O olhar visceral de Irandhir Santos

Com 20 anos de carreira, o ator pernambucano Irandhir Santos está no cinema com O animal Cordial, no ainda inédito filme Piedade, e no documentário Iran, que mostra seu trabalho fora de cena

por Carol Ito em

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Após um dia cheio de entrevistas, Irandhir Santos chega com um ar de tranquilidade, falando baixo, escolhendo bem as palavras para descrever sua trajetória na dramaturgia. Ele esteve em São Paulo para a première do longa de terror O animal cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, que chega aos cinemas. 

Crédito: Divulgação

Na trama, ele interpreta Djair, um chef de cozinha que exibe o lado feminino e se torna objeto de raiva do sanguinário Inácio, interpretado por Murilo Benício. O personagem foi inspirado numa memória de infância do ator, no interior de Pernambuco, onde cresceu. “Era uma travesti que, quando passava na rua, a gente parava de brincar, tudo parava porque ‘lá vem Djair’. Isso me marcou”, relembra.

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Com duas décadas de carreira, o pernambucano Irandhir Santos, 39, atuou nas produções mais interessantes e ousadas do audiovisual brasileiro dos últimos anos. Foi protagonista dos longas O som ao redor e Tatuagem, ambos vencedores do Festival de Gramado na categoria "Melhor filme", Febre do Rato e Redemoinho, além de atuar em filmes como Cinema, aspirinas e urubus, Tropa de Elite 2, A história da eternidade e Aquarius. Na televisão, atuou nas novelas globais Meu pedacinho de chão, Velho Chico, e o trabalho mais recente, a série Onde nascem os fortes.

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Em novo filme do diretor Cláudio Assis (em fase de finalização, ainda sem data de estreia), Irandhir interpreta Omar, filho de Carminha (Fernanda Montenegro), que é contra a implementação de uma petroleira na cidade fictícia de Piedade, que dá nome ao longa. “Acabou sendo o momento correto de se levantar os questionamentos sobre urbanidade e questões ambientais”, diz. O elenco ainda conta com os atores Cauã Reymond, Mateus Nachtergaele e Gabriel Leone.

Outra produção, ainda sem previsão de lançamento, é o documentário Iran, dirigido e filmado por Walter Carvalho, que mostra o processo criativo do ator durante as gravações do longa Redemoinho, lançado em 2017, e, no fim do ano, voltará às telas de cinema com Fim de festa, de Hilton Lacerda, diretor do premiado Tatuagem e também roteirista de Piedade.

Em entrevista à Trip, Irandhir relembra a infância, fala sobre experiências no cinema e sobre a criação de seus personagens.

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Trip. O homem cordial foi seu primeiro filme de terror?

Irandhir Santos. Sim, foi a primeira vez. Quando vi o roteiro, fiquei bem interessado por ser terror, mas, na verdade, eu já era muito fã da Gabriela [Amaral], tive uns encontros com ela participando de festivais de cinema. Cada vez que via um curta dela ficava mais admirado.

Como foi viver o personagem Djair? Quando eu li o primeiro roteiro da diretora, não existia Djair, era outro personagem, com uma outra conduta. Mas algumas características me remeteram a uma figura que vivia em Limoeiro, que me chamava atenção quando criança. Era uma travesti que, quando passava na rua, a gente parava de brincar, a rua toda parava porque “lá vem Djair”. Isso me marcou. Tinha aqueles que adoravam e cuidavam de Djair e os que agiam de forma violenta. Eu escrevi um texto e sugeri a personagem para a Gabi, que aceitou.

O Djair do filme também é travesti? A gente não determinou o gênero porque ele tem essa ambiguidade. Assim surgiu Djair, com aquele cabelo todo, que era aplique. Lembrei de uma situação em que Djair desaparece da cidade, talvez tenha ido a São Paulo, na década de 90. Ele volta anos depois com um cabelo lindo, que causou ainda mais frisson, admiração e inveja. Colocar o cabelo se tornou um elemento narrativo importante no filme.

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Você também atuou em Piedade, do Cláudio Assis. Conte mais sobre seu personagem. Na trama de Piedade, meu personagem é resistente a esse desenvolvimento desordenado, junto com a Fernanda Montenegro, que interpreta a mãe. Eles têm um estabelecimento comercial numa praia, são os que resistem ao que está acontecendo no entorno e que é inevitável. Ele tenta aglomerar pessoas contra isso e tem uma resistência através da memória, que é bonito. A memória é como arma de embate para quem quer destruir a natureza daquele lugar.

Por que esse filme é relevante no momento atual do Brasil?  É um filme cortante, poético e contundente. Me surpreendeu porque o Claudio [Assis] disse que foi um dos primeiros roteiros que ele tinha, que se tornou só o quinto longa. Tem a ver com uma região especifica de Recife chamada Suape (litoral sul de Pernambuco), na qual ele acompanhou a mudança ao longo dos anos. Acabou sendo o momento correto de se levantar os questionamentos sobre urbanidade e questões ambientais.

Você atuou de forma muito poética, em filmes como Febre do Rato, A história da eternidade e Tatuagem. Você leva isso para os personagens ou o contrário? O olhar do poeta é o melhor olhar do mundo, é ir além da realidade que a gente vive. Quando eu tenho a chance de criar junto com o diretor, me sinto mais pertencente e estimulado. Cláudio [Assis] faz isso, Hilton [Lacerda], Kleber [Mendonça Filho], Camilo [Cavalcante] e a Gabriela [Amaral] também.

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Como foi sua infância no interior de Pernambuco? Os interiores, na verdade. Meu pai era bancário e era transferido a cada dois anos, então, percorremos diferentes áreas, do agreste ao litoral. Era uma vida quase nômade. Quando você tava alicerçando, tinha que sair. Isso tem seu lado negativo, porque você está fazendo as primeiras amizades, mas tem seu lado positivo, que é de girar, conhecer novos lugares, pessoas. Foi essa infância de caminhada, adaptação, redescoberta. Meus pais tiveram uma educação mais tradicional, pautada pela questão religiosa, pelos chamados bons costumes.

Você teve uma criação religiosa? O catolicismo foi muito presente durante os primeiros anos da minha vida. Como a igreja é muito importante, até para os movimentos sociais, ela teve o papel de alavancar deles. No interior, a arte dramática é inserida num contexto religioso, mas você experiencia aquilo, entra em contato com o teatro.

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Você tem artistas na família? Tive um tio chamado Carlos Pinto que desenvolvia suas performances em Limoeiro. Hoje penso que ele era um grande artista plástico que conseguia transformar objetos em arte, mas que era mal compreendido. Ele fazia brincadeiras comigo de desenho, por exemplo, que hoje é uma ferramenta importante pra construção dos meus personagens. Quando ele chegava em minha casa, causava, no bom sentido. Era surpreendente visitar esse meu tio, ele sempre tinha uma novidade, uma parede pintada, uma roupa que ele tinha acabado de costurar, ideias que queria compartilhar. Ter isso na família pra mim foi um farol. Além disso, meu avô era saxofonista, tinha o maior orgulho de dizer que sustentou a família tocando saxofone. Meu pai sempre foi músico, acho que frustrado, porque, quando se aposentou, montou logo uma seresta.

No filme A história da eternidade, seu personagem, João, é um artista que conhece o mundo e depois volta para o sertão, onde é visto com desconfiança. Você se baseou na própria experiência? Eu tive exatamente essa sensação quando Camilo me mandou o roteiro. É um cara que sai, vê o que tem lá fora, volta com uma bagagem artística e tem que colocar isso numa comunidade que tem quatro casas e um cemitério, ou seja, mais pessoas mortas do que vivas. Tudo naquele filme passa a se movimentar a partir do que o Joãozinho mobiliza, a própria câmera que começa estagnada e depois dança, cria movimento com ele. Foi um personagem que me remeteu a essa experiência de ter morado no sertão, com aquela natureza específica e bela e, ao mesmo tempo, trazer minha memória afetiva em prol de uma história muito bem elaborada pelo Camilo.

Como rolou a ideia do documentário Iran?  Durante as gravações de Redemoinho, Walter [Carvalho] captou umas imagens, sem saber. Tinha um cantinho do cenário que eu sempre fazia a preparação e ele filmava. Geralmente, eu estava de costas e de fone de ouvido, não ouvia nem via nada. No último dia de gravações, ele me disse que queria fazer algo com aquilo, não entendi bem o que era. Um ano e meio depois ele veio com um filme. Fiquei com as pernas tremidas. Entendi que era nada mais do que um gesto de amor. Ele apenas compartilha um olhar sobre um ator, sem querer revelar ou justificar algo. Isso eu achei de uma dignidade, de um respeito, nem sei como agradecer.

E por que IranÉ como amigos me chamam, de forma afetiva.

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