por Laura Pires

Por que as mulheres criam inimizades entre si para disputar a atenção de homens medíocres?

Uma amiga contou outro dia que teve um namoradinho na adolescência que hoje é casado com outra mulher e, como ele mora perto, ela ocasionalmente o vê pela rua. Mesmo mais de dez anos depois do fim do relacionamento, a mãe dela ainda aponta a esposa do rapaz quando passam por ela e fala: “ALÁ TUA RIVAL”. Ela comentou comigo que acha um absurdo ter que ver como rival a esposa de um cara que namorou milênios atrás e, mesmo se fosse mais recente e ela até ainda gostasse dele, por que deveria vê-la como rival? Ora, bem, porque nós mulheres somos criadas para viver assim, enxergando umas às outras como rivais, especialmente por causa de homem.

Uma coisa que tem me cansado muito ultimamente é ver mulheres incríveis se digladiando por homem. Normalmente, são mulheres inteligentes, simpáticas, bonitas, que se sustentam, que têm múltiplos interesses e talentos, muitas vezes sofrendo horrores e criando inimizades sem sentido por um homem com um total de zero atributos que está mais se divertindo, sentado, vendo sua atenção ser disputada com tanto afinco. Tenho me perguntado bastante: por que tanta mulher incrível se diminuindo por tão pouco?

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E a resposta é simples: porque nós mulheres somos criadas sem autoestima alguma, para sermos submissas, e a maior prova de que temos algum valor é recebermos a atenção de um homem. Aí danou-se, é mulher competindo com mulher e é homem medíocre sendo tratado como a melhor coisa do mundo. Também pudera: como vamos gostar de nós mesmas e de outras mulheres se tudo que a sociedade nos diz sobre mulheres é negativo e tudo que nos diz sobre homens é positivo?

Ouvimos o tempo todo que mulheres são fofoqueiras, falsas etc. Em contrapartida, nos estereótipos masculinos, todo mundo se apoia, se relaciona com honestidade, não trai, é uma lindeza só esse mundo dos machos… O problema de crescer ouvindo essas coisas é que a gente acaba acreditando e começa a agir em nossas relações partindo do pressuposto de que tais estereótipos representam a realidade. Só que é o contrário: a gente reproduz o que escuta e transforma isso em realidade.

“Como vamos gostar de nós mesmas e de outras mulheres se tudo que a sociedade nos diz sobre mulheres é negativo?”

É nesse contexto —  de baixa autoestima, submissão, busca por aprovação, desvalorização do feminino e supervalorização do masculino —  em que frases do tipo “você não é como as outras” parecem elogio e é por isso que, mais nova, eu adorava ser considerada “um dos caras”. Lembro de me orgulhar por ser uma mulher que gostava dos filmes do Kevin Smith e outras “coisas de garoto”. Destacar-se no meio de outras mulheres é se parecer um pouco com um homem.

É preciso muita desconstrução pra perceber que essa desunião feminina é tiro no pé. Ah, então, a gente precisa apoiar e amar todas as mulheres como se todas fossem santas? Claro que não, não vamos nos infantilizar e tratar a sororidade de maneira tão rasa. Mas contextualizar e pensar duas vezes antes de ver como inimiga alguém que não nos fez nada é importantíssimo.

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Outro dia vi uma menina contando que o namorado a traiu com uma amiga enquanto ela estava dormindo do lado. Ao fim da história, ela disse que é por isso que não faz mais amizade com mulher. É óbvio que essa menina que ela chamava de amiga tinha sérias falhas de caráter.  Fiquei impressionada, no entanto, que a conclusão à qual ela chegou nessa situação foi que não pode ter amizades femininas, sendo que ela não deixou de namorar homens e só faz amizade com homens, como se não tivesse nenhum homem traidor na história que contou. Acreditar que o meio para evitar outras traições é não ter amigas mulheres faz tanto sentido quanto flagrar o marido te traindo no sofá e vender o sofá.

São situações de dois pesos e duas medidas como essa que evidenciam como a nossa visão das coisas é deturpada. Não é pra sair amando e apoiando todas as mulheres independente de suas características individuais num ideal de sororidade mágica, mas vamos tentar ao menos não dar tiro no próprio pé e reconhecer que somos um grupo? Porque, enquanto a gente fica aqui se batendo, sempre dentro de um contexto que nos coloca como inferiores, homens seguem reunidos e felizes, mantendo o patriarcado soberano e funcional —  com a nossa ajuda.

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