São doze horas de fuso separando os dois lados desta conversa. Enquanto o Trip FM faz as perguntas numa quarta à noite, Dora Morelenbaum responde já na manhã da quinta-feira em Tóquio, prestes a ensaiar com Lisa Ono — a cantora nascida em São Paulo que se mudou para o Japão aos dez anos e virou uma estrela consagrada no país, com disco de platina, prêmios Gold Disc e o título de maior embaixadora da bossa nova na Ásia. O convite de Lisa a Dora para uma temporada de oito shows na capital japonesa tem algo de espelho: uma brasileira que levou a nossa música popular para o outro lado do mundo, chama agora para o palco uma artista da geração que leva essa herança adiante. Porque é disso que se trata a história de Dora: herança.
Dora nasceu dentro da música, filha de dois artistas de estatura internacional: o violoncelista e arranjador Jacques Morelenbaum, um dos maiores músicos brasileiros contemporâneos, e a cantora Paula Morelenbaum, voz da Banda Nova de Tom Jobim e do trio que ela e Jacques formaram com o japonês Ryuichi Sakamoto. Ela cresceu numa turma carioca de “filhos de gênios”. É parceira, por exemplo, de Tom Veloso, filho de Caetano, em boa parte do que compõe — e foi dessa panela que brotou o Bala Desejo, o delírio pandêmico que virou fenômeno e levou o Latin Grammy de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa com SIM SIM SIM, em 2022. Depois veio a estrada solo: o EP Vento de Beirada e, mais recentemente em 2024, o disco Pique, no qual som e imagem foram pensados juntos.
Ouça abaixo a conversa na íntegra:
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Poderia ser uma biografia sobre peso. Dora insiste que é o contrário. Ela sempre enxergou o ofício antes do glamour. Os pais que acordavam e “iam trabalhar”, a música como profissão séria, e não como uma certa boemia idealizada que o folclore vende. Temos aqui uma artista que trata a própria carreira com disciplina quase de atleta, que pensa moda e luz cênica como parte da canção, e que não separa arte de política. “Ter meus pais como referências me deixa tranquila de que o que eu construísse como minha narrativa, ganharia mais força nessa equação do que o peso eventual que poderia existir”, diz.
Abaixo, os melhores momentos da entrevista conduzida por Paulo Lima no “talk show” Trip FM, o programa de rádio e podcast criado pela equipe da revista Trip. Você pode ouvir o programa no play desta página, no Spotify, Deezer, YouTube, Apple Podcasts e outras plataformas de áudio.
Trip FM: Você está em Tóquio para tocar com Lisa Ono. Conta um pouco quem é ela pra quem nos acompanha, essa artista tão grande no Japão e ainda pouco conhecida aqui.
Dora Morelenbaum: O que descobri só agora vindo para cá é que ela é brasileira, na verdade. Os pais são japoneses e foram morar no Brasil antes dela nascer. Ela nasceu no Brasil e voltou para o Japão com dez anos, mas voltou totalmente brasileira, falando português perfeito, e foi a pessoa da família que mais se conectou à nossa cultura. Voltou começando a tocar música brasileira e ficou totalmente apaixonada. Virou uma das maiores expoentes da nossa música na Ásia. Fui para a China recentemente e, tanto lá quanto aqui, dizem que ela é a artista brasileira mais ouvida. Andando por aqui, falando com as pessoas, a gente vai percebendo a dimensão dela.
Trip FM: Tem uma turma da sua geração que parece bastante próxima — você, os filhos do Caetano, do Gil — que por acaso ou não são filhos de artistas geniais. Como vocês se conectaram?
Dora Morelenbaum: Sou especialmente amiga do Tom Veloso, meu parceiro em várias músicas, inclusive muitas que gravei no meu álbum. A gente estudou na mesma escola e se conheceu através de amigos. É uma galera que é bem próxima… inclusive o Bala Desejo veio desses amigos também, Júlia [Mestre], Zé [Ibarra] e Lucas [Nunes], de quem eu fui me aproximando na adolescência. Era um momento em que eu tinha as coisas que escutava em casa, as que escutava por conta própria, e de repente algumas pessoas foram me apresentando a outros sons. O Bala foi esse delírio pandêmico delicioso: a gente se juntava e fazia as lives como uma forma de se curar daquele horror que estávamos vivendo. Apelidaram a gente de comunidade hippie até sermos reconhecidos como grupo, foi quando demos o nome de Bala Desejo.
Trip FM: Você é filha de dois músicos geniais. Como é a luz e a sombra de nascer num lugar iluminado por tanto talento? Não deve ser fácil construir a própria história.
Dora Morelenbaum: Eu sempre reconheci o privilégio de ter nascido cercada de música, de gente que eu admirava, e poder absorver isso ao longo da vida. Foi definitivo na minha formação. Todo mundo me pergunta sobre o peso disso, mas para mim sempre teve um outro lado. Meus pais tinham o horário deles, acordavam e iam trabalhar — talvez estivessem no Japão, num outro fuso. Eu sempre entendi a música como um ofício. Existe uma glamourização naquilo que as pessoas imaginam dessa profissão, mas eu sempre vi o lado do trabalho, como qualquer outro. Era prazeroso para os dois, que atuam com algo que amam, mas tem o lado do trabalho mesmo. E nunca vi como um peso ter o nome,as pessoas me associarem a eles, justamente por admirar os dois.
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Ter os meus pais como referências me deixou tranquila no sentido de que o que eu construísse como minha narrativa ganharia mais força nessa equação do que o peso eventual que poderia existir.
Trip FM: Sua história começou a ser percebida como algo seu com o Bala Desejo, ou você já sentiu que isso acontecia antes?
Dora Morelenbaum: Antes do Bala eu já tinha lançado, ali no início da pandemia, o Vento de Beirada, um “albinho” de três músicas, mais um single fora. A construção dele foi muito importante nesse reconhecimento para mim mesma, de reconhecer o universo que eu estava criando. O Bala, pela força que teve, foi mais definitivo, sim. Mas não vejo um ponto único e determinante: cada projeto vai formando esse quebra-cabeça.
Trip FM: Como foi a gênese do Bala Desejo?
Dora Morelenbaum: A Júlia Mestre teve a ideia de convidar nós quatro para passarmos a pandemia juntos e montar um estúdiozinho num quarto da casa dela. Mas fazer um grupo não era o motivo inicial: eu estava finalizando o meu álbum, a Júlia o dela, Lucas e Zé tinham um disco em andamento. Passamos uns dois meses juntos e foi aí que a gente começou a aparecer na internet, nas lives da Teresa Cristina, e fomos sendo reconhecidos como essa comunidade. Aí o Festival Coala convidou a gente, a pandemia se estendeu, e veio a ideia do disco. Compusemos tudo em um mês, gravamos em um mês, mixamos e lançamos — o processo mais rápido que eu já vivi. De repente estávamos fazendo shows cheios pelo Brasil assim que as restrições diminuíram. O Bala foi muito explosivo, naquele momento a gente encontrou as pessoas sedentas por música. Tudo convergiu para ser o que foi.
Trip FM: De onde veio o nome Bala Desejo?
Dora Morelenbaum: Para compor em um mês, valia tudo, muita brincadeira, muita ideia sem peso, para sair o máximo possível e depois selecionar. Sinceramente, dos quatro não sou a melhor pessoa para falar porque minha memória falha, mas alguém soltou “Bala Desejo” no meio de uma letra. Quando fomos decidir o nome, de um dia para o outro, havia algumas opções, e essa foi a que pareceu mais forte para o momento. Acho até interessante que era um nome que fazia muito sentido na época pandêmica e que depois foi mudando de sentido. O Bala foi muito um fruto daquele momento específico.
O Bala foi muito explosivo, naquele momento a gente encontrou as pessoas sedentas por música. Tudo convergiu para ser o que foi.
Trip FM: Com todo esse sucesso, não houve uma pressão para vocês continuarem, para o Bala não se fragmentar?
Dora Morelenbaum: Não sei se vejo como pressão. Muita gente ama o Bala e é muito provável que a gente continue celebrando esse encontro muitas vezes. A fugacidade do projeto tem a ver com o fato de estarmos muito envolvidos com os nossos projetos solos: o Zé lançou um discão, a Júlia já lançou dois discos desde o Bala, eu lancei o meu, e o Lucas tem mil produções e um super estúdio. O Bala era para ter durado muito menos, ia ser um show, virou um disco e acabou virando quase três anos de shows do mesmo álbum. Fomos estendendo porque queríamos valorizar essa força que ele conquistou, mas a gente já queria fazer outras coisas. Não sinto como pressão porque também não considero uma história acabada.
Trip FM: O Zé Ibarra falou aqui na entrevista que fizemos com ele um tempo atrás, da importância do estudo, do canto. No seu trabalho há um refinamento muito especial. Quanto disso é dom e quanto é transpiração?
Dora Morelenbaum: Eu tive muita sorte. Minha primeira professora de piano foi minha avó. Comecei aos seis anos, e fiquei estudando piano e outros instrumentos até o fim da adolescência. O estudo do instrumento foi fundamental na minha formação. Mais recentemente, foi o Zé quem me apresentou à Paola, nossa professora de canto, essa pérola,tão importante para amadurecer o que a gente tinha desenvolvido de forma mais natural. Mas a prática individual é o que mais fortalece a técnica. E, para a gente, o palco é uma escola: havia dias em que a gente acordava com a voz rouca depois de várias apresentações seguidas . A gente foi aprendendo a lidar com os processos da estrada. O nosso corpo é o nosso instrumento. A cada show eu uso a voz de um jeito diferente, e isso vai me lapidando.
Eu tive muita sorte. Minha primeira professora de piano foi minha avó.
Trip FM: Você falou de uma glamourização da vida de artista, e o seu pai nos contou aqui que nunca gostou de beber nem de virar a noite. Como é esse lado — da boemia, da noitada — na sua geração?
Dora Morelenbaum: Para mim também foi surpreendente. No início do Bala, todo dia depois do show a gente queria comemorar. Só que percebemos rápido que era insustentável: a gente precisava pegar o ônibus de madrugada, entrar na estrada e fazer um show no dia seguinte, com energia para segurar o Bala, que era super enérgico, e com a voz boa. Beber é péssimo para a voz. Passei a beber bem menos depois que comecei a fazer mais shows. Vejo amigos no Rio que saem para o bar quase toda noite, enquanto eu saio do show louca para deitar e acordar bem para a próxima apresentação. É quase uma vida de atleta. É engraçado o que você falou do meu pai, porque ele não gosta de virar a noite na rua, mas sempre vira a noite fazendo arranjos no computador. Existe essa outra faceta da profissão que não é nos palcos, é um trabalho de estúdio, de arranjo.
Trip FM: O Bala também veio com uma identidade visual forte. Como é esse lado do trabalho para você? Moda, cenografia, o desenho do show?
Dora Morelenbaum: Me interessa muito, mas talvez eu não dedique tanta energia quanto gostaria. O show é uma experiência de presença, de ouvir mas também de ver. Sempre que posso, levo comigo a iluminadora do meu disco, a Olivia Munhoz. Quando ela está, a apresentação ganha outra dimensão, porque de certa forma,ela toca junto com a gente. O Pique foi muito pensado junto com a imagem: fui percebendo essa sinestesia ao ouvir as canções, como elas me transportavam para uma estrada com as luzes passando, para uma sensação de movimento. E o mesmo vale para o figurino, que criei com a Raquel de Mantas, uma super estilista do Rio, trazendo texturas e imagens para as roupas. É um detalhe que muda completamente a experiência de quem assiste.
Trip FM: Quando esteve aqui com a gente algum tempo atrás, o seu pai fez uma crítica ao sertanejo, o gênero número um, o mais popular do Brasil hoje. O que esses ritmos tão diferentes do que você faz dizem para você? O sertanejo em especial?
Dora Morelenbaum: No sertanejo existe uma distinção. Tem o clássico, lá de trás, com coisas interessantíssimas. A gente cantava com o Bala uma música por exemplo, se não me engano era Tristeza do Jeca, que tem aquelas aberturas de vozes e foi algo importante na minha formação. Mas o sertanejo atual é muito embasado por uma indústria que o sustenta, pensado para chegar às rádios e a todos os lugares. Deve ter gente fazendo sertanejo que fala de outros assuntos e não consegue espaço maior, mas o que chega ao grande público chega muito baseado no dinheiro investido. E isso tem a ver com o agronegócio, com tantas outras coisas de que a gente diverge no funcionamento do país. Sempre que o foco principal é a indústria fonográfica e o mercado, acho complicado, porque no fim se está falando mais de dinheiro do que de música e de arte.
Trip FM: Dá para viver de música fazendo esse tipo de trabalho autoral, de certa maneira mais sofisticado, que você faz questão de fazer?
Dora Morelenbaum: Não posso falar por todos, mas é muito difícil essa chave virar, porque há muito pouco espaço. No meu caso, o Bala foi fundamental — pela quantidade de shows, conseguimos entrar num circuito de festivais, o que é raro. Quando uma banda entra nesse lugar, ela vira aquela atração que faz todos os festivais por dois anos. Foi o caso do Bala, e tivemos essa sorte, porque muita gente passa muito tempo tentando. Eu, com o Pique, não entrei nesse circuito. Tem muito a ver com o hype, com estar na moda naquele momento, e esse nicho abriga poucas pessoas. Envolve também privilégios de acesso no nosso país, que eu reconheço ter tido mais do que muita gente. Mas não é fácil ganhar dinheiro com MPB no Brasil: há muito dinheiro, porém concentrado para poucos, e só alguns alcançam esse topo.
Trip FM: E o funk, esse som que vem dos morros e virou uma batida fortíssima e nacional? Existe uma conversa da sua turma com essa vertente?
Dora Morelenbaum: Na minha adolescência o funk e o hip-hop foram muito presentes. O funk é bem diferente do sertanejo: traz uma origem de resistência histórica. É claro que os mais tocados hoje também estão inseridos nessa grande indústria e às vezes trazem temas misóginos por exemplo, mas a base do movimento mantém essa essência de resistência, que é crucial na nossa sociedade. Conhecer a história do funk, entender as batidas, sempre me interessou muito. É um gênero pelo qual tenho enorme admiração.
Trip FM: Como é a sua visão sobre o Brasil, esse país tão rico e ao mesmo tempo tão desigual e cheio de contradições e desacertos ? Dá desânimo, dá vontade de fugir?
Dora Morelenbaum: Estando aqui no Japão, é algo em que eu sempre penso. A gente viaja, as pessoas acham tudo incrível, mas cada lugar que visito me dá mais vontade de voltar para o Brasil. Quando a gente sai pela primeira vez, chega deslumbrado achando que vai encontrar a perfeição. Aí você volta, conversa com as pessoas e entende os problemas de cada país. Falamos muito da dimensão do racismo no Brasil, mas em cada um desses lugares ele se manifesta de outra forma. Ao mesmo tempo, sinto que no Brasil há muita gente produzindo arte, música e cinema conectados com essas questões, muito mais do que vejo em outros lugares — essa chama é extremamente acesa e potente. Lá fora, muita gente prefere não falar, sustentando um discurso de que política não tem a ver com arte. Para mim isso não faz o menor sentido: arte e política estão estritamente ligadas na vida das pessoas. No Brasil temos mais essa compreensão de como a política influencia cada detalhe do cotidiano e se reflete na arte. Vejo isso com admiração e com uma vontade enorme de continuar fazendo parte deste lugar.
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Trip FM: Você estudou dois anos de arquitetura. O que ficou dessa experiência?
Dora Morelenbaum: A arquitetura conversa muito com a música, por isso fui atrás do curso na época, mesmo já sabendo que não queria exatamente trabalhar com arquitetura. Quando entrei na faculdade eu já tocava, já compunha, mas estava tateando as possibilidades ao sair da escola. Foi muito bom estudar história da arte e ver como isso conversava com a música. Hoje o que guardo é isso: quando estou viajando, consigo entender melhor o espaço, como a cidade se comporta, como o urbanismo muda em cada lugar e influencia a vida das pessoas. Essa percepção continua muito ligada à minha vida.
Trip FM: Para fechar: se você recebesse o poder mágico de mudar uma coisa no Rio, o que faria?
Dora Morelenbaum: Para a maior parte dos cariocas, acho que a resposta seria unânime: aumentar a rede de metrô e de transporte público, que é muito limitada, a gente tem basicamente uma linha e meia no Rio. Aqui em Tóquio, que tem uma das maiores malhas de metrô do mundo, é incrível: você vai para qualquer lugar, chega na hora, tudo é muito controlado. Se eu tivesse essa varinha de condão para criar novas linhas no Rio, faria isso com certeza, democratizar o transporte público para a cidade inteira.
Trip FM é o talk show criado pela revista Trip. Nele, desde 1984, Paulo Lima recebe convidados para um papo que mistura a profundidade do jornalismo com a leveza de uma conversa entre amigos.
