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Manual de Sobrevivência Sem Anestesia

Aprendi cedo que intensidade assusta e que mulheres são treinadas para caber. Para suavizar. Para permanecer desejáveis. A bebida entrou depois. Por alguns anos, o álcool me serviu para suspender vergonhas, culpas e carências. Parecia poder, liberdade. Mas o mesmo álcool que promete descanso deixa um enorme vazio – e um rastro de destruição.

Reli outro dia a minha primeira redação, que tenho guardada milagrosamente. O tema era: “Se eu fosse…”. Eu escrevi: ser o Sol. Não “médica”, “cineasta”, “advogada”, “escritora” ou “professora”. Se eu fosse O SOL. A redação termina da seguinte forma: “eu alimentaria e iluminaria todo o mundo. E seria aplaudida. E amada.” De alguma forma, eu sentia que precisava ser extraordinária e necessária.

Venho de uma família amorosa. Cada um com seu pacotinho de problemas, mas nunca vi meus irmãos ou meus pais beberem exageradamente. Nunca me faltou amor, mas um certo desconforto e uma inadequação sempre fizeram parte da minha vida. Eu era feliz. E angustiada. Tudo o que sentia, sentia muito. Me achava exagerada, dramática, e hoje entendo isso como um sintoma.

/ Créditos: Arquivo pessoal

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A personalidade adicta começa antes da substância. Na intensidade sem muita margem, na dificuldade de suportar ambivalência ou conviver com contradições. Na impossibilidade de ser apenas suficiente. Assim fui crescendo, inserida e deslocada ao mesmo tempo.

Muito cedo, veio a pergunta que as mulheres mais fazem na vida: O que em mim precisa mudar para que alguém fique?

Hoje chamaria de “minha primeira relação tóxica” ou “meu primeiro narcisista”. Esse amor ocupava o mesmo lugar que o álcool encontrou tempos depois. Eu queria, mas sabia que havia algo errado e que eu deveria me afastar. Mas ficava até transbordar. E assim foi em vários encontros na vida – e não só os amorosos.

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Muito cedo veio a pergunta que as mulheres mais fazem: o que preciso mudar para que alguém fique? O álcool foi uma forma de não sentir esses questionamentos que nunca desapareceram. O que falta em mim? O que sobra em mim? A bebida fazia o ruído diminuir, a vergonha baixar o volume, a tensão afrouxar. Suspendia meus excessos com outros excessos. O álcool me dava presença sem negociação, eu ocupava espaço sem calcular. Parecia poder, mas o alcoolismo opera em silêncio. Quando percebi, já não era escolha, era doença.

/ Créditos: Arquivo pessoal

Vivemos exaustos num país onde a desigualdade é estrutural e a anestesia é cultural e altamente lucrativa.

Mas esta não é uma história só minha. Vivemos exaustos num país onde a desigualdade é estrutural e a anestesia é cultural e altamente lucrativa. Suportar virou virtude e sobrecarga símbolo de sucesso.

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Eu sigo querendo salvar o mundo, mas não me levo tanto a sério. Sigo amando e sendo amada, sentindo tudo muito. E há um tempo já não bebo, porque não posso beber. Simples assim. Quero permanecer sem anestesia, sem edição, sem diminuir o brilho para caber.

Talvez eu nem precise ser o Sol. Ou talvez eu já o seja.  Só por hoje.

/ Créditos: arquivo pessoal
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