mulheres brasileiras são “calientes”. Você concorda com isso?

Acho que o grande problema das mulheres brasileiras é que elas são extremamente machistas. Não deixam os filhos lavarem a louça e querem ser chamadas de docinho em casa. E se identificam com as mulheres frutas, comestíveis. Fora de casa, são independentes. Quando chegam em casa, querem ser tratadas como princesas. Esse é um grande paradoxo. Elas casam para entrar em um conto de fadas.

E o que os homens buscam no casamento?

Homens e mulheres têm aspirações diversas em relação ao casamento. As mulheres querem que o casamento seja tudo, que preencha todas as coisas. O homem, quando casa, quer uma família, filhos. Eles procuram coisas realmente diferentes. Então, fica difícil dar certo.

Hoje, muitas mulheres são executivas, políticas. Existe o mito de que entrando pesado no mercado de trabalho a mulher tende a se masculinizar e a imitar o homem. Você concorda com isso?

Não concordo. Acho que a mulher brasileira sempre vai usar da sedução, por isso não vai virar um homem de saias. Temos esse exemplo histórico. No Brasil, desde os tempos coloniais, as mulheres sempre usaram do seu poder de sedução para ter poder. Elas são muito femininas. E ainda existe muito no Brasil mulheres que ganham dinheiro com o corpo. Todas querem ser modelo. Isso é característica de um país que ainda é muito miserável. O sonho é ser BBB, depois posar para a Playboy, ou seja, enriquecer vendendo o corpo. Isso vai mudar quando o país tiver mais educação.

Outra coisa que acontece no Brasil é que a mulher, quando envelhece, é chamada de feia. Já o homem fica charmoso. Como você e as mulheres da sua geração estão lidando com o envelhecimento?

A minha geração está podendo lidar melhor com o envelhecimento. Sabemos que ir ao cirurgião plástico uma vez por mês não vai resolver o problema de ninguém. Envelhecer é uma coisa chata. Você tem perdas. Se você era uma fundista, vai ter problema de joelho. Não é agradável. Agora, vejo que as mulheres da minha idade que estudaram não saem correndo para o cirurgião plástico com a primeira ruga que aparece. O bom de envelhecer é colocar as coisas na balança, ver o que você ainda quer fazer. Se você tem satisfação com a sua família, com o seu trabalho, seus amigos, você vai encarar o envelhecimento com serenidade. Para mim, isso não é um bicho de sete cabeças.

“A mulher está preocupada em emagrecer, ser gostosa e não pensa no coletivo. Isso precisa mudar até para que ela possa deixar de ser escrava do espelho”

Mas muitas mulheres enlouquecem com as perdas físicas, a perda da beleza.

No passado, a velhice era respeitada, era sinal de sabedoria. Mas o século 20 é o século do corpo. E o que você vê hoje no Brasil é que as mulheres são escravas do espelho. A brasileira ainda está muito preocupada com seu próprio umbigo. Ela está preocupada em emagrecer, ser gostosa e não pensa no coletivo. Isso precisa mudar até para que a mulher possa deixar de ser escrava do espelho. E isso você vai conseguir pensando na sua sociedade, se engajando em alguma causa coletiva. E o que acontece hoje é que muitos pensam: “Se eu fizer a minha parte, já está bom”. Você recicla o seu lixo e acha que já fez a sua parte. E continua isolada dos outros achando que não precisa trabalhar coletivamente. Tudo isso faz parte de pensar só em si mesma, não sair de si, ser muito narcisista.

O Brasil é o segundo país em cirurgias plásticas no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Ainda copiamos muito o modelo americano?

Começamos a copiar os Estados Unidos depois da Segunda Guerra. Antes era a Europa, só se falava francês nas escolas, esse era o modelo. A elite brasileira começou a ir para os Estados Unidos estudar nos anos 50. E, claro, temos a influência do cinema americano. A formação do macho brasileiro está muito ligada ao cinema americano. A importância do físico masculino vem dos filmes. Antes, os homens não tinham vaidade. A obsessão pela virilidade, essa coisa de colocar o pau na mesa, foi alimentada pelo filme americano, pelos faroestes.

A imagem da mulher também deve ter sido influenciada pelos filmes...

As primeiras loiras vieram do cinema americano. Para você ver, a moda da loira chegou ao Brasil no fim do século 19 com os bordéis, que são uma ideia importada da Europa. Cafetões começaram a trazer para o Brasil mulheres pobres que se diziam loiras. E é nessa mesma época que as bonecas francesas chegaram ao Brasil. Olha que loucura!

E hoje temos essa febre de loiras.

Isso começou nos anos 70, com a chegada da Barbie ao Brasil. É aí que começa o ideário do personal trainer, do fitness. E na mesma época começam as apresentadoras loiras na TV brasileira. Acho isso uma perversão! Em um país mestiço você brincar com boneca loira e ter como ídola uma apresentadora loira cria uma problema de autoestima muito sério nas crianças.

Você disse em um dos seus livros que isso tem a ver com a obsessão das brasileiras pelas cirurgias plásticas. No Brasil a cirurgia plástica é uma coisa complicada. A mulher toma como parâmetro a Barbie, sendo o país esse caldeirão mestiço de negro, branco, índio. Então, como a mulher vai conseguir ser a Barbie? Não vai. Não é à toa que o Brasil é o segundo país em cirurgia plástica no mundo. A Barbie é uma boneca que ensina a menina a ser puta. E só isso. Ela só quer saber de roupa, nem liga para o Ken. Ela só ensina a consumir. As bonecas bebês, por exemplo, ensinavam a ser mãe. A Barbie ensina a consumir, e as garotas adoram. E não sei quando o reinado da Barbie vai acabar. Tinha jurado que jamais daria uma Barbie para minha neta. O que você acha que aconteceu? Já dei [risos].

Por que, afinal, você deu?

Porque não resisti. As meninas não resistem nem uma avó. Elas ficam loucas pela boneca. Não sei porque as meninas adoram aquela coisa toda rosa.

Além das cirurgias plásticas, hoje existe também a obsessão pela magreza.

Até os anos 80, para o homem, a mulher gostosa era aquela que enchia uma cama, a mulher com forma. Em um dos meus livros, entrevistei uma psicanalista que me disse que, quando as mulheres fazem plástica, isso não é para os homens, mas para elas. Dizem que a mulher sempre quer ser bonita para o homem. Mas acho que no fundo não é isso, é para ela mesma.

“A Barbie é uma boneca que ensina a menina a ser puta. Ela só quer saber de roupa, nem liga para o Ken. Ela só ensina a consumir. E não sei quando o reinado da Barbie vai acabar”

A plástica seria uma maneira de melhorar a autoestima?

Autoestima é uma palavra nova, ela deve estar no vocabulário há dez anos. As palavras vão acompanhando a história. Hoje, é importante a mulher ter autoestima, é uma coisa que ajuda a caminhar, mas não pode ser só isso. Ela também precisa interagir com os outros, participar da sociedade.

Você disse que as mulheres de 30, 40 anos estão sobrecarregadas porque têm que dar conta de muita coisa. Essa pressão atinge os homens também?

O patriarcado não atrapalha só as mulheres. E não vamos ficar com essa de que o homem é um vilão. Ele também está sendo cobrado demais. Além de trabalhar muito, tem a pressão de ser bom pai. E precisa fazer sucesso, senão ele é um “loser”.

E os homens não teriam também a pressão de ser cheios de aventuras sexuais, com amantes, por exemplo?

Acho que não, porque as pessoas não têm mais tempo. Nos anos 50, os homens tinham garçonnières, onde ficavam com suas amantes, que em geral eram pessoas do seu círculo de amizade. Isso é uma coisa engraçada da sociedade brasileira, as pessoas ficavam com amigas da família, parentes, para deixar tudo em casa. Isso não existe mais. Com o trânsito de São Paulo, quem vai conseguir ter uma garçonnière e a família? E uma coisa boa é que o divórcio, recentemente, foi legitimado, e as pessoas acabaram com uma ideia que existia na minha geração, de que o casamento tinha que ser uma fusão absoluta. Não, em um casamento você não vira um. Continuam 
sendo duas pessoas. E, se não der certo, você pode se divorciar. Isso é uma conquista recente. Quando era criança, no colégio Sion, se a pessoa era filha de pais separados, era expulsa. Hoje, as pessoas podem reconstruir seus laços. Ou até ficar sozinha.

Hoje, além de ter filhos e ser boa profissional, ainda temos que ser liberadas sexualmente. Você não acha que até isso pode ser uma pressão a mais?

Sim, com certeza. Você tem que ter feito de tudo, o que está bem fora da realidade. As pessoas nem têm tempo para ter essa vida sexual tão animada. Hoje tem, por exemplo, as sex shops, mas acho que isso serve mais para jornalistas fazerem matérias [risos]. Eu, sinceramente, não conheço mulheres que passem toda semana em uma sex shop para saber “o que chegou de novidade”. Acho que ninguém quer saber qual é o último berro em consolo [risos].

Por outro lado, antes não podíamos nem falar de sexo...

Sim, as coisas mudaram muito rápido e tivemos ganhos incríveis. Para você ter uma ideia, os primeiros manuais de educação sexual eram feitos para homens. E falavam mal do homossexualismo e da masturbação. Os primeiros dirigidos para as mulheres só tinham umas 15 páginas, em que, claro, explicavam que as mulheres precisavam se preparar para o rito eterno. E só eram indicados para mulheres com mais de 18 anos, que estivessem comprometidas. Isso foi na época da ditadura do Getúlio Vargas, nos anos 40. Então, não faz tanto tempo assim.

Hoje as mulheres podem, por exemplo, falar de sexo em músicas de funk. O que você acha desse funk com forte apelo sexual?

Acho que o funk produziu um machismo de saias. Quando a Tati Quebra- Barraco fala “eu te pago e te levo para o motel”, ela vira uma mulher com um rolo de macarrão na mão, machista, que manda nos homens. Sabe aquele homem que tem o dinheiro e por isso acha que pode mandar na mulher e fazer dela o que quiser? Essa é a imagem que o funk da Tati Quebra-Barraco passa para mim. Fora isso, acho que o funk tem um apelo sexual muito forte, que banaliza.

Como o aborto esteve presente no país historicamente? Você é a favor da legalização?

O aborto existe desde sempre no Brasil. Existiam chás entre os indígenas e também o infanticídio. Isso é um tema que as pessoas evitam falar. Mas sempre existiu uma falta de sensibilidade muito grande. Mães pobres sempre usaram o infanticídio e o aborto. E o que acontece? Quem aborta em geral é a mãe pobre, que está desesperada, que não pode criar mais um filho. De maneira que é preciso pensar em uma forma de legalizar o aborto no Brasil para que tantas mortes de adolescentes, por exemplo, parem de acontecer.

Existe o mito de que o Brasil é um país tolerante, onde as minorias se respeitam. Acredita nisso?

Racismo só “acabou” no Brasil quando houve uma lei. Precisou de uma lei para mudar. Isso não é coisa de um país tolerante! Temos a história da escravidão, que também tem muita coisa que os outros não sabem. Não eram só os brancos que eram escravocratas. Um escravo, quando ganhava algum dinheiro e conseguia comprar a sua alforria, a primeira coisa que fazia era ter seus escravos. O racismo não é só uma questão de pele. É uma coisa que está entranhada na história brasileira. É bom não perder de vista a tensão entre os grupos.

“As pessoas não têm tempo para uma vida sexual tão animada. Não conheço mulheres que passem toda semana na sex shop para saber qual é o último berro em consolo [risos]”

Você acha que a pressão para que as mulheres casem e tenham filhos para serem aceitas na sociedade diminuiu?

Acho que as pessoas estão começando a achar que a solidão não é uma maldição. O “ficou para titia” está começando a diminuir. Existem novos modelos familiares. Um deles é a família em que a mãe é separada do pai, a criança tem um padrasto, meios-irmãos etc. E outro, que começa a ser estudado pelos sociólogos, é de pessoas que não casam mesmo. Preferem escolher os seus afetos entre amigos e nas relações amorosas que têm ao longo da vida. E o mais interessante é que isso está ligado a uma escolha pela liberdade.

Como a internet influencia no erotismo hoje em dia?

Na internet é tudo muito ginecológico. No século 19, o erotismo era imaginar a nudez, as mulheres eram todas cobertas, então o bacana era isso. E não à toa o fetiche era com os pés, com as mãos, partes todas cobertas. O que vira o erotismo na época da internet? Sendo de uma forma tão ginecológica, não sei como as novas gerações vão trabalhar o erotismo. Não sei com o que os adolescentes sonham quando vão para a cama. O que sabemos por estudo é que a internet disponibiliza imagens em que o sexo é muito mecânico, uma coisa estilo academia de ginástica. E muitos jovens veem o sexo assim pela primeira vez e passam a achar que é tudo mecânico. No que isso vai dar, sinceramente, não sei. Não tenho 14, 15 anos para saber.

Você morou em São Paulo, em Paris, e agora mora no campo. Por que fez essa opção?

Meu marido viaja muito, ele tem escritório na Suíça. Morei na França, estudei em São Paulo, mas decidi que não queria ficar fora do Brasil, longe dos meus filhos e das minhas duas netinhas. Essa é uma casa de família. Na verdade, não é só uma casa, é um espaço de memória. Estou aqui há dez anos e não tenho saudades da cidade. Vou a São Paulo todos os meses visitar meus filhos, que estão todos muito bem encaminhados. Um tem uma agência de publicidade, outro está no mercado financeiro e minha filha é diretora de marketing de uma empresa. Acho que essa coisa de fugir da cidade é muito boa. Recomendo. Ainda mais com as redes sociais. Aqui tenho espaço para escrever, refletir, mas também não perco o que está acontecendo no mundo.

Então você não tem problemas com a solidão?

Adoro ficar sozinha. Tenho o meu jardim. Gosto dessa vida tranquila, de acordar com o galo cantando. E recebemos amigos no fim de semana, meus filhos vêm me visitar. E aqui a gente conhece todo mundo, é uma relação mais íntima com as pessoas. Sou uma grande entusiasta da cidade pequena. E acho que isso pode ser uma saída para a geração de vocês.

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