Meu Professor Abusador

Exclusivo: estudantes relatam situações de terror psicológico, intimidações e carícias inapropriadas durante reuniões de orientação pedagógica. Professor universitário nega acusações

por Juliana Sayuri Larissa Linder em

Tpm / ASSÉDIO / Feminismo / Polícia

Um abraço apertado, demorado, do qual as estudantes não conseguiam se esquivar. Os dedos, deslizando pelo corpo e, intrometendo-se dentro da camiseta, acariciavam as costas das alunas e ficavam brincando com o fecho do sutiã. Os olhos indicavam a iminência de um beijo indesejado. O professor pediu para uma universitária sentar no seu colo; para outra, abriu as pernas e a puxou para perto de sua virilha.

Este era o comportamento de um professor de história do Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (Faed-Udesc), campus de Florianópolis, segundo as acusações que foram feitas por mais de dez estudantes desde meados de março. Uma das acusações inclui estupro. 

É a história de A., de 21 anos. A. conhecia o professor e sua família antes de ingressar na universidade – o docente era amigo de seus pais. A jovem se encontrou com o mentor na noite de 7 de fevereiro para discutir assuntos acadêmicos durante um jantar na cidade de Palhoça, a 15 km da capital catarinense. Dado o adiantado da hora, o docente convidou a pupila para dormir na sua casa, para que ela não precisasse voltar tarde para a periferia de Florianópolis. Nessa noite, o professor teria forçado uma relação sexual sem consentimento de A. Os nomes dos envolvidos foram omitidos para preservá-los.

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Inicialmente, os rumores sobre o comportamento abusivo do professor foram tratados apenas como diz-que-diz. Mas, após a acusação oficial de A., outras alunas começaram a conversar e descobriram que muitas tinham passado por situações semelhantes durante as sessões individuais de orientação pedagógica com o historiador, na sua sala, sempre a portas fechadas.

Em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, diversas alunas decidiram denunciar a conduta do docente à direção da faculdade, que levou o caso à ouvidoria e à reitoria da universidade. Este primeiro dossiê que detalha depoimentos das estudantes foi obtido com exclusividade pela Tpm.

De rumores a acusações formais, as denúncias surpreenderam o quadro da universidade. No dia 21 de março, a universidade encaminhou o processo à Procuradoria-Geral do Estado. O Ministério Público também foi informado sobre o caso. Até 10 de abril, nove jovens registraram boletins de ocorrência de assédio sexual na 6a Delegacia de Polícia de Florianópolis, que instaurou inquérito. A denúncia de estupro está sendo investigada pela unidade de Palhoça, onde teria acontecido o crime.

"Elas relataram que o professor as constrangia com interesses sexuais. Todas lembraram de um detalhe: ele as abraçava, investia as mãos por dentro da blusa e acariciava as costas delas", conta o delegado Paulo Henrique Ferreira, responsável pelo caso. Afastado da universidade após apresentar um atestado médico no dia 19, o docente deve ser interrogado nos próximos dias.

Procurado pela reportagem, o professor preferiu se manifestar mediante seu advogado, Hédio Silva Júnior. Segundo a defesa, o docente admite relação sexual com a primeira estudante, mas afirma que foi consensual. Às demais acusações, também declara inocência. "Não tivemos acesso ainda ao teor de todas as denúncias de assédio. Ainda não nos inteiramos de tudo, então não podemos responder contestando detalhadamente as demais acusações", diz Silva."O professor está se preservando, vítima de um verdadeiro linchamento. Não foi alvo de nenhuma agressão física, mas a julgar pelos posts nas redes sociais e cartazes no campus universitário, já foi condenado", critica.

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A defesa afirma que o docente está à disposição para colaborar com as autoridades. “Ele deve ser ouvido. Os dois lados devem ser ouvidos e a palavra final é do judiciário”, diz o defensor. Num post público no Facebook e no Twitter, o acusado se diz traído por “ações movidas por ingratidão". “Cedo ou tarde a verdade prevalecerá”, escreveu na manhã de 19 de março.

Modus operandi

Historiador, autor de dez livros, na casa dos 50 anos, o professor integra o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da universidade.

No dossiê encaminhado à ouvidoria, as estudantes relatam que, na condição de bolsistas do núcleo, uma das obrigações era comparecer a orientações pedagógicas particulares com o docente. Nessas reuniões, o coordenador pedia relatórios de atividades e um "planejamento pessoal", um arquivo que deveria indicar as aspirações acadêmicas das alunas, seus pontos fortes e fracos, seus planos para os próximos dez anos.

Segundo a advogada Isadora Tavares, que representa nove estudantes, foi identificado um modus operandi nas práticas do supervisor: a certas alunas, o mentor pedia encontros semanais, em uma sala sem câmeras de segurança e sem celular. Ali teriam ocorrido os abusos. No argumento da advogada, era uma forma de controlá-las, pois sua posição na hierarquia universitária lhe permitia escolher estudantes a serem contemplados com bolsas de pesquisa.

As alunas também precisavam elaborar um tipo de agenda semanal, informando seus horários. Questionava-se a vida pessoal das bolsistas: "Quero saber onde você está em cada minuto, desde a hora que acordar até a que dormir", teria dito o catedrático, segundo um depoimento presente no dossiê.

Além de pressões psicológicas e intervenções nos rumos profissionais das estudantes, os depoimentos detalham contatos físicos íntimos e inapropriados nos encontros.

“Ele já me disse uma vez que eu era dele, pertencia a ele. Ele te faz lavagem cerebral, te promete uma vaga no mestrado e no doutorado”

"(...) Certa vez, a pior de todas, ele me chamou pra conversar. Me abraçou de novo, mais beijos no rosto. Estava com uma blusa solta, e do nada ele colocou a mão por baixo dela, ficou alisando as minhas costas. Lembro de ficar com os olhos arregalados, de começar a ficar nervosa e com medo de que aquilo ficasse ainda pior. Quando me soltou, ficou me encarando, cheguei a ter a impressão de que iria me beijar na boca, fiquei com um frio na espinha", narrou a estudante X.

"(...) Ele já me disse uma vez que eu era dele, pertencia a ele. Que tinha que ser leal somente a ele e que era o único homem da minha vida. (...) Ele te faz lavagem cerebral, te promete um Currículo Lattes grande, uma vaga no mestrado e no doutorado, se você continuar sendo bolsista dele. Mas só que tudo isso tem um preço. É o terror psicológico para fazer o que ele acha certo. São as passadas de mão pelo seu corpo. São as frases elogiando como você é bonita e gostosa. É a afirmação de que você é dele. Ele é perigoso, e eu tenho medo todo dia que piso na faculdade", relatou a estudante Y.

Fora do campus, as jovens afirmam ter recebido mensagens no Facebook e no WhatsApp, como "meu dia começa bem depois de um abraço, mega super gostoso seu". A respeito de uma das bolsistas, ele teria dito: “Ela sabe que é uma mulher cis de verdade, sabe que é sexy e gostosa”.

O Laboratório de Relações de Gênero e Família da universidade manifestou apoio às autoras das denúncias. “Somos mulheres de diferentes classes sociais, origens étnicas, orientação sexual, identidades religiosas, idades, entre outras diferenciações, e estamos todas suscetíveis a graus variados de vulnerabilidade e violência”, diz a nota, que incentiva jovens a não silenciar sobre assédios. Algumas alunas se afastaram do campus e/ou do núcleo; outras afirmam que, após as denúncias, estão recebendo ameaças.

O campus foi tomado por cartazes improvisados com dizeres como “Bota os B.O. no Lattes”, com a hashtag #MeuProfessorAbusador.

Desde 1994 na universidade, esta é a primeira vez que o professor é alvo de acusações desta dimensão, incluindo investigação policial e processo administrativo. Entretanto, rumores sobre a conduta imprópria do historiador datam de anos antes: além dos burburinhos de 2017, relatos sobre assédios sexuais pipocaram, no mínimo, há quatro anos. Questionado à época, o docente respondia que as acusadoras "eram loucas, que tomavam remédios ou estavam drogadas”, diz o dossiê.  

"(...) Você não tem amigas, deve lealdade somente a ele. Você não pode confiar em ninguém que não seja ele, não pode namorar, noivar, nada. (...) 'As outras meninas são invejosas, indisciplinadas, são tudo que há de ruim e você não precisa delas', é isso que você ouve dele, pra desarticular as mulheres. Se nós não conversamos, não desabafamos e não nos unimos contra ele", escreveu a estudante Z. Mas, desta vez, elas conversaram.

Pós-primavera feminista

Assédio nas universidades não é novidade. Segundo estudo do Instituto Avon/Data Popular de 2015, 67% das mulheres já sofreram um tipo de violência (sexual, psicológica ou física, por exemplo) nos campi; 56% já sofreram assédio sexual, o que inclui comentários com apelos sexuais indesejados, cantadas ofensivas e abordagem agressiva.

Além da Udesc, outras universidades estão lidando com casos atualmente: em agosto passado, uma aluna denunciou um professor de medicina veterinária da Universidade Federal de Goiás, campus de Jataí; em março, uma denúncia foi feita na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, campus de Bauru.

“É difícil precisar números absolutos de casos de assédio sexual, pois ainda são crimes subnotificados. Mas o que certamente aumentou é o número de notificações formais desses casos, na esfera criminal ou no âmbito administrativo das universidades, no Brasil todo", diz a advogada Marina Ganzarolli, que atua há dez anos na área e acompanhou diversos casos de denúncia de assédio sexual e estupro em instituições como Universidade de São Paulo (USP), Federal de São Paulo (Unifesp) e Federal de São Carlos (Ufscar).

Cofundadora da Rede Feminista de Juristas, Ganzarolli atribui o aumento de notificações ao fortalecimento de coletivos feministas dentro das universidades e às discussões (on e offline) sobre cultura do estupro, culpabilização das vítimas e estereótipos de gênero. "Ainda falta sensibilidade e estrutura para acolher vítimas de violência sexual no Brasil. Aí as vítimas pensam: onde posso buscar ajuda? Esse vazio é preenchido por ativistas, institutos feministas, novos movimentos, mídias digitais", analisa Ganzarolli.

No caso de Florianópolis, que anualmente abriga o Fazendo Gênero, um dos maiores congressos "do gênero" no país, são fortes o LABGEF-Udesc e o IEG-UFSC, da Universidade Federal de Santa Catarina, além de movimentos sociais e iniciativas jornalísticas como o Catarinas. Na Udesc, a líder estudantil Maria Carolina Martini também vê a formação de uma recente rede de apoio, com articulações do centro e do diretório acadêmicos, acompanhamento psicológico e assessoria jurídica. "Há histórias de casos antigos, que se arrastam há anos, mas nunca foram para frente. O acolhimento agora motivou as meninas. Deu confiança para saírem do silêncio", diz.

Desde 2015, marco da “primavera feminista” no país, discussões sobre assédio ocuparam a internet, com campanhas e hashtags como #MeuPrimeiroAssédio, #EuNãoMereçoSerEstuprada e #MeuProfessorAbusador. Em 2017, após a revelação das acusações contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, a hashtag #MeToo mobilizou milhares de mulheres a expor abusos e assédios mundo afora.

Um novo estudo do Instituto Avon registrou um aumento de 324% nas menções sobre "assédio" contra mulheres na internet entre 2015 e 2017 – as denúncias deste tipo de importunação virtual (cyberbullying) cresceram 26.000% no período. As citações a "violência" contra a mulher aumentaram 211%.

“Há casos antigos, que se arrastam há anos, mas nunca foram para frente. O acolhimento agora motivou as meninas. Deu confiança para elas”

Offline, relatos de violência sexual cresceram 123% no primeiro semestre de 2016 (só nas denúncias anônimas ao Ligue 180, foram 67.962 relatos de violência, 4,3% de violência sexual). Dados do Datafolha de 2017 revelaram que 40% das mulheres admitiram já ter sofrido um tipo de assédio no ano anterior, de comentários desrespeitosos nas ruas (20,4 milhões de mulheres) a ser beijada ou agarrada sem consentimento (2,2 milhões).

Apesar do atual aumento de notificações, estupro e assédio ainda não são tão notificados quanto se espera: 63% das universitárias ouvidas pelo Instituto Avon preferiram “deixar para lá”. Além do medo de represálias, um dos entraves é a necessidade de reviver a lembrança da violência ao narrar o caso diversas vezes, para investigadores, promotores e juízes. “Muitas vezes, o abuso acontece entre quatro paredes. Então, em última instância, casos de assédio no ambiente acadêmico acabam confrontando a palavra do agressor contra a palavra da vítima”, lembra Ganzarolli. 

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Historicamente, a palavra feminina não é lá muito valorizada. No livro-estudo Estupro: Crime ou 'Cortesia'? (1998), a jurista Silvia Pimentel e a antropóloga Ana Lucia Schritzmeyer analisaram 50 processos judiciais arquivados e 101 acórdãos publicados, de 1985 a 1994, nos cinco cantos do país. Ao fim, elas encontraram um punhado de manifestações machistas no discurso de profissionais do direito, deixando nítida a dificuldade de se aceitar a palavra de uma mulher. "Por que o depoimento da vítima não é valorizado? A sociedade é estruturalmente machista e heteronormativa. É o juiz que diz que ela provocou, o policial que não quer investigar porque pensa que ela mereceu. Assim, às vezes há diversos depoimentos para um só caso, mas que não são nem considerados", acrescenta Ganzarolli.

As supostas situações de assédio aconteceram entre quatro paredes na Udesc. A palavra das estudantes está no dossiê encaminhado à universidade e nos boletins de ocorrência à polícia. Fora a afirmação de inocência, o professor, por sua vez, ainda não se manifestou sobre os detalhes das acusações.

Créditos

Imagem principal: Desenhos: Carol Ito / Cores: Heitor Loureiro

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