Thiago França sopra com vontade

Sem carro de som e sem patrocínio, mas formada por cem músicos, a Espetacular Charanga do França se prepara para colocar seu bloco na rua

por Bruna Bittencourt em

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Vestido de Batgirl e usando peruca loira, Thiago França comandava em janeiro um dos últimos ensaios da Espetacular Charanga do França antes do Carnaval, no bairro da Santa Cecília, região central de São Paulo. Além de composições próprias, que trazem as marchinhas para os anos 2000, emendaram versões de "Vai Malandra" (Anitta) e "Seven Nation Army" (White Stripes).

Sem carro de som e sem patrocínio, mas acompanhado por cem músicos (60  instrumentistas de sopro e 40 de batucada), o compositor, arranjador e saxofonista do Metá Metá e do Criolo coloca seu bloco nas ruas da Santa Cecília na segunda-feira de Carnaval —  no ano passado, reuniram 20 mil pessoas, segundo a prefeitura

Thiago França durante uma das oficinas da Charanga - Crédito: Divulgação

Thiago, que é um denominador comum entre vários projetos da cena musical paulistana, tenta coordenar o Carnaval com o nascimento da sua filha, previsto para a quarta-feira de cinzas. "Estou só um pouquinho em pânico", ri. No fim da gravidez, a esposa de Thiago (Louie Martins) não abriu mão de levar o estandarte do bloco. "Ela me fez marcar, disse para ela que por mim não fazia nenhum bloco este ano." 

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A Charanga, porém, vai muito além da festa pagã. Além dos ensaios abertos ao longo do ano (o último antes da folia ocorre dia 6 de fevereiro, em São Paulo), realiza oficinas de instrumentos de sopro com vagas gratuitas. "Foi uma alegria ter levado a galera da oficina para gravar o novo disco", conta Thiago, que lançou em dezembro Bomba, Suor e Bapho, quarto disco do projeto. "As duas últimas músicas contaram com 34 músicos."

A inspiração do saxofonista para a charanga (tradicionalmente, um grupo de sopro e percussão que anima festas) vem de Belo Horizonte, onde nasceu. "Sou atleticano e a  charanga na torcida do time é muito marcante. Aquela maneira de tocar ficou na minha cabeça."

A Espetacular Charanga do França sobe a temperatura no Carnaval - Crédito: Divulgação

Décadas depois, Thiago acompanhou como instrumentista artistas como Beth Carvalho e Nelson Sargento ("toquei com todo mundo que você imaginar"). Em 2012, lembra, estava mergulhado na experimentação em projetos como Sambanzo, Marginals, além do Metá Metá. "Me bateu uma saudade, precisava voltar a tocar samba." No ano seguinte, montou a Charanga como uma temporada de baile de pré-Carnaval e lançou o primeiro EP do projeto. 

Perto do Carnaval de 2015, cobrou em um post no Facebook: "Vocês que estão me pedindo para fazer o bloco da Charanga, quem vai chegar junto para ajudar?". Em meia hora, já tinha recebido 500 curtidas. Amigos e entusiastas conseguiram o alvará para o bloco, a autorização da CET e o local para a concentração (em frente ao Conceição Discos). Thiago escreveu as partituras das músicas e as disponibilizou na internet. No primeiro Carnaval, já eram 60 músicos.

O saxofonista ouviu de vários pessoas que queriam tocar os instrumentos do sopro, mas não sabiam como. Mais uma vez contou com a ajuda de amigos e entusiastas, que conseguiram captar recurso em edital para montar a primeira oficina, em 2016. "Achei que iam ter dez pessoas, apareceram 30." No Carnaval de 2017, os alunos se juntaram aos músicos do bloco somando 40 sopros (mais 25 na batucada).

No ano passado, aprovaram edital do Proac para uma segunda oficina, gratuita, com enfoque social, privilegiando mulheres e negros. Como contrapartida, ofereceram quatro ensaios descentralizados por São Paulo, em São Mateus, no parque da Juventude, na praça do Campo Limpo e no Largo da Batata.

Thiago nas oficinas da Charanga, que têm inscrições gratuitas - Crédito: Divulgação

O subsídio fica restrito às oficinas, já que Thiago prefere seguir com o bloco sem patrocínio. "Para tocar na rua, precisa ter disposição. Atravessei uma fase tocando em baile em que vi de tudo: de trompetista dormindo a cantor brigando para cantar 'Allah-la Ô'. Não aguentava mais olhar para o lado e ver gente emburrrada, batendo cartão. Cismei que quando fizesse um bloco não circularia um centavo, seria 100% colaborativo. Quem quiser, vai." 

Assédio

Neste ano, a Charanga sai de manhã e não mais à tarde. "O Carnaval de rua tem que acontecer durante o dia por uma questão de segurança e de respeito aos vizinhos. Não faço bloco para incomodar os outros." Thiago também lembra que um número grande de assédios que chegaram a ele acontecem depois das dez da noite. "Faz muito sentido a gente estar na rua na luz do dia para inibir esse tipo de coisa." Depois do desfile do ano passado, conta, alguns integrantes foram convidados a se retirar do bloco, após episódios de assédio com membros da organização. "Não tem negociação. Desrespeito com mulher tem tolerância zero." Além  da mudança de horário, a Charanga usa nas redes sociais as hashtags  #nãoénão #CarnavalSemAssedio.

Para se dividir entre tantas banda e projetos, Thiago é pontual. "Parece chatice de virginiano, mas não é.  Assim, consigo administrar o que dou conta ou não de fazer. Marco ensaio às 16h no Largo da Batata. Às sete e meia da noite, já estou sentado tomando uma cerveja e lendo as notificações: 'E aí, galera? Tá rolando? Teve?'", ri. Portanto, não se atrase: a Charanga faz sua concentração às 9h e sai às 10h, pontualmente, em direção ao largo de Santa Cecília.  

Vai lá:
Ensaio aberto da Espetacular Oficina de Sopro do França. Terça-feira, 6 de fevereiro, das 21h30 às 23h, no Mundo Pensante.

Espetacular Bloco da Charanga Do França. Segunda-feira, 12 de fevereiro. Concentração às 9h em frente ao Conceição Discos e saída às 10h.

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