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Envelhecimento, relacionamento aberto, machismo… A atriz Júlia Rabello defende a piada como ferramenta para tocar e refletir sobre temas espinhosos

por Bruna Bittencourt em

Tpm / Humor / Casamento / Feminismo / Relacionamento

“O que eu quero, Mario Alberto, é foder. Agora você repara que não falei fazer amor, não falei transar. Eu não falei nheco-nheco, eu falei foder. Fo-der.” Foi com Sobre a mesa, vídeo de 2012 do Porta dos Fundos em que listava ao marido, incrédulo, todos os homens com quem queria transar (do time da Nigéria ao exército de Israel), como se passasse a lista do supermercado, que Júlia Rabello ficou conhecida – são 23 milhões de visualizações até hoje. Era o humor nonsense típico do grupo, do qual ela fez parte por três anos.

Mas muito antes de ser humorista, Júlia era atriz. Em 2019, completa 20 anos de carreira. Além da internet, tem dezenas de trabalhos na TV (as novelas Rock story, A regra do jogo e o humorístico Vai que cola), no cinema (Os homens são de Marte…e é pra lá que eu vou, entre outros) e no teatro (onde interpretou alguns dramas). Encarna agora o papel de apresentadora, à frente de um reality show gastronômico, ao lado de Claude Troisgros (Que marravilha – Aula de cozinha, no GNT). “Eu faço tudo, até telegrama”, diz.

“Héteros dão um puta trabalho. Tem que ficar puxando: vem, hétero, vem”
Julia Rabello

Júlia, 37 anos, é uma aquariana em corpo de leão, como se define, nascida em Niterói e no mesmo dia que Madonna. Teve um relacionamento de mais de uma década com outro humorista e ator, Marcos Veras, que a definiu como a Dercy Gonçalves da nova geração – sem os palavrões.

No palco da Casa Tpm, ela respondeu a perguntas sorteadas de uma caixa. A seguir, os melhores momentos, em que falou de relacionamento aberto a envelhecimento, sem perder a graça.

Crédito: Pablo Saborido

Tpm. Qual a pergunta que você não aguenta mais responder, em entrevistas ou de pessoas que te abordam na rua?

Júlia Rabello. São fases. Teve uma muito longa que era “qual o limite do humor?” e “quando você vai ter filho?”. A atual é maravilhosa: “Está namorando?”. E aí falo que estou muito feliz. E continuam: “Mas isso é o quê?”. E eu falo que estou feliz. E a pessoa pergunta: “Mas é namorando, então?”. Vou desconversando. “Você ainda não entendeu que não vou responder isso?”

Como você se imagina velha? Sempre tive cara de velha, desde que tinha 12, 13 anos. Aí vou envelhe-cendo e não vou envelhecendo. Mas desde os 15
tenho cara de 40.

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Como lida com o envelhecimento? Se a gente vivesse em uma sociedade que aceitasse melhor pessoas mais velhas, seria mais fácil. Tento planejar o que vou fazer. Sou atriz, mulher e moro no Brasil. Normalmente, tem um tempo limitado para a gente, chega uma hora que é descarte. Então, como faz? Não tenho uma resposta. Se alguém tiver, por favor, me manda uma direct pelo Instagram. Mas já estou começando a pensar sobre isso, sim. Não chega a ser um pavor, porque tem uma beleza. Velhice é uma construção, como musculação. É um exercício do seu caráter, da sua personalidade. Então, desde nova tento trabalhar o que seria um bom processo de amadurecimento. Quero ver o lado bom disso, uma vez que o Brasil não trata a velhice de uma forma muito interessante, especialmente a das mulheres.

Crédito: Pablo Saborido

 Qual é a verdade sobre o casamento que as pessoas esquecem de contar? Eu acredito nas relações, não só no casamento. Acho que hoje em dia as pessoas se esquivam muito, têm medo de relacionamentos. E entendo, mas acredito no casamento. Acho que ele não é para todo mundo. Estabelecer um compromisso com uma pessoa todo dia e querer compartilhar a vida inteira é para guerreiros. Existem milhões de travessias nesse percurso ao longo dos anos. É como jogo de videogame, vai ficando cada vez mais difícil. Mas parece que seu personagem também vai ficando mais interessante. Acho que é para quem tem interesse nisso. E você também tem que encontrar um bom ou uma boa parceira para aquele jogo, que vai durar um bom tempo, que seja legal.

Você já teve – ou teria – um relacionamento aberto? Não sei se tenho força para isso. Acho o máximo quem consegue, uma disponibilidade para a vida... Ainda não consegui, mas quem sabe... Ainda sou muito limitada. Tenho vontade, porque acho que super funciona. Quer dizer, não sei. Afasta e olha de longe: faz sentido. O problema é quando aproxima e vê que é você. Aí fodeu. “Nem fodendo que você vai pegar essa pessoa aí, meu filho.”

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Já ficou com mulher? Também acho a ideia maravilhosa, porque simplificaria muita coisa pra mim. Mas não, fico ali trabalhando, os héteros dão um puta trabalho. Tem que ficar puxando, “vem, hétero, vem”. A mulher e o homem gay são mais sacudidos. Para o hétero você fala: “Vem, meu filho, você não entendeu ainda? Vamos!”.

O mundo do humor ainda é muito masculino? A gente vem debatendo muito o espaço da mulher e, se estamos discutindo, é porque ainda é masculino. É isso que a gente está tentando falar: “Oi, ei, psiu, vamos compartilhar isso aí?”. Então, claro, é muito masculino. Quando entrei no universo do humor, era muito doido porque tinha muito de “mulher não pode falar sobre isso, comporte-se”. E ainda ouço muito isso. Comparando com meus amigos homens que fazem humor, eles chegam a territórios que, para a gente ir, tem que usar uma lógica completamente diferente. E acho que nós temos que nos blindar, porque como o mundo acha que o corpo feminino é uma coisa pública, quando a mulher faz humor, às vezes fica meio exposta. Já passei por situações em que falei: “Calma aí, você não está sabendo separar as coisas. Estou brincando”. Porque a gente brinca com tudo, com sexualidade, com o outro.

Crédito: Pablo Saborido

Dá para usar o humor contra o machismo? Com certeza. É engraçado, acho que o humor às vezes é desvalorizado em comparação ao drama, que eu amo. Acho que vocês perceberam, sou bem dramática. Mas a gente vê que os humoristas são menos valorizados. Não entendo, porque é uma forma de dar um sacode, de fazer a pessoa pensar sem causar tantas barreiras. Às vezes, em uma gargalhada a pessoa fala: “Ih, mas não é que.. Olha...”. É a melhor maneira. É claro que, dependendo do grau que você usa na piada, ela pode doer até mais. Mas uma piada branda vai chegando como um cafunezinho e, quando você vê, já está ali, entregue, como um cachorrinho. 

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