por Renata Corrêa

A série de Lena Dunham nunca foi sobre conforto, mas sobre o desconforto de estar na própria pele

Quando Girls estreou em meados de 2012 com Hannah Horvatt tendo a sua mesada cortada pelos pais, imaginei que seria mais uma vez aquele tipo de narrativa estilo Uma secretária de futuro, em que a mocinha pega a cidade grande pelos chifres e consegue um final redentor, com os detratores sob seus pés e sua capacidade de escrita finalmente reconhecida. Ou ao menos era o tipo de narrativa que eu esperava ver, que me proporcionasse algum tipo de conforto, digamos assim. Eu mesma era uma jovem que escrevia e estava há alguns anos em São Paulo tentando fazer algo mais significativo do que eu vinha fazendo até então.

Mas acontece que Girls nunca foi sobre conforto, mas sobre o desconforto de estar na própria pele. Ao longo de seis temporadas, de forma muitas vezes brilhante, e outras nem tanto, a série debateu questões profundas e particulares de um período da vida dificilmente retratado com fidelidade ou sucesso pela dramaturgia. O período no qual o mundo exige que nós, pessoas de classe média bem-educadas, sejamos enfim adultos, quando na verdade ainda nem sabemos programar o ciclo correto da máquina de lavar.

Nos anos anteriores as narrativas adolescentes bombavam fortemente. Em certa medida, uma série adolescente é praticamente um gênero em si que nos dá todos os elementos que precisam ser dramatizáveis – o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro baseado, o conflito com a autoridade, a busca pela identidade. O quão difícil seria falar sobre o período da vida em que você já beijou centenas de pessoas, transou com umas dezenas, fumou uma quantidade razoável de baseados e nada parece ser uma novidade? Afinal, estamos falando da melhor fase da sua vida. Nada de ruim pode acontecer quando se é jovem, é bonito e tem talento para transformar seus sonhos em realidade.

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Moça bem-nascida, filha de artistas e intelectuais, Lena Dunham optou por construir a sua história longe do clichê das mulheres poderosas que a tudo enfrentam e saem triunfantes no final. A cada episódio de Girls, eu lembrava da famosa frase do Beckett “Tentar de novo, falhar de novo, falhar melhor”. E como as moças de Lena falhavam.

Nessas seis temporadas, Shoshanna, Jessa, Marnie e Hannah enfrentaram grandes temas contemporâneos, mas sem sacralizar nenhum deles. É como se todas elas tivessem um grande foda-se colado na testa ao passar por relacionamentos ruins e abusivos, ao tomarem rasteiras no trabalho, ao apostarem tudo em um projeto errado, ao perderem o amor. Merdas acontecem e cada pequena merda é… não, não é uma lição, é apenas mais uma pequena merda, da coleção de merdas que elas acumulam.

E dá-lhe críticos e jornalistas – geralmente homens e geralmente mais velhos que as personagens de Girls – a falar a mesma ladainha preguiçosa de sempre: a série seria sobre essa geração perdida, esses millenials que não se emendam, não correm atrás do próprio desejo e sentem que são muito especiais quando na verdade não estão fazendo nada demais.

O que é certo é que todo mundo que faz a curva da maturidade e deixa a juventude na esquina anterior se acha no direito de dizer o quão pior é a geração que vem. Sua imaturidade, sua incapacidade de viver em um mundo que não foi construído por eles e nem para eles. E te contar o spoiler: a próxima geração que envelhecer vai reclamar também da geração que vem. Faz parte.

O que não deveria fazer parte nem deveria ser naturalizado são os duplos padrões da crítica ao tratar o cânone e ao tratar uma história contada por uma jovem criadora que escolheu uma produtora executiva mulher e que escolheu contar uma história de amadurecimento de mulheres sem nenhum tutor (homem), figura tão comum nos romances de formação e educação. Curiosamente, os mesmos elementos que fazem outras obras serem consideradas GENIAIS, quando aplicados a Girls ganham ar de enfado e um desdém condescendente.

Quando Hannah Horvartt é neurótica, obsessiva e egoísta, ela é chata. Insuportável. Como alguém aguenta assistir isso? Já quando Woody Allen é neurótico, obsessivo e egoísta, ele é… adivinhem!? Um gênio. Quando as personagens de Girls cometem os mesmos erros temporada a temporada e tantas vezes retrocedem, ficando piores, agravando os problemas dramatúrgicos, isso é enfadonho, cansativo, pouco criativo. Já quando Tony e Carmela Soprano (Família Soprano, de 99 a 2007, na HBO, assim como Girls) permanecem os mesmíssimos do começo ao fim, agravando os problemas dramatúrgicos, isso é arte purinha sendo feita para TV.

Ser mulher e ser artista é imperdoável. Eu já perdi a conta de quantos filmes eu vi e de quantos livros eu li nos quais um jovem artista homem, atormentado pelo próprio talento, tinha uma mulher para segurar sua onda e dizer para ele que tudo ia dar certo. O contrário… Não tão usual. Para uma mulher se tornar quem ela deseja se tornar, ela precisa, em geral, reinventar a roda e fazer as coisas acontecerem de um modo muito particular. Um modo dela. Senão, não rola. É uma das coisas mais solitárias que existem.

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Ao acompanharmos Girls por esses seis anos, não vimos apenas uma série. Vimos também o processo de transformação de Lena Dunham de aposta-afronta da HBO em artista. Com capacidade criativa e de realização. Vimos alguém que bancou e se bancou. Gosto muito, sempre gostei, de acompanhar essas engrenagens. E o encerramento desse ciclo, com carinha de epílogo e sem ares de redenção, fez o meu coração ficar aquecido e ter certeza de que a série entrou pela porta da frente no panteão de dramaturgias televisivas que mudaram o jogo.

Não tenho a esperança de que do dia para a noite críticos e indústria considerem um produto feito por mulheres como uma narrativa universal e relevante, assim como os problemas específicos dos homens são normalmente considerados. Girls é mais um capítulo dessa longa caminhada, e ao menos enquanto está no ar, podemos respirar um pouco do frescor que é ver o mundo através dos olhos de uma realizadora sem medo.

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