"Não consigo ser Beyoncé, o negócio é ser Conka"

Karol Conka fala sobre sua regravação de Sabotage, o novo disco, fama, privacidade e Marielle Franco

por alexandre matias em

Tpm / Rap / Música / Moda

Nas rimas de seu primeiro hit, “Boa Noite”, de 2013, Karol Conka já plantava a semente de uma futura relação com um dos nomes mais importantes do rap nacional: “salve Sabotage, MC de compromisso, cumpre seu papel no céu, que aqui a gente te mantém vivo”. E é mantendo vivo o legado do rapper paulistano que a curitibana abre os trabalhos rumo ao seu novo álbum, que deverá ser finalmente lançado em maio.

No dia 4 de abril, ela lança sua versão para “Cabeça de Nego”, uma das músicas mais emblemáticas do MC assassinado há quinze anos. Com sabor jamaicano e refrão samba-reggae, a música é um dueto com a gravação original de Sabotage e teve produção conjunta entre a dupla Instituto (Rica Amabis e Tejo Damasceno) e Péricles  Martins (Boss in Drama), este último responsável por dar corpo e forma ao tão esperado segundo disco de Karol, já batizado de Ambulante.

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Rica Amabis, DJ Hadji, Karol Conka, Tejo Damasceno e Péricles Martins

O single não estará no novo álbum, mas funciona como um abre alas para a fase que começa. “Cabeça de Nego” chega às plataformas digitais acompanhado de um clipe gravado na favela do Boqueirão, na zona sul de São Paulo. "Em tempo de músicas com hits e bordões, eu me preocupei mesmo em mostrar minha raiz", diz. 

Se manter fiel a sua autenticidade é prioridade para a curitibana. "Quando me liguei que ia entrar nesse mundo da fama, que ia ser parada na rua, percebi que não posso ser uma pessoa que não sou. Tenho que ser real o tempo inteiro." Para além da música, Karol se tornou referência de moda, de feminismo, de empoderamento negro. E quer mais. "Pretendo me enfiar no cinema, tenho muita vontade. Já tenho alguns convites", conta. Assim como Sabotage, a rapper não enxerga limites.

Ela conversou com a Tpm sobre o single, o disco, a nova fase de sua carreira e o cenário brasileiro. 

Você lembra da primeira vez que ouviu o Sabotage? Nos ano 2000 tinha muita pirataria. Minha prima comprava esses CDs, pegava emprestados e entre eles tinha o do Sabotage. Comecei a ouvir, ouvir, ouvir… Nessa época, já tava cantando rap. Uma coisa que me chamou atenção é que ele era muito estiloso, tinha uma coisa de liderança, era diferente de todos os outros grupos da época — todo mundo cantava muito parecido aos Racionais. Fiquei encantada com ele. Quando vim pra São Paulo, o Helião, do RZO, disse que eu era a versão feminina do Sabotage, porque era a única que fazia o mesmo que ele, de transitar por todos os lugares — pelo cinema, falava com o pessoal do rock, assumia que curtia Sandy & Junior. E ninguém colocava o talento dele em dúvida. Quando conheci o Hadji, DJ que tinha tocado com o Sabotage, ele falou: “Cara, você é igual a ele. É ansiosa, é líder, quer fazer tudo ao contrário do que tão falando pra fazer, não se importa com as regras que eram pra ser seguidas no rap”. Todo ano que fazem alguma comemoração ao Sabotage, tenho vontade de gravar uma música dele, mas nunca tive essa oportunidade e disposição.  

Capa da Revista Trip de março de 2003, com retrato clássico de Marcio Simnch, fotógrafo convidado para recriar o mesmo ensaio, agora com Karol Conka - Crédito: Foto de Marcio Simnch

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Apresentar uma nova fase da carreira gravando um clássico do rap nacional é uma forma de mostrar os rumos do novo disco? Poderia ter escolhido outra música, mas é uma coisa de coração, é real. Posso cantar Sabotage, fazer uma foto com o cabelo dele e representá-lo. Tenho asas, mas minha base é o rap. Por isso que no show sou eu e o DJ, não boto bailarino, acho que não tem nada a ver. Quero o palco só pra mim [risos]. Uma vez, tive bailarino e bati o braço na cara do menino. Não consigo ser a Beyoncé, o negócio é ser Karol Conká. O meu forte é a autenticidade que carrego.  

E você tem espalhado isso para outras áreas, como apresentando o programa Superbonita, no GNT. O que mais tem feito, além de TV? Estou sempre estudando moda, sou uma referência e trago tendências para o meu público, pra quem quer sair da mesmice. Brinco que sou um E.T., porque sou bem fora do padrão mesmo. Pretendo me enfiar no cinema, tenho muita vontade. Já tenho alguns convites.

E como você consegue equilibrar essa realidade do rap com o mundo das celebridades? Quando me liguei que ia entrar nesse mundo da fama, que ia ser parada na rua, percebi que não posso ser uma pessoa que não sou. Tenho que ser real o tempo inteiro. Então, se fumo maconha, tenho que assumir de cara. Não quero namorar ou beijar alguém escondido porque pintei que sou uma artista que não sou. É muito fácil um artista se perder porque é muita gente falando. Ele é muito carente, vai procurar aprovação da galera de fora. E esse tipo de coisa vai tirando sua personalidade e seu objetivo. O medo atrapalha, de parecer não sei o que, de ser vista fazendo tal coisa. Esse medo que muitos amigos famosos têm eu não tenho porque sou real. E isso é o rap que me traz. Percebi que não preciso estar com várias pessoas ao meu redor, mas com poucas, as reais. São eles que vão me falar quando estiver sucumbindo ou cometendo alguma gafe. Almejo o sucesso, a fama é uma consequência.

"Quando me liguei que ia entrar nesse mundo da fama, que ia ser parada na rua, percebi que não posso ser uma pessoa que não sou" - Crédito: Marcio Simnch

Mas você se policia o tempo todo? Sim, sempre fui assim, regradinha com algumas coisas. Sou cuidadosa com a minha vida. Uma vez um repórter perguntou por que as pessoas não falam sobre a minha vida pessoal e a resposta é simples: porque não falo dela. As pessoas vão comentar sobre o que você diz. Não falo se estou namorando, se transei hoje, não fico postando.  

Como foi o processo de gravação com o Péricles? Lembro quando escrevi uma música e falei que ia dar pra alguém cantar porque não tenho voz.  “O quê? Claro que você tem”, ele falou. Tocou Rihanna no piano, comecei a cantar e pensei: “Ah, posso cantar!”. Por mais que seja poderosa e tal, tenho minhas inseguranças e mostro elas. No meu disco anterior, o Batuk Freak, mal exploro minha linha vocal, mas neste não, me jogo, porque fui encorajada. Quando o artista encontra pessoas que extraem o melhor dele é a melhor coisa. Quero pessoas que falem a real: “Isso não tá legal, teu tom não é esse”.

Regravar uma música do Sabotage no Brasil de 2018 tem um teor político. Qual seu papel nessa história? É mostrar força pra quem pensa em sucumbir. As mensagens que recebo diariamente são muito tristes. Depois da morte da Marielle Franco muita gente está sem esperança. Conversei com a MC Carol, que foi candidata à vereadora e ela estava muito em choque, até fez uma música sobre isso. A gente se perguntou o que podia fazer. Chorar só escondido. Não dá pra ficar mostrando abalo, não é isso que a Marielle queria. É força, luta. É uma perda muito grande, a dor é imensa, fico arrasada, mas a gente tem milhares de pessoas que nos usam como referência. Não somos protagonistas à toa. Agora é a hora da gente juntar mais força ainda, focar realmente na solução. So-lu-ção. Mas como fazer isso? Mantendo contato com pessoas que têm essa mesma disposição, que estão quase sucumbindo. Como artista, também fico numa posição de risco, por ser porta-voz. A morte de Marielle foi tipo um aviso, foi um cala-boca pra todo mundo, “parem de encher o nosso saco”. Nunca me envolvi com política, não falo sobre isso, mas as pessoas sabem qual é a minha posição, tá escancarado na minha cara.

Créditos

Imagem principal: Marcio Simnch

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