por Juliana Gonçalves

Vinda de Pernambuco, ela é a figura imponente à frente da Aparelha Luzia, um espaço de resistência negra no centro de São Paulo

Foram os anseios por liberdade que fizeram Erica Malunguinho deixar a casa e a família em Pernambuco para se mudar para São Paulo, aos 19 anos. Hoje, aos 35 anos, reconhece que foi um processo de fuga: “Vim para conseguir minha emancipação identitária”, conta. Naquela época, já tinha sua orientação sexual assumida - eram outros conflitos que a inquietavam. “Mais do que tudo, eu precisava resolver a questão negra”.

Quando terminou o ensino médio, período em que intensificou o enfrentamento à homofobia e ao racismo, Erica sentia que “precisava viver outra vida”. E teve o apoio da mãe, que a criou sozinha, sempre sonhou ter uma filha e escolheu seu novo nome. Já o sobrenome “Malunguinho” faz referência ao culto da Jurema Sagrada, uma entidade das matas de Pernambuco da região do Catucá onde, segundo ela, transitaram seus antepassados. Malungo também é um termo utilizado por povos africanos da família banto, que significa "camarada", "companheiro". Era como os escravizados se referiam a alguém que, como eles, atravessou o mar e conseguiu renascer do outro lado.

A possibilidade de se reinventar é o que Erica foi buscar em solo paulistano. Foi na capital que percebeu o amadurecimento de suas posições, inclusive reelaborando sua identidade de gênero silenciada por anos. "Eu acreditava que entender minha orientação sexual seria suficiente para me colocar no mundo. Aos poucos fui me dando conta de que haviam outros aspectos inexplorados da minha subjetividade e, nesse conjunto de termos que utilizamos para nos definir, me entendi como uma pessoa 'T', ou seja, uma mulher trans”, conta.

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Erica encarou o conflito de ser negra, mulher, transexual e nordestina em São Paulo. Aqui, relata que viu as facetas mais cruéis da discriminação. "Com suas grandes dimensões a cidade esconde sob suas vestes uma sofisticada perversidade que resulta em violências físicas e simbólicas, impedindo o desenvolvimento saudável das pessoas. Mas nunca senti medo, sempre tive substância para o afronte”, afirma.

Resistência negra

Ativista, educadora e artista, ela trabalhou na área da educação por muitos anos, atuando na formação de professores com temas ligados a arte, cultura e política. Produziu também trabalhos de fotografia, performance, escrita e desenhos. Sua carreira acadêmica é descrita sem citar nomes de instituições, algo feito conscientemente. “Não cito nomes, pois não quero que elas roubem o bônus da minha existência. Não são elas que me certificam, mas as relações humanas que me ensinaram a transitar numa sociedade estratificada, transfóbica, racista e homofóbica”, dispara.

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Essa relação com os territórios marcam a personalidade dessa figura que transita por muitos espaços, e que por ter sua consciência racial e étnica no centro da sua existência, conseguiu parir um quilombo urbano no centro de São Paulo, em abril de 2016.

“É um lugar onde negras e negros se reconectam com seus iguais, reorganizam a coletividade em uma dimensão ampliada e aprendem a estar juntos”
Erica Malunguinho

Assim, Erica transformou seu ateliê de arte, no bairro dos Campos Eliseos, no centro cultural e político Aparelha Luzia, entendido por seus frequentadores como um dos espaços de resistência negra mais importantes da cidade. Lá acontecem festas, cursos, formações, debates, aniversários, e é um lugar onde “negras e negros se reconectam com seus iguais, reorganizam a coletividade em uma dimensão ampliada e aprendem a estar juntos”, explica.

O objetivo era organizar encontros para difundir a produção artística e política da negritude. A Aparelha Luzia é um espaço de criação, mediação e circulação de artes negras, além de ser um ponto de sociabilidade e afetividade.

A importância da Aparelha surge justamente pela multiplicidade do público que transita por ali. São trabalhadores da construção civil, moradores em situação de rua, intelectuais, artistas, ativistas, membros de comunidades de países africanos, profissionais das área de saúde,  educação e moda, entre outros.

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Por lá já passaram nomes como Leci Brandão, Samba de roda da Nega Duda, Samba da Marcha das Mulheres Negras, Adriana Moreira, Luedji Luna, Dena Hill, Lena Bahule, Pedro Guimarães e Filhos de Gandhi. Também já lançaram livros ou simplesmente foram curtir o espaço os escritores Cuti Silva, Akins Kintê, Alan da Rosa, Conceição Evaristo, Cidinha da Silva e Ricardo Aleixo. Facilmente dá para bater um papo com intelectuais como Rosane Borges, Saloma Salomão e Oswaldo Faustino. Além de esbarrar e dividir uma cerveja com artistas da nova geração, como Xênia França, Preta Rara, Tássia Reis, Liniker e Raquel Virginia.

O lugar respira arte. Espalhados pelo ambiente há um quadro de mães pretas, uma peça que faz alusão aos orixás, tambores, bonecas negras, móveis antigos, luminárias, uma lamparina, um porta-joias. São tantos elementos que disparam memórias afetivas, em especial, as fotos envelhecidas da família da fundadora do espaço.

‘Outro lugar’

Ouvir Erica falar sobre a Aparelha Luzia é revisitar a intelectual negra Lélia Gonzales, que escreveu sobre a divisão histórica e racial dos espaços na sociedade brasileira e como aos brancos são destinados os lugares de poder, e, aos negros, os lugares marginalizados. Aparelha Luzia é um local de negros, pautado pela resistência cultural e pela política da negritude. “A Aparelha tira do campo do pejorativo e leva para o lugar devido a tal da magia negra, que é vida”, define, remetendo a Sérgio Vaz, que em um dos seus poemas cita grandes nomes negros da música, política e literatura como legítimos praticantes da tal “magia negra”.

No centro cultural há uma cozinha com cardápio elaborado e executado pela chef Cícera Alves. São servidos drinks e a cervejas artesanais, como a cerveja Guerrilheira, produzida e pautada na luta feminista e racial. “Aqui a gente tenta romper esse histórico de servidão que tanto nos persegue. Então, depois de comer e beber, a pessoa leva os pratos, talheres e copos até o balcão”, explica Erica. O quilombo urbano é mantido de pé por uma equipe negra: Malu Avelar, Marcia Izzo, Alessandra Souza, Juliana Santos (Lilica), Fernanda Alves e Julio Cesar Ribeiro, Valéria Alves e Julia Souto.

“É importante que grande parte da construção da linguagem seja gerida por negras e negros. Da criação à apresentação do trabalho”
Erica Malunguinho

Erica faz pessoalmente a curadoria de todos os eventos da casa. Assim tem a possibilidade de apresentar “narrativas descolonizadoras”, como ela mesma diz. Além disso, o protagonismo negro é o ponto central. “É importante que grande parte da construção da linguagem seja gerida por negras e negros. Da criação à apresentação do trabalho”, conta. São mais de 20 eventos por mês. O público varia de acordo com a atividade, mas há um crescente número de frequentadores cativos que veem na Aparelha Luzia o refúgio certo. “Recebemos em média de 3 a 4 mil pessoas por mês”, contabiliza Erica.

Quilombo urbano

O nome “Aparelha Luzia” é uma mistura de homenagens e referências. Aos espaços chamados de “aparelhos”, onde aqueles que lutavam contra o regime militar se reuniam para pensar e resistir à ditadura nos anos 60 e 70; a todos os que desde o começo ajudam a fundadora a manter o lugar de pé e o transformam em um espaço de sociabilidade negra; à Luzia, a primeira brasileira, fóssil mais antigo encontrado na América, especificamente em Minas Gerais, de traços negros e datado de 12 mil anos atrás - e provaria a possibilidade de já existir pessoas de origem africana no Brasil antes mesmo do tráfico que sustentou a escravidão.

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“Além disso, há o Quilombo das Luzias, e todas as metáforas existentes por conter a palavra luz, luzir, lumiá”, completa Erica. “É o resultado de uma historicidade negra muito antes de mim, que remete aos povos Malês, o Teatro Experimental do Negro, a recente Ocupação Preta da Funarte, o quilombo dos Palmares, o Movimento Negro Unificado, os maracatus... Acredito que o sentimento que nos faz estar tão bem aqui diz respeito às nossas memórias e ancestralidade”.

Negociar a presença

A região da Barra Funda onde fica a Aparelha Luzia é berço do samba paulistano e da efervescência cultural negra. Em décadas passadas, figuras importantes como o escritor Oswaldo de Camargo e o poeta Solano Trindade habitavam os arredores, que no início do século 19 era uma das áreas com maior concentração de negros da cidade. “Recentemente recebemos a visita do Sr. Xavier, músico que nos anos 40 foi morador do imóvel ao lado da Aparelha. Ele ficou emocionado ao entrar no espaço e relatou sua experiência com o bairro, até ser expulso de lá pela especulação imobiliária", conta Erica. Não raro quem frequenta o local ouve ela afirmar que estar ali é "um processo de reintegração de posse para negras e negros”.

“Todo mundo é bem-vindo, mas a pessoa não-negra deve negociar sua presença, pois alguns desavisados ainda reproduzem comportamentos racistas”
Erica Malunguinho

Erica conta que não é incomum que as pessoas brancas se assustem ao se depararem com um território negro, onde não somos vistos pelo lugar da vulnerabilidade, e sim pelo contrário, com autoestima e consciência das nossas pautas. “Todo mundo é bem-vindo, mas a pessoa branca ou não-negra deve negociar a sua presença aqui dentro, pois alguns desavisados tentam reproduzir comportamentos racistas”.

 

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Para as pessoas brancas que se dizem parceiras do espaço, Erica alerta que elas precisam começar a “produzir práticas anti-racistas”: “Ninguém é anti-racista porque samba, come feijoada ou frequenta a Aparelha, estamos falando de racismo institucional".

A Aparelha Luzia se assemelha a um quilombo pela quantidade de corpos negros, mas principalmente por ser um lugar de liberdade e sociabilidade que propicia encontros marcantes e pedagógicos. É um lugar de negro que trabalha para que um dia todos os lugares assim sejam.

Vai lá: facebook.com/aparelhaluzia

Créditos

Foto principal: Pedro Borges/Alma Preta

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