A estrangeira

Maryam Kaba cresceu negra numa família de brancos e tentou conquistar um esporte, a ginástica rítmica, que não aceitava a cor da sua pele

por Autumn Sonnichsen em

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Meu nome é Maryam Kaba. Tenho 39 anos, sou parisiense, dançarina, personal trainer e moro no Rio de Janeiro. Minha mãe é francesa e espanhola e meu pai nasceu na Costa do Marfim. Cresci nos subúrbios de Paris, primeiro em uma cidade meio chique, Fontenay-aux-Roses, e depois em uma meio punk, chamada Vitry-sur-Seine. Meu pai é negro, mas fui criada com a família da minha mãe, que é completamente branca. Minha mãe era assistente social e ajudava os pobres, principalmente as mulheres argelinas, a aprender francês. A luta da minha mãe sempre foi a luta pela igualdade. Igualdade para as mulheres, para os gays, para os estrangeiros. Ela era uma das mulheres do movimento de esquerda na França, ajudava os médicos a fazer aborto ilegal. O aborto foi legalizado na França em 1975! Antes, em 1968, os jovens estavam revoltados, quebravam tudo. Não consigo acreditar que no Brasil o aborto ainda não foi legalizado.

Crédito: Autumn Sonnichsen

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Meus pais eram muito apaixonados, mesmo. Na Costa do Marfim, ele era professor de letras, mas quando veio para Paris teve que começar tudo de novo, desde o colégio. Imagine um professor universitário fazendo cursinho com alunos de 17 anos! Depois, ele estudou na Universidade Pantheon-Assas, que era um lugar muito racista – ainda é. Acho que meu pai era o único negro na faculdade toda, e conseguiu se tornar advogado. Não quis mais saber de letras, não quis mais ser professor: queria ganhar dinheiro, achou que assim seria reconhecido como homem. Meus pais sempre planejaram morar juntos, na África, mas a pressão da cultura muçulmana e da família dele, que é religiosa, pesou muito no relacionamento. Minha mãe foi para a Costa do Marfim para morar com ele, grávida de três meses, e quando chegou lá meu pai estava casado com outra – a família tinha obrigado ele a casar com uma prima. Eu acredito que você sempre sabe um pouco do que vai acontecer. A família do meu pai é africana, muçulmana – onde ia caber a minha mãe, uma francesa branca, dentro dessa história?

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“Minha treinadora sabia que eu ia ser excluída da seleção, pois, apesar de ter ganho tudo, o mundo na ginástica rítmica não queria negros”
Maryam Kaba

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Eu lembro quando a minha vida real começou: aos 8 anos de idade, tinha ido para o treino de tênis. Depois, estava na piscina do clube, de maiô, e fui comprar um doce no bar. Fui no caixa com a minha moeda estendida, e o dono do clube, que estava ali, me olhou na cara e disse: “Primeiro vai botar uma roupa, pois negros como você não podem andar desse jeito, quase pelados”. Juro, ele falou isso para uma criança de 8 anos. E, como meu treinador era amigo do filho desse filho da puta, ele não falou nada. Minha mãe, sim, ficou revoltada, brigou com todo mundo por causa disso, mas isso é a minha sorte, pois tenho uma mãe assim. Não é a sorte de todo mundo. Não é a sorte de uma criança da favela cuja mãe talvez nem tenha como explicar para o filho que o racismo não é culpa dele.

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Lembro também que, quando isso aconteceu, tinha uma mulher mais velha do meu lado, toda chique com um coquetel na mão. E ela riu. O problema do racismo não é só o racismo em si. É, também, as pessoas que não falam nada. O preconceito não pode ser problema só do oprimido. Tem que ser problema de todo mundo.

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Quando eu era criança, era muito boa no tênis e na ginástica rítmica. Quando chegou a hora de ir para a escola especializada em esportes, escolhi ginástica rítmica. É uma mistura de circo, dança e ginástica olímpica. Você tem que ser flexível, dinâmica, forte, expressiva e precisa. É difícil, um esporte de maluco, e meu relacionamento com meu corpo ficou muito intenso. Comecei tarde – tinha 11 anos, o que é muito tarde para começar a sério. Mas eu treinava todos os dias, seis horas por dia. Fui campeã da França duas vezes, com 14 e 15 anos. Também fui escolhida para fazer parte da equipe nacional, mas minha treinadora, uma búlgara, veio falar comigo e com a minha mãe, dizendo: “A Maryam é muito inteligente, então ela vai entender: mesmo sendo a melhor, ela nunca vai fazer parte da equipe nacional. Pois, nesse esporte, ela é a primeira negra”. Minha treinadora sabia que eu ia ser excluída da seleção, pois, apesar de ter ganho tudo, o mundo na ginástica rítmica não queria negros.

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“O preconceito não pode ser problema só do oprimido. Tem que ser problema de todo mundo”
Maryam Kaba

Quando parei de competir, tinha que fazer alguma coisa. Foi quando criei o Afrovibe, junto com a minha sócia, Doris, que também era da ginástica. A gente sentia falta de um esporte tão intenso quanto o nosso, mas que pudesse ser praticado no dia a dia, e por isso inventamos essa mistura de malhação com dança africana. Já formamos mais de 60 professores no mundo todo. E foi por causa do Afrovibe que fui chamada para ser destaque no Carnaval do Rio de Janeiro deste ano, como dançarina principal da comissão de frente da Vila Isabel.

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A primeira vez que eu vim pro Brasil foi em 2012. Estava de férias com a minha melhor amiga, Raquel, uma brasiliense que mora em Paris. Ela me levou para Brasília, onde fiquei dez dias, só comendo. Vi capivara pela primeira vez, fui nas cachoeiras. Depois, fiquei dez dias na Bahia sozinha. Voltei pro Brasil, dessa vez para morar, no começo de 2014. Queria sair de Paris, e estava procurando um lugar para ficar. Viajava muito na Ásia, e gostava muito, mas eu queria uma vida real, queria poder me relacionar com as pessoas do lugar em que eu vivesse, não só com estrangeiros. Eu sabia que na Tailândia ou na Indonésia isso ia ser mais difícil.

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Estava no Brasil havia uns seis meses quando um dia, enquanto corria no Aterro, vi um corpo na grama. Ele estava com o rosto coberto de sangue, acho que o nariz estava quebrado, e tinha levado dois tiros nas costas. Corri, procurei a polícia. Eles falavam que iam chamar a ambulância, mas na real estavam só esperando o cara morrer. Para mim, não era um bandido, era um cara prestes a morrer e ninguém o socorria. Os policiais estavam só olhando, esperando a gringa acabar o show. Me filmaram fazendo massagem cardíaca, fazendo boca a boca. Era um bandido que tinha acabado de fazer um assalto num ônibus e ele morreu nos meus braços.

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Tenho muita sorte, pois realmente enfrentei o racismo poucas vezes na vida. Agora talvez isso mude. A extrema direita está crescendo na França. Aqui no Brasil, sou gringa antes de ser negra, mas ainda sou negra. E agora sou mãe. Adotei a filha da minha prima, que morreu três anos atrás. A minha filha é branca, e eu vou ser a mãe negra – os papéis se inverteram. Agora são os negros que vão adotar crianças brancas, você vai ver!

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