Revista Trip

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A memória é uma ilha de edição

A frase do poeta Waly Salomão vale não apenas para as lembranças daquilo que vivemos, mas também do que sonhamos
08.12.2008 | Texto: Carlos Naber
Por Carlos Nader*

Quando sonhamos, o sonho é uma espécie de memória de algo que não aconteceu de fato. Depois, quando lembramos deles, os sonhos são uma memória, como qualquer outra, de algo que, sim, aconteceu de fato: o próprio sonho.

O que são os sonhos? Um dos primeiros estudiosos da tradição científica ocidental a pensá-los, Alfred Maury, na França do meio do século 19, acreditava na tese de que o sonho é conseqüência de um estímulo externo e fazia experiências esdrúxulas para prová-la. Pedia para lhe fazerem cócegas no nariz, com uma pena, enquanto dormia, e sonhava que estava sendo torturado. Dizia para aproximarem um ferro quente da sua cara e sonhava que ladrões o forçavam a caminhar sobre brasa. Mandava pingarem uma gota d’água na testa e sonhava que estava na Itália, transpirando e bebendo um vinho de Orvieto.

O mais conhecido sonho de Maury foi imortalizado por Freud, em seu livro Interpretação dos sonhos: “Ele estava de cama, doente. A mãe estava ao seu lado. Sonhando, ele se vê na Revolução Francesa, na época do Terror. Ele testemunha cenas horríveis de assassinato e é levado ao Tribunal. Lá, ele vê Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville, todos os heróis trágicos daqueles dias terríveis, e tem que dar um depoimento sobre todos os incidentes, que não tinham se fixado em sua memória. É sentenciado à morte. Acompanhado por uma multidão imensa, ele é levado ao local da execução. Sobe ao cadafalso. O carrasco o amarra. A lâmina da guilhotina cai. Ele sente a cabeça apartada do tronco. Ao acordar com uma terrível ansiedade, ele percebe que a cabeceira da cama onde estava dormindo tinha caído sobre sua vértebra cervical, exatamente no mesmo lugar onde a lâmina da guilhotina o teria cortado”.

ULTRAFAST-REWIND
Existe um paradoxo contido nesse sonho que desafia a racionalidade linear e já virou pesadelo para muito intelectual. É o seguinte. Foi a queda da cabeceira que fez Maury sonhar com a queda da guilhotina. Assim, a queda da cabeceira é a causa do sonho. E a causa é um começo. O começo do sonho. Mas, no sonho, a queda da guilhotina é também a conseqüência de todos os longos incidentes que levaram Maury à decapitação. E a conseqüência é um fim. O fim do sonho. Como é que a causa de um sonho se transforma em sua própria conseqüência? Como é que o começo se transforma no fim? Será que Maury sonhou de trás para frente? Será que todos nós, que já tivemos sonhos parecidos com esse, gerados, por exemplo, por um barulho externo que nos acorda, sonhamos de trás para frente e depois os reordenamos na memória?

As perguntas não param por aí. Se a queda da cabeceira acordou Maury imediatamente, isso significa que ele sonhou já acordado? Ou sonhou naqueles segundos de torpor que sentimos antes de estarmos inteiramente despertos? Nesse caso, como é que ele sonhou uma história longa-metragem? Não daria tempo. Pode ser que a queda da guilhotina seja só um fim que a mente de Maury acrescentou rapidamente a uma história que já vinha sendo sonhada noite adentro. Ou será que sonhamos num ultrafast-rewind quase atemporal que a memória depois reedita para dar um sentido aceitável à linguagem dos homens?

Os sonhos são então a memória dos sonhos? Quem sabe? De qualquer modo, as questões levantadas pela cabeça guilhotinada de Maury iluminam tanto a natureza dos sonhos quanto a natureza da memória. E, quaisquer que sejam as respostas para elas, ratificam a já célebre frase de Waly Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. Eu acrescentaria que a percepção, “memória do presente”, também deve ser uma ilha de edição. Que seja cada vez mais! Sobretudo nesta época em que as coisas parecem estar acontecendo em ultrafast-forward.

*CARLOS NADER, 43 é um homem de mídia. Seu email é carlos_nader@hotmail.com