Você é o seu trabalho?

Por que as mulheres se cobram e são cobradas o tempo todo sobre as decisões que tomam em suas carreiras? Camila Pitanga, Juliana Wallauer e outras minas refletem sobre suas escolhas profissionais

por Nathalia Zaccaro em

Tpm / Trabalho / Comportamento / Maternidade / Relacionamento

Trabalhar é se movimentar para interferir no próprio destino. É reação à inquietude natural de todo ser humano. É vontade de evoluir. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, entendia o trabalho como um dos dois pilares fundamentais da nossa subjetividade. O outro é o amor. “Dá pra ser feliz sem trabalhar?”, pergunta Alexandre Pellaes, mestre em psicologia do trabalho pela Universidade de São Paulo. “A verdade é que não dá. Mas é preciso entender que trabalho e emprego estão muito longe de ser a mesma coisa.”

Os empregos são a formalização das relações de trabalho e, desde a Revolução Industrial, se tornaram definitivos para a maneira como a sociedade avalia e se relaciona com cada indivíduo. Um fato marca a relação das mulheres com os empregos: os cargos de maior prestígio e a remuneração historicamente ficam com os homens. Desde o século 19, o movimento feminista briga por acesso justo ao mercado de trabalho. Conquistamos algum espaço, mas a exclusão feminina está longe de ter sido superada.

“O trabalho não estava me deixando viver coisas que são prioridade. Eu estava no auge, mas, para poder avançar mais, tive que recuar. Nesse tempo pude me aprofundar no ativismo, em princípios que já norteavam minha vida", diz Camila Pitanga - Crédito: Pablo Saborido

“Agora a faculdade tem sua própria Globeleza.” Foi isso que a historiadora Giovana Xavier, 39 anos, ouviu em 2013 pelos corredores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia em que se apresentou como a nova professora adjunta da Faculdade de Educação. A rotina dela não é como a dos outros professores. “Depois de gerações de mulheres negras, cheguei em um lugar inimaginável”, diz. “Mas para ser reconhecida, tenho que trabalhar muito mais que a média. A sensação é de não poder errar.” Na internet, Giovana se autonomeou como @pretadotora e desenvolveu no ano passado o catálogo Intelectuais Negras Visíveis, que elenca outras quase 200 acadêmicas negras de diversas áreas em todo o Brasil. A ação visa trazer visibilidade a essas profissionais e estimular mais mulheres negras a ingressarem na área.

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Alta performance

Trabalhar muito é a realidade de inúmeras mulheres. “São de 12 a 18 horas por dia”, diz a promotora de justiça Gabriela Manssur, 44, que foi a entrevistada das Páginas Negras da edição de junho da Trip e é uma das homenageadas com o Prêmio Trip Transformadores. “Minha dedicação é motivo de reclamação dos meus filhos, mas eles me respeitam. Me realizo muito na minha profissão, fico absorvida. É o que me define.” Uma das principais forças do combate à violência doméstica no Brasil, Gabriela atua tanto na proteção das vítimas quanto na educação dos agressores. “Sempre senti que só iria me dar bem se trabalhasse muito, muito, muito”, conta. “Não sei o que seria de mim sem isso. Trabalhar me dá força. Fui criada assim. Vi minha mãe trabalhando muito. Sentia a falta dela, mas tinha muito orgulho também.”

A figura da mulher que investe na vida profissional, se realiza e ganha o próprio dinheiro se enraizou no imaginário feminino como uma referência de liberdade. Mas aprofundar essa experiência de libertação não significa necessariamente trabalhar mais intensamente. “Eu me dedicava full time sem me importar com nada, era workaholic”, diz a atriz Camila Pitanga, 41. “De uns anos pra cá, vim mudando esse equilíbrio. Minhas filhas estão crescendo. Quero manter o tesão no trabalho, quero ter alta performance, mas isso não pode atropelar tudo.”

"Para ser reconhecida, tenho que trabalhar muito mais que a média. A sensação é de não poder errar”, afirma a historiadora Giovana Xavier - Crédito: Pablo Saborido

Uma das principais estrelas da TV Globo, Camila está fora do ar desde 2016, quando viveu Teresa, em Velho Chico, novela que ficou marcada pela trágica morte do ator Domingos Montagner, par romântico de Camila na trama. “É claro que o acidente interferiu na minha decisão de ficar um tempo sem trabalhar, mas essa é uma reflexão que já estava rolando”, conta. “O trabalho não estava me deixando viver coisas que são prioridade. Eu estava no auge, mas, para poder avançar mais, tive que recuar. Nesse tempo pude me aprofundar no ativismo, em princípios que já norteavam minha vida.” Quase um ano e meio depois, ela se prepara para voltar aos estúdios em setembro, quando começa a gravar uma nova série da emissora.

A publicitária Juliana Wallauer, 36, partiu de uma reflexão próxima à de Camila para transformar totalmente sua relação com trabalho. “Minha mãe investiu tudo na minha educação”, explica. “Existia uma expectativa enorme em relação à minha carreira.” Os trabalhos nas agências de publicidade foram empolgantes no começo, mas logo a profissão se resumiu a uma ótima maneira de pagar os boletos. Há seis anos, nasceu o primeiro filho de Juliana. Dois anos depois, ela teve uma menina. “Está tudo certo com a ideia de trabalhar só para pagar as contas, não vejo problema nisso”, diz. “É como a maioria das pessoas vive. Mas, para mim, o tempo longe de casa estava incomodando demais.”

Em janeiro deste ano, ela deixou o mercado publicitário. Agora, atua por conta própria. Juliana é uma das vozes do podcast Mamilos, que trata de temas variados, incluindo o feminismo, e é coordenadora do Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes, podcast infantil que narra a vida de mulheres incríveis. “O eixo da minha vida mudou, saiu completamente da carreira”, diz. “Eu me realizo trabalhando, mas não tem nada a ver com carreira. O projeto mais importante da minha vida são meus filhos.”

A bailarina Camila Ribeiro conta ter sofrido uma lesão que a fez se sentir insegura: “Minha carreira poderia acabar de repente e achava que não saberia mais como viver” - Crédito: Pablo Saborido

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Dona de casa e da própria vida

É sempre duro precisar abrir mão de alguma coisa. Mesmo que seja em nome do que é prioridade. Antes de completar 30 anos, Juliana Bertola abandonou a ideia do trabalho formal e optou por se dedicar integralmente aos filhos. Formada em relações internacionais, ela passou os últimos anos trabalhando na corretora de seguros em que é sócia ao lado do marido. Até decidir bancar o que realmente queria fazer da vida. “O termo dona de casa tem um peso muito grande”, explica. “Dá a impressão de que se escolheu isso, você não é ninguém. O mais difícil pra mim é lidar com esse julgamento, que vem até mesmo do meu marido. Hoje dependo dele financeiramente e não tenho uma carreira. Mas me dei essa oportunidade, ninguém me obrigou.”

Especializada em estudos de gênero, a antropóloga Ana Laura Lobato percebe um movimento recente de positivação da maternidade e dos trabalhos domésticos. “São mulheres investindo na relação com os filhos como uma forma de realização, criando uma narrativa discursiva que valoriza essa posição e o trabalho realizado ali”, diz.

Ter a possibilidade de redesenhar as condições de trabalho é privilégio. De cor, de classe, de gênero. Via de regra, a brasileira é massacrada pelo sistema organizacional laboral. Ou é massacrada pela falta de acesso a ele. Nascida e criada em São Miguel Paulista, periferia de São Paulo, Daniela Andrade, 37, ouviu do pai que pobre tinha que estudar para conseguir um destino melhor. Ela sabia que a área de tecnologia da informação prometia dinheiro e oportunidades. Fez cursos, estágios e uma faculdade. Aos 19, conseguiu o primeiro emprego. “Eu ainda não me apresentava como Daniela, não sabia o que era ser uma mulher trans”, diz. “Saí desse trabalho, entendi minha transexualidade e nunca mais achei um emprego. Só agora, depois de 20 anos de carreira, é que consegui ser CLT de novo”, conta.

"Trabalhar me dá força. Vi minha mãe trabalhando muito. Sentia a falta dela, mas tinha muito orgulho também", diz Gabriela Manssur - Crédito: Pablo Saborido

“Eu sou privilegiadíssima, consegui chegar à universidade”, diz. “Estou empregada em um país com 14 milhões de desempregados, onde 90% das mulheres trans se prostituem. Ter um emprego muda completamente a forma como você é percebida. Hoje, consigo ser ouvida. Mas viver na incerteza, com salários de fome e sempre no aperto é uma forma de discriminação muito violenta.” Em 2016, Daniela desenvolveu ao lado do amigo Paulo Bevilacqua a plataforma Transempregos, que facilita o contato entre a população trans e os empregadores.

Se perceber marginalizado dentro da estrutura social tem efeitos diretos na autoestima e na saúde emocional de qualquer pessoa. “A forma com que o olhar do outro me percebe não tem como não ser constitutiva da forma como eu me percebo”, explica a psicanalista Maria Lucia Homem. “Então ficamos – e talvez estejamos para sempre – presos em um jogo de espelhos quase infinito e, por que não dizer, às vezes, muito enlouquecedor.”

“Saí desse trabalho, entendi minha transexualidade e nunca mais achei um emprego. Só agora, depois de 20 anos de carreira, é que consegui ser CLT de novo”, conta Daniela Andrade, que trabalha na área de tecnologia da informação - Crédito: Pablo Saborido

Desde a infância, centramos nossa subjetividade na ideia de, em algum momento, assumir a posição fundamental de alguém que produz riqueza e conhecimento, alguém produtivo. O sucesso profissional é o auge dessa experiência e a jornalista Claudia Giudice estava acostumada com a sensação. Ela era uma das principais executivas da editora Abril e foi responsável por 40 publicações. “Para mim, era importante ser a melhor”, diz. Até que, 23 anos de trabalho depois, foi demitida.

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“Foi um processo de luto. Fiquei triste pela morte daquela pessoa, da profissional. Eu tinha uma mágoa profunda por ter sido descartada. Mas acabei me conhecendo melhor e hoje sofro muito menos.” Desde 2012, ela é sócia d’A Capela, uma pousada em Arembepe, no litoral da Bahia. “Relutei em aceitar que tinha chegado a hora de encerrar minha carreira”, conta. “O trabalho continua sendo fundamental na minha vida, mas agora lido com tudo de forma mais madura e com menos ego.”

“Está tudo certo com a ideia de trabalhar só para pagar as contas, não vejo problema nisso”, diz Juliana Wallauer, uma das vozes do podcast Mamilos - Crédito: Pablo Saborido

No fim de 2016, a bailarina Camila Ribeiro sentiu dores no quadril e teve que enfrentar a possibilidade de não voltar a dançar profissionalmente. “Saí do consultório médico, fui encontrar meu pai e chorei durante horas”, lembra. “Minha carreira poderia acabar de repente e achava que não saberia mais como viver.” As dores passaram e ela não precisou abandonar a profissão, mas, aos 32, o peso da idade já começa a assombrar a cabeça de uma bailarina profissional. “Percebi que me defino, sim, pelo trabalho, já que dançar é meu ofício. Mas, para isso, não dependo de ninguém, de nenhum emprego. Essa certeza me trouxe muita liberdade.”

Reconhecer o valor da própria profissão, se descolando das chancelas sociais que historicamente determinam o que deve ou não ser prestigiado, é fundamental para experimentar uma relação justa e livre com a capacidade criativa individual. Trabalhar é processo de cura, de evolução. “Por meio da nossa ação, transformamos o mundo e nos tornamos reais”, diz Alexandre Pellaes. O desafio é se colocar como quiser e como puder. E brigar para ser reconhecida (e bem paga) por isso.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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