por Renata Leão

O meu também. Mas dá pra viver mais em paz com algumas ferramentas, como a meditação. Um monge indiano promoverá uma pausa coletiva este mês, no Rio e em São Paulo

O mundo parece, mais do que nunca, estar do avesso. Quem aí não está vivendo grandes transformações? E conhece mais um tanto de gente que também está? Fora a intolerância. Religiosa, sexual, social, política. Tem hora em que dá vontade de parar tudo e simplesmente descer. Eu sei. Tenho, eu própria, vivido transformações profundas na minha vida – e procurado, da melhor maneira possível, fluir sem sofrer, nesse momento tão peculiar. Mas nem sempre é fácil.

Há exatos dez anos encontrei recursos poderosos para viver as oscilações da vida sem sucumbir tanto: a meditação, a prática de bhakti yoga (ioga devocional, como, por exemplo, a recitação de mantras) e o karma yoga (ioga da ação desinteressada, do serviço ao próximo). E tudo isso veio para mim em pleno escritório: na redação da Trip, em 2006.

Eu ainda vivia do jornalismo. Era "a repórter que gostava dessas coisas" (leia-se: as coisas que vêm do Oriente, as ciências ocultas, os mistérios). Depois do telefonema do primo de uma amiga, topei receber dois monges para conversar sobre a fonte de inspiração e orientação deles, a tal da Amma.

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Quem?! Também exclamei assim. Perguntei ao Google, e meu coração quase explodiu só de olhar a carinha dela na tela do computador. Reconhecida pela ONU, Amma é uma grande líder espiritual e autora da "obra humanitária mais completa em larga escala da atualidade".

Jamais me esquecerei daquela manhã em que a recepcionista ligou no meu ramal: "Renata, tem dois senhores de laranja te esperando aqui em baixo". Desci, toda acelerada, com meu bloquinho e um gravador (sim, daqueles de fita K7... outros tempos). Quando os vi, entendi: era sério. Monges vestidos de laranja! Não pareciam normais. Transmitiam calma instantânea, falavam devagar, sempre rindo e balançando a cabeça à moda indiana. Comecei a entrevista. E, ao longo do papo, fui ficando meio tonta. (Não sei por quê. Só sei que passei o dia inteiro assim, “meio tonta”.)

 

OLHAR PRA DENTRO

Um deles era o Swami Ramakrishnananda Puri – atenção a esse nome: ele fará eventos no Rio e em São Paulo daqui alguns dias! Swami significa monge, ou "homem santo", em sânscrito. Alguém que escolheu abdicar da vida mundana para viver o serviço abnegado e a espiritualidade. No caso dele, me chamou a atenção o fato de ser economista, de família de casta alta (sim, a Índia ainda tem isso!). E de ter escolhido largar a carreira promissora em um banco indiano para viver perto da Amma – a Amma é de uma casta baixa (nascida 64 anos atrás em uma vila de pescadores, ao sul de seu país, vem de uma família pobre, paupérrima. E, surpreendentemente, é mulher – sim, a Índia ainda tem isso... infelizmente, ainda tem).

A maneira como o monge falava de sua mestra me tocou forte. De um respeito profundo. E o modo como se referia aos "problemas da vida moderna" também. Sempre direcionando a conversa para o único lugar onde é possível encontrar alguma paz: dentro de nós, e não fora. Depois desse dia, nunca mais fui a mesma.

Um ano se passou, e a Amma (nome que significa "mãe" em sânscrito e é como os devotos a chamam. Seu nome é Mata Amritanandamayi) veio ao Brasil. Desembarcou no Rio de Janeiro em 2007. Eu estava grávida da minha primeira filha, um barrigão de 36 semanas. Mas nada me impediria de conhecer aquela mulher tida como santa, que curava com seu abraço e que movia montanhas com suas ações humanitárias mundo afora. Meu médico me achou louca: “Como assim pegar um avião com esta barriga?”. Então, fui de ônibus.

 

AMOR COMO EU NÃO SABIA EXISTIR

Cheguei ao Rio e me espantei: quanta gente tinha ido ver a Amma! Era muita gente. Mesmo. Um formigueiro. Lá, encontrei o Swamiji (querido Swami, como os mais próximos o chamam). E, por conta do barrigão, logo estava nos braços da Amma, recebendo o meu abraço. Não dá para explicar com palavras o que é receber esse Darshan (bênção) da Amma. Eu nunca tinha sentido tanto amor. Ela me deu uma maçã e balbuciou palavras em malaiala, sua língua natal, no meu ouvido. Não consegui mais levantar. Precisaram me sentar numa cadeira ali perto. Quando "voltei" daquela inundação de amor, encarei a maçã, e o Swamiji me disse, rindo: "Come! A Amma disse que é para o bebê!". Comi.

Fiquei lá mais um tempo vendo a Amma abraçar com o mesmo imenso amor cada pessoa que chegava até ela (para sempre na minha memória o abraço que deu no finado e amado Professor Hermógenes!). Participei de uma sessão de meditação conduzida por ela e pelos swamis de que nunca me esqueci. Desde então, essa prática ficou enraizada no meu ser.

Minha filha nasceu, depois veio o segundo. E eu fui para a Índia ver a Amma algumas vezes, me tornei instrutora da técnica de meditação que ela desenvolveu e que é ensinada gratuitamente em todo o mundo. E vi minha vida se transformar profundamente de lá pra cá. No sentido de me tornar muito menos suscetível às intempéries do mundo; e muito mais centrada no meu ser, no meu eixo. Me tornei uma pessoa infinitamente mais calma, mais confiante no fluxo da vida. E muito mais alegre.

Hoje faço parte do Grupo Amma SP, e o Swami Ramakrishnananda é nosso mentor. Há mais de 40 anos, desde que deixou a carreira no banco, ele dedica sua vida ao próximo, por meio da imensa obra humanitária da Amma. Já faz uma década que ele tem vindo ao Brasil quase todo ano, para compartilhar seus aprendizados e as vivências de uma vida pautada na escolha de viver como um monge, em um ashram (centro espiritual) na Índia, sob a orientação da Amma, essa mulher que já confortou com seu abraço mais de 35 milhões de pessoas, que afirma que sua religião é o amor e que não há diferença alguma entre gêneros, classes sociais ou deuses. A mulher que diz que todos somos um. E que traduz isso em ações inacreditáveis (vale dedicar um tempo aqui).

Toda essa história para convidar cada um de vocês a estar com o Swamiji, e absorver seus ensinamentos, nos programas abertos que ele fará no Rio de Janeiro e em São Paulo nos próximos dias. Todos são bem-vindos. É só chegar – assim como eu, um dia, cheguei.

 

Vai lá: 

RIO DE JANEIRO

- Dia 22 de outubro, domingo, às 18h30
Local: IAB – Beco do Pinheiro, 10 (esquina com a Rua 2 de dezembro, 41), Flamengo.


- Dia 24 de outubro, terça às 18h30 (Araruama)
Local: Templo Amrita – rua Simonides Nunes de Almeida Filho, 296, Fonte Limpa. Necessária a pré-inscrição para este programa, no link.

 

SÃO PAULO

- Dia 27/10, sexta-feira, às 20h: programa aberto com palestra, sessão de perguntas e respostas, meditação e cantos devocionais.

- Dia 28/10, sábado, às 9h: Cerimônia para a Paz Mundial e Mãe Natureza e puja à maneira realizada no ashram da Amma, em Amritapuri, na Índia. Pré-inscrição no link.

Ambos os programas em São Paulo acontecerão no Espaço Mie Kaikan – Av. Lins de Vasconcelos, 3352, Vila Mariana.

Para mais infos: amma-sp@ammabrasil.org

 

*Renata Leão é jornalista. Mas hoje dedica seus dias ao ayurveda e ao Pausa Para Conectar, seu projeto de meditação.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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