por Nina Lemos
Tpm #74

A Tpm, junto com a Trip, adverte: por mais comum que seja, ser assediada não é normal. Nem bacana

Por que é quase impossível andar por aí sem ouvir baixarias, levar passadas de mão ou ser atacada por homens em grupinhos na balada? A Tpm, junto com a Trip, adverte: por mais comum que seja, ser assediada não é normal. Nem bacana

Todas as manhãs a estudante Marcela Abrantes, 24 anos, pega um ônibus em Perdizes, bairro de classe média de São Paulo, para ir até a faculdade. Faz um percurso de pouco mais de dez minutos. Mesmo assim, sai de casa preocupada. “Tento não colocar saia nem quando está calor porque sei que os caras vão me olhar de um jeito que me agride ou vão falar baixarias na rua.”

Do outro lado da Dutra, a jornalista Márcia Mesquita, 23, cumpre a mesma rotina em todos os fins de semana. Freqüenta festas em clubes na Lapa, famosa região boêmia do Rio de Janeiro, hoje o lugar mais quente da noite carioca. Vai de metrô com amigas ou mesmo sozinha. E também sai apreensiva. “Agora, só vou de calça jeans.” Motivo: ela cansou de ser “atacada” por homens que chegam em grupinhos e a cercam puxando pela mão e falando coisas grosseiras. Pena que mudar o figurino não resolva. “Eles só não vêm para cima de mim quando estou com amigos homens.”

Provavelmente você leu as histórias de Marcela e Márcia e pensou: “Ah, mas isso também acontece comigo”. Sim, se você teve a sorte de nunca ter levado uma passada de mão na bunda, provavelmente conhece alguma vítima de tal ato. E quantas vezes você já ouviu : “Vem cá, gostosa”, quase gritado em tom agressivo?

Sim, ouvir elogio é bom. Mas existe uma diferença grande entre a cantada e a baixaria. Uma coisa é ir à feira e escutar “mulher bonita não paga, mas também não leva”. Outra é se sentir ameaçada por homens desconhecidos gritando grosserias. Já reparou que estamos tão acostumadas com esse tipo de comportamento que, no máximo, trocamos impressões com as amigas sobre lugares perigosos ou roupas apropriadas e depois deixamos por isso mesmo? Sim, ser “assediada” faz parte da rotina das mulheres. Chegamos a achar normal. Só que não é normal. Se você não pode andar tranqüila em um ônibus ou em uma região badalada da sua cidade, é porque tem alguma coisa errada por aí.

 

"Já fui chamada de potranca. Me sinto péssima. Um amigo diz que é elogio, mas não concordo"


Comer com os olhos
“O assédio que se pratica contra as mulheres no Brasil tem um caráter sádico e cruel”, afirma o doutor em psicologia Jacob Pinheiro Goldberg. E, não, não estamos falando de atos extremos como espancamentos e estupros. A tal crueldade citada pelo professor é aquela que pode ser considerada “banal”: uma passada de mão no peito, uma frase cheia de palavrões ou a sensação de ser, literalmente, “comida com os olhos”.

“O olhar é um dos tipos de assédio mais cruéis, pois faz com que a pessoa se sinta invadida, despida”, explica Goldberg. Ainda de acordo com ele, essa atitude de “bárbaro”, em parte, é inerente ao instinto masculino, o que não quer dizer que deva ser aceita. “A sociedade se faz na base da evolução e da disciplina do instinto. Este, no caso dos homens, precisa e pode ser controlado”, explica.

Os casos de meninas que já se sentiram “invadidas” são muitos. Alguns assustam. “Uma vez estava andando de bicicleta em Piracicaba (SP) quando passou um carro com dois caras e um deles me deu um tapa na bunda. Além disso, já fui chamada de potranca. Me sinto péssima. Um amigo diz que é elogio, mas não concordo”, conta a relações-públicas Cláudia Araújo, 26. Sinceramente. O amigo dela que nos desculpe. Mas será possível que alguma mulher goste de ser chamada de potranca?

Pode ser. De acordo com especialistas, algumas moças sentem “necessidade” de terem seus corpos notados. “Muitas mulheres ainda são dependentes do olhar masculino e pensam que, se não são paqueradas, não têm valor”, lembra a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro O Corpo como Capital. De acordo com ela, os homens também usam as grosserias para se afirmarem como tais. “Elas precisam do olhar para reafirmar a feminilidade, e eles da cantada para afirmar a masculinidade”, diz.

Claro, não podemos generalizar. Mas em um ponto todos os especialistas ouvidos pela Tpm concordam: fazer esse tipo de “ataque” ou até gostar deles é coisa de quem não é lá muito bem resolvido com a própria sexualidade. “Quem tem a sexualidade bem resolvida não gosta de ser tratado assim, não precisa disso e não pratica esse tipo de agressão”, diz a psicanalista Diana Corso.

Mulher troféu
E será que os “engraçadinhos” conseguem o tal troféu, ou seja, levar a tal gostosa para casa? “Isso não importa. Esses homens fazem isso para se exibir para os amigos. É como se gritassem: ‘Olha, eu sou macho’. E, quando agem sozinhos, estão falando isso para o mundo”, crê Diana Corso. Mirian Goldenberg, a mesma que acredita que algumas mulheres “precisam” do assédio para se sentirem bonitas, também duvida que alguma garota fique com o homem que falou baixaria para ela. “O prazer que ela sente se resolve na hora em que ouve o elogio, isso não precisa de uma realização sexual.”
Outro ponto em que os especialistas concordam: as passadas de mão na bunda e as cantadas baixas são características de países latinos e algo inimaginável (na proporção e na violência) em países da Europa como a Alemanha. “O que acontece aqui lá seria um escândalo”, afirma Jacob Pinheiro Goldberg. E explica: “Os latinos têm esse comportamento porque descendemos de civilizações onde a mulher é vista como objeto de conquista do guerreiro”.

 

A jornalista Daysi Bregantini, 56, também acha que essa situação é pior aqui, no nosso país. “Vamos combinar que o Brasil é cheio de homens machistas que acham divertido cantar mulher. Os engraçadinhos se multiplicam como vírus.” Sua fúria tem motivo. E para explicá-la Daysi conta a sua história. “Em um sábado minha filha de 20 e poucos anos e eu fomos fazer compras nos Jardins, em São Paulo. Estávamos andando quando um carro da Polícia Militar parou, começou a nos seguir e o policial, com a cabeça fora do carro, se atreveu a jogar cantadas na minha filha: ‘Gostosinha, lindinha.’. Ele insistia em mexer com ela, que ficou envergonhada. Eu avancei e soltei frases do tipo ‘vai cuidar de bandido. Como pode mexer com uma mocinha?’. Fui aplaudida pelos transeuntes, mas isso não aplacou a vergonha sentida pela minha filha, que, aliás, estava discretamente vestida.”

 

"Um carro da Polícia Militar parou, nos seguiu e o policial jogou cantadas na minha filha"


Com que roupa eu vou?
E se a menina estivesse de minissaia? Isso daria direito a um homem mexer com ela? “No Brasil existe a cultura de que a mulher está provocando, de que se está vestindo tal roupa está disponível ao assédio”, diz Diana Corso.“Não estou nem aí. Uso o que eu quero. Não vou deixar de ser como sou para não incomodar os homens”, afirma a advogada Mariana Coelho, 25. “Outro dia eu e duas amigas fomos atacadas na Lapa. Ficamos mal. Mas não vou mudar o meu jeito.”

Nem todas as mulheres têm o mesmo sangue-frio. Muitas vezes, depois de um assédio, não resta muito mais o que fazer a não ser chorar. A publicitária Fernanda, que prefere não se identificar, fez exatamente isso. E acabou sentada na rua em uma manhã de São Paulo. “Eu morava em Perdizes e estudava na Faap. Um dia, mal tinha entrado no ônibus e um sujeito passou a mão em mim. Desci no ponto seguinte, chorando. Fiquei um tempo por ali, para tomar coragem de pegar outro ônibus e continuar o dia.”
Será que reagir é uma boa idéia? Há quem não se segure e reaja com violência. “Eu já cobri um senhor no centro de São Paulo de porrada; não satisfeito em me chamar de gostosa ele atolou a mão. Eu bati nele”, conta a produtora Carol Meirelles, 28.

Márcia, a carioca que adora uma balada, não teria essa coragem. Principalmente porque, segundo ela, em geral os meninos “atacam” em bando. “No Carnaval estava andando com amigas por Ipanema, durante o dia. Não estávamos no meio de nenhum bloco, só passeando, quando um grupo de pitboys nos cercou. Eles começaram a nos pegar pela cintura”, conta. Claro que, em um caso como esse, seria impossível (e perigoso) reagir. “Os homens agem assim, de forma covarde, porque sabem que têm mais força”, diz o psicólogo Jacob Goldberg, que acha que, nesses casos, as mulheres devem “procurar a polícia e o apoio da lei”.

De acordo com a advogada Marina Dias, “se alguma mulher se sentir ofendida em razão de uma cantada grosseira pode procurar uma delegacia e relatar o fato”. E, no caso das passadas de mão, ela diz que devemos chamar a polícia, se possível. No caso, a pessoa será indiciada por agressão.
Mas, enquanto a situação não mudar, as mulheres continuarão se sentindo agredidas quando ouvirem baixarias ou tiverem que passar calor por “medo de andar de ônibus”. Se você é um cara que faz esse tipo de coisa e esta revista caiu em sua mão, fica o alerta. A gente não gosta disso. E, se você é uma mulher e se acostumou com as agressões, repetimos. Não, o assédio não é banal.

 

"Um dia, no ônibus, um sujeito passou a mão em mim. Desci no ponto seguinte, chorando"


Mulher cantada é mulher elogiada

Em comerciais, moças são assediadas, fazem cara de contrariadas, mas depois exibem um sorriso de vitória

por Denise Gallo*
     
“O que os homens mais reparam em uma mulher?” A pergunta abre um recente comercial de TV. Rapazes afirmam ser as bochechas, o hábito de falar muito, a beleza interior. De repente, uma voz feminina interrompe as declarações e lança um irônico “fala sério!”. A voz revela que sabe muito bem qual é a preferência nacional, enquanto uma bonitona passa rebolando e… close na bunda dela. Os mesmos rapazes, mais naturais, torcem seus pescoços e apreciam o “material”.
Se você pensou que essa é a descrição de um comercial de cerveja, errou. O produto é só para mulheres e a marca fala em nome delas. É a própria mulher – do comercial – quem corrobora o cinismo masculino, avaliza os “verdadeiros” desejos dos homens e se prepara para atendê-los.

Máquina de sedução
Seria melhor se fosse um exemplo isolado, mas não é. Na mídia feminina, a mulher é uma máquina de sedução. O corpo – erotizado e photoshopado – é o seu passaporte. A aprovação masculina é o seu troféu. Deseje-me! Deseje-me! Dicas e mais dicas para fazer os queixos caírem, os homens enlouquecerem, as cuecas pegarem fogo. 

Nesse script manjado, mulher cantada é mulher elogiada. O assédio masculino é apresentado como o sinal de que a tática deu certo. Na mídia e na publicidade, tudo é uma questão de dedicação. A boa aluna deixará os gatos babando pelo caminho e seguirá vitoriosa. Já quem tiver o infortúnio de passar despercebida que aprenda, de uma vez por todas, qual é a verdadeira preferência nacional.

* Denise Gallo, 37, é sócia da Uma a Uma, empresa de inteligência de mercado especializada em comportamento feminino: http://blog.umaauma.com.br. Seu e-mail: denise@umaauma.com.br

Os trogloditas falam

Fomos para a rua ouvir o que os tais engraçadinhos pensam. Um deles disparou: “Quem não gosta é sapatão”

por Fernanda Danelon*
     
As mulheres, vimos, repudiam as cantadas trogloditas. Mas o que os homens pensam da indefectível paquera de mesa de bar, do comentário fortuito sobre a voluptuosidade da moça, da mão-boba e da encoxada no busão lotado? “A cantada deixa de ser lúdica para se tornar ofensiva quando ganha ares ameaçadores”, defende o escritor Ubiratan Muarrek. “Na verdade, quem escolhe o parceiro é a mulher. São elas quem ditam as regras do jogo do amor. E, quando a população masculina resolve bancar a machista, a mulher pula fora. Chamar de gostosa sem ter intimidade assusta. Afinal, a própria assimetria da força física já é ameaçadora”, conclui o autor de Corrida do Membro (Record).

Medo de apanhar
Nem todo homem é iluminado assim. O manobrista Marcos Ribeiro dispara sem vergonha: “Toda mulher gosta de ser cantada. Só não gosta quem é sapatão”. Para impedir o vendedor de coco Ricardo da Silva de passar a mão numa gostosa, só namorado ou se for familiar: “Tenho medo de apanhar”, confessa.

Mas engana-se quem acredita ser o desrespeito privilégio das classes menos favorecidas (no sentido monetário do termo). “Tem muito playboy abastado se aproveitando de sua condição financeira para ser rude com as mulheres”, alerta o cantor Wander Wildner. Ubiratan concorda: “Homem quando é idiota, é idiota em qualquer classe social”.

* Fernanda Danelon é editora da revista Trip

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