Que treta, mermão

Orgulhosos de seu sotaque e de suas gírias, os cariocas começam a incorporar expressões paulistanas até em conversas de botequim

por Kamille Viola em

De repente, do “cara” fez-se o “mano” e da “confusão” fez-se a “treta”. Há uma sensação entre os cariocas, que tem originado discussões nas redes sociais, de que as gírias paulistanas, antes rejeitadas, começam a ocupar lugar de destaque nas conversas de botequim do Rio de Janeiro. Mart’nália, uma carioca de sotaque clássico e gírias locais enraizadas no vocabulário, admite já ter adotado a paulistaníssima “trampo” no dia a dia. Ela gosta, mas acha que esse fenômeno, percebido faz algum tempo, é sinal de perda de prestígio da cidade. “O Rio tá com a autoestima caidinha, né? Acho que ele já esteve mais na moda em tudo, não só nessa questão”, brinca a cantora. Nascida e criada no coração do samba carioca, ela admite que adotou “trampo” em seu dia a dia. “Acabo falando por causa dos amigos, uso muito. Acho tudo legal, e reflete um tempo. Se for o tempo de Sampa, vambora! Gíria é uma coisa que circula, que passa, poucas ficam”, acredita.

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O escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, autor do livro Viva a língua brasileira! (Companhia das Letras), concorda com a suspeita de Mart’nália. “Na minha opinião, isso tem uma razão econômica. São Paulo é a grande cidade do país, produtora não só de riquezas reais, mas simbólicas. O Rio é uma cidade decadente, que já foi, e acho muito difícil que consiga retomar o protagonismo nacional que já teve. Se não fosse a TV Globo estar no Rio, a influência da cidade em termos nacionais seria zero”, crava. Mas sem grandes mágoas, ele (um mineiro há anos radicado no Rio) garante: “Tento não ter uma postura bairrista, acho bobo, me cansei disso”.

Criador da página “Suburbano da Depressão” no Facebook, o historiador Vitor Almeida diz que a tendência está sobretudo entre os mais jovens, por influência do rap e do funk ostentação de São Paulo, mas admite que ele mesmo foi “mordido” pelo jeito de falar do paulistano. “Outro dia escrevi ‘mano’ na página, e me chamaram atenção: ‘Carioca escreve irmão’”, brinca.

Para Almeida, a questão tem conexão com a imagem negativa do Rio nos grandes meios de comunicação, que só teve uma trégua durante o período que foi de um pouco antes da Copa de 2014 até o fim das Olimpíadas de 2016. “Acabou a festa, voltou a narrativa de uma Zona Norte que só tem tiroteio, uma Zona Oeste que só tem milícia e uma Baixada que só tem chacina. Existe uma tentativa de depreciação do Rio de Janeiro. A mídia tem uma boa parcela de culpa nisso, as narrativas têm um propósito”, acredita. “O carioca está perdendo a característica de sair na rua, que é muito dele. Acaba ficando mais em casa, no celular, e abrindo espaço para outras culturas”, analisa.

Essa desvalorização da cultura local foi o que levou Almeida a criar a página “Suburbano da Depressão”, que acumula 311 mil curtidas no Facebook e deu origem ao livro Suburbano da Depressão: causos, contos e crônicas, lançado no fim de 2016. “Você não tem reconhecimento da história dos bairros da Zona Norte e Zona Oeste e da Baixada Fluminense, não tem trabalho de memória, de identidade local para bater de frente com isso. Outro dia postei: ‘Hoje passei em Nova Iguaçu’. Começaram a comentar: ‘Cuidado, vai ser assaltado’. Lá só existe assalto?”, desabafa.

Para ele, além da mídia da tradicional, a ascensão das páginas de bairros, com relatos inúmeros de violência, ajudou a disseminar uma imagem negativa sobre o Rio. “Conheço muita gente que parou de seguir essas páginas porque começou a ter crise de pânico, ansiedade, por causa desse conteúdo. Elas contribuem muito para um desespero. Algumas delas vieram com um discurso autoritário e começaram a apoiar lideranças locais. Você gera um caos para vender a segurança”, analisa o historiador.

Já Sérgio Rodrigues vê a perda de prestígio da cultura da cidade como consequência de uma acomodação do Rio. “A gente se achava a síntese do Brasil e pronto, não teve que brigar por isso, caiu no colo. O Rio não se acostumou a lutar pelas coisas. Já São Paulo, que no passado era uma cidade perdida no meio do nada, que não tinha praia, criou uma cultura muito mais aguerrida”, compara o jornalista e escritor.

E, embora seja crítico à Cidade Maravilhosa, ele acredita que o Brasil perde quando a influência carioca na cultura perde fôlego. “O Rio tem um jeito de encarar as coisas que eu acho que faz falta para o Brasil. Uma certa leveza, no lado bom. Junto com isso vem um jeito mais solar, que é um pouco mais a síntese do país. O lado ruim é uma certa esculhambação”, decreta. “É claro que vai continuar a ter um lugar histórico no país, foi a capital, o centro pensante do Brasil por tempo demais para desaparecer assim. Mas a hegemonia de São Paulo é evidente”, diz.

Mart’nália, no entanto, não vê a coisa de forma tão definitiva assim. “Acho que quem fala gíria paulista é o pessoal que é mais da internet, mais moderno, e do rap. O hip hop hoje acho que é a música mais ouvida no mundo. No samba, ainda não tem ninguém que fale ‘mano’. Vai ver se em Vila isabel ou em Madureira alguém fala assim (risos)”, diverte-se a cantora.

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