Quando as plataformas de apostas tentam convencer alguém a apostar, não oferecem somente a possibilidade de ganhar dinheiro. Elas são muito mais sedutoras do que isso.
A aposta esportiva vende competência. Nela, o apostador aparece como alguém que conhece os times, acompanha o campeonato e sabe interpretar uma partida. Assim, a plataforma parece dizer: “Você já entende do jogo. Só falta transformar esse conhecimento em dinheiro.”
A sorte deixa de parecer puro acaso, e passa a adquirir uma fachada de método. O cassino online vende iminência, como se o jogador estivesse sempre a um giro de mudar de vida. E a plataforma insinua: “Você já chegou até aqui. Tenta mais uma vez, porque a próxima pode ser sua.”
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Na sociossemiótica, a relação entre a plataforma e seus usuários é organizada por uma programação: o funcionamento do aplicativo, os bônus, os estímulos visuais, a velocidade das rodadas e a facilidade para continuar apostando. Essa programação também prepara o terreno para a manipulação: “Confie no seu palpite”; “foi por pouco”; “na próxima você consegue”.
E esse “foi por pouco” é especialmente perigoso, porque, mesmo quando o usuário perde, a plataforma não permite que a derrota encerre a história. A perda é reorganizada como uma quase vitória. O “quase” mantém o jogador dentro da narrativa. Se faltou tão pouco, desistir agora pode parecer irracional. Assim, a derrota, que poderia interromper a aposta, se torna argumento para continuar.
Há ainda uma questão social importante: essas plataformas convertem uma incerteza coletiva em promessa de controle individual. Por isso, a falta de perspectiva produzida pela desigualdade reaparece como uma oportunidade rápida e disponível na palma da mão. Ao indivíduo, resta a promessa de que sua vida pode mudar se ele acertar o próximo escanteio ou encontrar a combinação certa de moedinhas. Convenhamos, é uma solução muito mais confortável do que enfrentar a desigualdade lá fora.
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Raul Seixas já cantava em “Aos Trancos e Barrancos” o sujeito que deixa de comprar o leite da família para comprar um bilhete de loteria. O leite garante a manutenção da vida no presente. Porém, o bilhete promete uma transformação extraordinária no futuro. A cena lembra João e o Pé de Feijão: trocar aquilo que sustenta a vida por uma promessa de multiplicação.
Mas, fora da fábula, não existe galinha dos ovos de ouro. Existe uma plataforma programada para lucrar enquanto convence o jogador de que a fortuna está a apenas mais uma tentativa de distância.
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